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O
TREM É ALMA DE MINAS:
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Por José
Carlos Machado(*) |
No vocabulário
mineiro, as acepções conferidas à palavra “trem” não se limitam a
“coisas, objetos em geral”, como muitos supõem. Sua utilização recai
em situações alusivas ao plano objetivo e também naquelas singularmente
subjetivas, transcendentes mesmo. Pode-se afirmar que alguém seja profundo
conhecedor das múltiplas vertentes do espírito mineiro, se conhecer, com a
devida profundidade, todas ou quase todas as situações de uso da palavra trem
nas vastidões de nossos rincões. A seguir, expomos parte do amplo
universo semântico que envolve o lexema “trem”, apenas o suficiente
para comprovar o título que conferimos a este artigo.
·
TREM = coisa, objeto, em sentido indistinto.
Exemplo:
Ele escondia um trem na mão direita.
Neste particular, existe uma anedota que narra o
seguinte:
Uma família de caipiras aguardava
o trem numa pequena estação do interior mineiro. Embarcaria para Belo
Horizonte, de onde seguiria de ônibus para São Paulo. Era mais uma família
de matutos que migrava para aquele estado, daí por que levasse todas suas
posses, estas resumidas a uma grande quantidade de sacos esparramados pela
pequena estação ferroviária. Após longa espera, o trem aponta finalmente
ao longe. O pai, tenso e preocupado em não deixar nada para trás, volta-se
para os membros de sua família e anuncia:
— Peguem os
trem, que a coisa já vem!
·
A propósito, afirma-se também em tom de anedota que o
mineiro não perde o trem, por ser literalmente previdente. A
expressão aplica-se também à definição de seu caráter matreiro.
·
Estou com vontade
de comer um trem... = refere-se a algo
gostoso, que se deseja, mas que não se sabe precisar o quê...
·
Que trem doido!... = imprecação contra quem comete um desatino qualquer.
·
Ei trem doido, sô! = interjeição de satisfação.
·
Que trem, sô!... = interjeição de
perplexidade: pode ocorrer desde a situação em que um engenheiro da CEMIG aplaca seu
nervosismo ante um acidente com a rede elétrica até a contrariedade do
capiau que perde uma de suas minguadas vacas, vítima de brucelose...
·
Que trenhão...! = referindo-se a uma mulher
muito sensual...
·
Se meu
filho fizer um trem errado, chamo-lhe a atenção no ato! = situações subjetivas, em que a cultura autoritária do
pai se manifesta.
·
Este menino já anda com idéias de
namoro... Que trem!
= aqui
temos um
misto de perplexidade, admoestação e,
contraditoriamente, de aprovação.
·
Qualquer trenzinho que eu faço, minha mãe já pega
no meu pé... = o filho queixa-se da mãe, numa situação em que a
palavra trenzinho generaliza ações tidas como insignificantes e, no
entanto, objeto de reprimendas da mãe.
·
Um trem se mexeu ali no mato, e ele se borrou de
medo...! = Há aqui uma generalização do sujeito agente da primeira
oração.
·
Vou na rua comprar uns trem...
= Este é um exemplo de generalização máxima!
·
Vendeu a
casa que
tinha, e
agora mora de
aluguel... Que trem bobo ! = atitude
de reprovação, de condenação do procedimento alheio.
·
E então
aconteceu um
trem horroroso: os dois carros chocaram-se
de frente! = na expressão
de momentos de pavor.
·
Estou sentindo
um trem esquisito...
= pode
referir-se tanto
a um
simples mal-estar, como a um sinistro
presságio.
·
Se acontecer um trem comigo, cuide de minha família... = típica
expressão de
alguém
temeroso de algum
presságio.
·
Que trem bão! = Bem feito! Reprimenda por um
erro ou imprevidência.
·
Que trem bão! = real satisfação, em situações
de contentamento.
·
Você está procurando um trem que não guardou...!
= admoestação
a alguém por ações condenáveis e nas quais antevê-se iminente
perigo ou decorrência desfavorável.
·
Você está querendo um trem impossível!
= reprimenda ao caráter ambicioso de alguém.
·
Comprei um trem arrumado!
= pode
referir-se tanto
a um cavalo, quanto a um
carro, eletrodoméstico, etc., enfim, a qualquer aquisição de boa
qualidade. A propósito, em Capelinha há uma loja de artigos para presentes
com o nome de “Trem Arrumado Presentes”.
·
Que trem engraçado, uma cadela criando um gatinho...
= a palavra trem é empregada em situações inusitadas.
·
Que trem pra frente!
= referindo-se ao caráter audacioso de alguém.
·
Que trem sapeca! = para se referir à falta
de inibição de alguém.
·
Que trem
horroroso...!
= pode
referir-se a
uma situação de
real pavor, como
pode traduzir espanto diante da audácia de alguém.
·
Este menino é um trem do outro mundo!
= expressa alto grau de travessura da criança.
·
Que trem insuportável...!
= pode referir-se a alguém
realmente antipático ou referir-se, contraditoriamente, a alguém
simpático,
cuja simpatia não se queira admitir deliberadamente.
·
Ô trem ganancioso! = reprimenda à ganância.
·
Ô trem levado! = reprimenda ou mesmo elogio
velado à intrepidez.
·
Que trem esperto...!
= pode conter elogio
à esperteza ou reprimenda sutil à atitude de espertalhão, de velhaco.
É realmente extenso o valor semântico
da palavra trem em Minas Gerais. Posso aventar hipóteses sociológicas
e afirmar que as pessoas que se utilizam desse vocábulo nas variantes
dialetais aqui apresentadas, em qualquer parte do mundo, podem ser
seguramente assim identificadas:
-
São mineiras, com certeza.
-
Há uma grande probabilidade de serem do Vale do
Jequitinhonha.
-
Nasceram em cidades pequenas, vilas ou fazendas;
eventualmente, nasceram no campo e se transferiram para a cidade em tenra
idade.
-
Têm mestiçagem com preto ou índio. Nesse sentido, foi
proposital o emprego que fizemos neste artigo da palavra caboclo, referindo-nos
ao matuto mineiro.
-
Adotam maneiras simples de vida. A simplicidade é sua marca
maior: na moradia, no vestuário, na alimentação...
-
O comedismo e a modéstia são notórios em suas ações.
-
São de índole hospitaleira. Aliás, a hospitalidade mineira
é historicamente conhecida. Os europeus que visitaram o Brasil no início
do século XIX sentiram-se tocados com ela, especialmente o francês Auguste
de Saint Hilaire.
-
Têm internalizado em si o gosto pela música. No caso específico
dos nativos do Vale do Jequitinhonha, até mesmo a voz é meio musical, por
influência da Bahia. Aprecia-se a música como companheira da solidão,
evocadora nostálgica do passado mineiro (Minas é toda história!). O
matuto, espremido entre montanhas, tem na viola um manancial de notas
musicais que convidam ao repouso do corpo e da alma, após longo dia de
labuta.
Capelinha, 14 de abril de 2003.
(*)
José Carlos Machado é professor da rede pública estadual de ensino
de Minas Gerais, historiador e pesquisador. É autor do livro SENHORA
DA GRAÇA DA CAPELINHA.
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