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TEXTOS
LITERÁRIOS:
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SHOW
DE BOLA
Antônia
Rosa
O
meu coração é um imenso tapete verde
onde a bola repica sempre seu nome.
Os meus braços são as traves
e estão sempre abertos querendo te abraçar.
Dos meus cabelos longos fiz uma rede mágica
só pra te pegar.
Tento te enfeitiçar na lateral do meu olhar
apostando te convencer.
E na arquibancada do sonho
vi você partir naquele avião azul.
Sei que no pênalti armada pela vida
o gol era pura ilusão.
Minha pernas circulam na pequena área
pois agora só resta o escanteio,
meus passos decididos vão em busca de um grande
lance: encontrar você na grande área da minha
imaginação.
A torcida vibra, olé – olé – olé.
De peito aberto encontro a bola na marca
do seu coração.
Então você passou a viver
no círculo central da minha vida.
Educadora
e poetisa corintiana.
QUATRO
RODAS
Antônia
Rosa
Parati entreguei meus segredos
numa velocidade sem radar.
Corsa nas costas nesse tapete breu.
Ganhaste o Prêmio da sorte, Mercedes de luxo,
o conforto agressivo da fórmula Indy.
Talvez Opala,
Oh! Fusca meu sonho conversível, selvagem Mustang
que chegaste com ares de Fiesta.
Peugeot qualquer km e nem manobrou pra sair
na Brasília que nunca foi amarela.
Sentindo o Del Rey da estrada, Quantum risos
deixaste pra trás...
Eras Uno na minha vida!
Logus perderá a potência
e seu Passat te condenará.
Se resta o Pit Stop
não quero ouvir nem o ronco da Elba,
quero ir pra galera,
gritar esse Gol
porque o Tempra
é o melhor remédio
pra esquecer essa Voyage.
Educadora
e poetisa corintiana.
TRENZINHO
DO SERTÃO
Antônio Dornas
Trenzinho tocado à
lenha,
Vaporosa, ou "Maria Fumaça",
Que levava "João da Penha"
E dona "Maria da Graça".
Levava, fazendeiro e lojista,
E o ambulante,
"caixeiro".
Tinha maquinista, foguista,
Chefe, fiscal e graxeiro.
"Bate roda, bate trilho".
Bater trilho era a moda.
Eu não esqueço o estribilho,
Daquela cantiga da roda.
Ia cortando o sertão,
Alegre, sinuoso, devagar.
Carregava muita emoção
E a certeza de voltar
Já não existe o trenzinho,
Ficou só a recordação.
Coração está miudinho,
Ficou tão triste o sertão.
O
QUE É PÁTRIA, MEU MENINO
Arlete
Vieira Machado Rocha( *)
Meu
menino, Pátria é:
a boneca que você embala
a bola que você joga
o carrinho que você empurra
a pipa que você empina
A
casa onde você mora
a família que cuida de você
o sorriso da mamãe
o trabalho do papai
a adulação dos avós
O
doce gostoso na sua boca
a fruta madurinha que caiu do pé
a flor que você cheira
a horta que dá verduras
Os
amigos com quem você brinca
e, às vezes, briga...
os brinquedos de roda, de cabra-cega,
de mocinho, de casinha
os vizinhos que nos ocupam e a
quem pedimos as coisas.
PÁTRIA
TAMBÉM É...
O
riacho de tomar banho
o rio de pescar
as ruas onde todo mundo passa
a escola onde você estuda
a igreja onde rezamos
o clube que freqüentamos
a cidade onde moramos
E
outras cidades
mais outras
outras mais
E gente, muita, muita gente!
TUDO
ISSO, MEU MENINO, É PÁTRIA!
MAS A PÁTRIA É MUITO GRANDE E
TEM AINDA MUITO MAIS
A
PÁTRIA AINDA É:
o céu azul cheinho de estrelas
as florestas verdinhas
as serras tão altas
os rios tão grandes
o mar de areias branquinhas
com suas jangadas
os pampas com o gado pastando
os campos com as plantações
o milharal, o cafezal
os coqueirais dançando ao vento
os bandos de passarinhos coloridos
e de insetos inquietos
os parques de árvores e sombras fresquinhas,
as praças e os jardins com seus
canteirinhos carregadinhos de flores
e com seus banquinhos para os namorados...
as minas profundas que guardam
tesouros... Tantas cidades!
cheinhas de fábricas, cheinhas
de escolas, cheinhas de gente!
A
PÁTRIA É
o chão que pisamos de onde tiramos o barro
o cimento
para fazer nossa casa, as estradas
daqui para ali.., e por aí
afora, por todos os cantos, por
todos os lados
OS
BRASILEIROS...
Brasileirinhos pés descalços
sapatinhos pés descalços
sapatinhos
E gente grande como o papai,
forte e viril
TUDO É BRASIL! TUDO É BRASIL! TUDO É BRASIL!
Educadora
- Escritora
O
QUE EU VI
Edênio
Godofredo Gandra( *)
É apenas uma pletora do olhar, o caminho da narração do momento.
Ontem, quando voltava de um passeio noturno, numa primeira esquina que
havia de cruzar, senti que os meus fios de cabelos, começavam a se
levantar por uma força interior.
Um vulto que me
parecia de um animal muito grande e selvagem, um verdadeiro monstro de
carne e osso, surgiu a uns dez braços do meu caminho a ser percorrido.
Tive vontade de voltar! Mas, como poderia ser, se era o único caminho
que me conduziria até minha casa?
Já era tarde.
Mais ou menos onze horas e trinta minutos da noite.
Pensei bater à
porta de um amigo qualquer para pedir auxílio.
Todos estariam
dormindo, por certo! No interior, onze horas correspondem madrugada para
todos aqueles acostumados numa vida de sossego e solidão. Sentindo
envergonhado comigo mesmo, tentei enfrentar a situação imprevista por
mim. Os ânimos bastante cansados pelo esforço de coragem, nada queriam
ter com a dureza. A luta do consciente com o subconsciente, esgotavam-me
a cada vez mais. Então, diante daquele quadro que mais me trazia medo
que coragem, ou melhor, confiança em mim mesmo, fiquei numa situação
bastante digna de piedade por todos que me vissem ali, a tais horas da
noite. Tentei voltar e agir de acordo com o meu primeiro pensar: pedir
auxílio a um amigo qualquer. Como voltar?
Quando fui dando
as costas para o fantasma, senti ouvir uns passos rápidos e pesados a
acompanharem-me. Como se fosse um militar ao cumprir uma ordem imediata,
dei meia volta, mas, não segui o rumo desejado.
Pobre de mim, pensava eu! Que iria fazer para aquele vulto deixar que eu
passasse?
Parecia-me que
já não era aquele mesmo homem de antes que presenciava aquela cena de
terror.
O sangue
acumulava-me nas veias, tirando-me toda a força para correr. Com as
pernas trêmulas, sentindo no corpo, deslizar-se um suor frio, provocava-me
uma dor imensa, desde a cabeça até as pontas dos dedos.
De quando em vez,
sentia passar dentro de mim, uma espécie de vácuo. Estava prestes a
desmaiar.
Eu que sempre fui
católico e cria em tudo que merecia fé; desde os dogmas aos pontos
menos importantes para a religião, estava começando a acreditar em
cousas diferentes, isto é, que a própria Igreja condena. Pensava: Bem
minha mãe falou que eu não chegasse tarde em casa. Será castigo?
Minhas tias contavam-me, quando criança, histórias de almas, mulas sem
cabeças que apareciam a todas as crianças que pecavam e estavam em
pecado mortal! Mas, já não sou mais criança! Que será isto que tanto
me persegue, será o demônio que se aproxima com o carnaval? Por que
vem aparecer logo a mim? Eu que sou tão bom, tão caridoso!
Por que não vai
aparecer a outras pessoas de menos medo que eu?
Aparecer a
pessoas más?
Ah! Se meus
amigos pudessem ler meus pensamentos naquela hora!
Ou se ao menos
deles soubessem!
Eu que contava
tanta vantagem; valente, destemido, corajoso para todos e para tudo! -
Ah! - Se soubessem!
Quanta zombaria
não iria suportar no dia seguinte! Quanta! - É - Você que dizia ir ao
cemitério a qualquer hora da noite! Você que invoca a todas as almas
que lhe apareçam! Você que é bravo e que conta vantagens! “E agora?
Pensando nisto,
na minha desmoralização diante de mim mesmo; vendo aquele fantasma a
acompanhar todos os meus gestos querendo agarrar-me, resolvi tomar outra
providência para poder chegar até minha casa que não ficava distante.
Tentei gritar
pela primeira vez! Faltou-me a voz. Que fazer?
Sentei-me num
pedrado alto de uma casa que ficava perto. Com as vistas fixas no
fantasma à minha frente, um terror aumentou ainda mais. O bicho estava
de outro lado, com a mesma distância que guardava antes. Neste momento,
criei alma nova e tentei reagir.
Lembrei-me que em
certa época havia lido um livro de Euclides da Cunha “Os Sertões”
onde certo trecho conta histórias dos homens bravios do nordeste, que
enfrentavam onças terríveis com tições de fogo. Não ia imitá-los,
mas, enfrentar a situação. Desembainhei o punhal que trazia comigo;
levantei-me com rapidez e coragem, dirigi-me em caminho para a luta.
Eis que me vou
colocando de pé e o animal também. Era a hora do duelo. Ao passo que
ia caminhando com a faca em punho, o fantasma se retirava na mesma
proporção. Andei bastante! Enxortado pelo afastamento daquela figura,
gritei com bastante força: vamos! - Vem! enfrenta-me!
— Tu tentastes
correr atrás de mim, vem agora? Dizendo estas palavras, continuei
andando com bastante raiva.
Minha casa ficava
mais perto. Continuei gritando!
Quando fui
passando, debaixo de um poste, onde bem em cima ficava uma luzinha
vermelha, o fantasma desapareceu de minha frente. Senti outra morte
dentro de mim. Quando olho para trás, - que surpresa! - o monstro
continuava numa posição firme, querendo me pegar pelas costas.
Gritando com voz forte, caminhei em sua direção. Ele novamente
desaparece de minha frente e volta à sua antiga posição.
Meu pai ouvia
aqueles gritos de quem estava quase a morrer; conhecendo a minha fala,
sai em meu socorro.
Que espanto! Meu
filho! Estás louco? Que fazes sozinho a esta hora, a gritar em voz de
luta?
Ouvindo aquela
voz e conhecendo-a, respondi:
Ajuda-me meu pai!
Vamos pegar aquele monstro que há horas vem querendo me pegar.
Qual monstro,
retrucou o velho!
Num gesto de
maior coragem apontei, para o chão.
Olha meu filho,
quanta bobagem! Vamos p’ra casa.
Estás brigando
com a tua própria sombra...
Depois de
discordar um pouco, cheguei à conclusão de que aquele fantasma, era de
verdade, minha própria sombra.
Agora amigo, não
rias! Deves acreditar:
Muitas vezes
nossas sombras são mais terríveis e mais amedrontadoras que os
próprios monstros e os verdadeiros fantasmas.
Bacharel em Direito e em Letras
(In-memoriam)
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MINHA
CIDADE
Eloá Caxangá
(Inspirado no
poema "Minha Cidade", de Cora Coralina)
Corinto, minha
cidade...
Guardas em teus caminhos
A minha inocência,
Guardas em teus antigos muros
Os meus antigos segredos
Guardas em tuas ruas
As lembranças daquela
Menina feliz que fui...
Corinto, minha cidade...
Nas minha horas de angústia
Lembro-me de ti
Da segurança das tuas ruas
Que me conhecem
Do teu povo que eu conheço e amo...
Da rua Pedro Lana, minha rua
Pedaços de mim que ainda vivem lá...
Aina posso ver meu Pai com seu andar
Medido (conhecendo cada pedra) descer a rua
E eu, menina, aguardando
O abraço, o sorriso, o presente...
A querida Escola Major Clarindo de Paiva
Atravessando décadas
Com a mesma austeridade e doçura...
Corinto, minha
cidade...
Nas minhas horas de alegria
Lembro-me de ti
De como foi doce
Ser jovem em teus domínios
Descer e subir mil vezes
A rua do Footing
Point de minha geração...
Ir aos bailes no Clube Ferroviário
Lugar de amores e histórias
quantas saudades!
Corinto, minha
cidade...
Vives dentro de mim
Entranhada, enraizada
Todos os meus sonhos e ideais
Dentro de ti
Guardas contigo o melhor
Que tive e fui...
Corinto, minha
cidade...
Eu sou aquela que um dia
Mesmo sem querer, precisou partir
Mas que vive esperando
pelo dia de voltar.
MINEIRÍSSIMA
Eloá Caxangá
Eu sou Minas
Eu canto as Minas
A mina do amor
A mina interior
Eu sou do coração de Minas
E meu coração é de poeta
Mas não gosta de rimar amor e dor
Sou da terra de Juscelino,
Tancredo,
Tiradentes,
Carlos Drumonnd, o poeta-Maior
Milton Nascimento...
Adoro esta Terra
sou gamada por ela
Com suas ladeiras,
Seu povo simples
Seu queijo gostoso, famoso...
A mulher mineira, que quando
ama é tão sincera
e faz carinho como ela só
Amo Minas com suas superstições absurdas
Com suas igrejas e a sua fé
às vezes cega, mas sempre sólida
Tenho a raça dessa terra no sangue
A raça das minas...
As Minas Gerais.
LITERATURA
DE CORDEL
E.E. José
Brígido Pereira Pedras(*)
Todos
cantam a sua terra
E eu também vou cantar a minha
Com seus tipos populares:
—Manoel Pato e João Galinha.
Corinto terra divertida
Com seus apelidos pitorescos:
Muitos são nomes fortes,
Outros fracos e bem frescos.
Chico Gato
– Piriquito
Pedro Galo e “Piriá”
Vaca Mansa, Vaca Ruça,
João Rã e João Gambá.
Balaio e Zé Nariga,
Caraolho e Butinão,
Zé doido, Zé Barriga,
Bacuté e Macarrão.
Macalé e Zé Maminha,
Tira-Gosto e Papagaio,
Manga Rosa e Batatinha,
Pela-Osso e Marataio.
Sá Rosa e Zé Palito,
Pau Velho e o Fofão,
Barrão e Lamparina,
Adão Ruela e Lampião.
Geraldo Garrote e o Boi,
Geraldo Ferrugem e o Bolinha,
Geraldo Bicanca e Marreta,
João Tolo e Zé Capeta.
Neste grande coquetel
De Beú e de Fubá
Tem até Piriquitel...
Tem Cachacinha, tem Bambu,
Aritana e Zé Mandinga,
Zé Preto e Urubu.
Carranca e Zé Bicanca,
Pé na Cova e Bacaninha,
Maxixe e Pela-Osso,
Lambança e Nem Galinha.
Nesta vida de orgia
Tem até Wilson Gia
Procurando a gente acha
Repolho e Borracha.
Da Roça e Cabeção
Pindoba e Chico Gato,
Zé Rato e Azulão,
Trator e Carrapato...
Beto Calango e Zé Banana
Fumaça e Nega Véia,
Celso Porquim e Castigo,
Bocão e Vanderléia...
Bafo de Bode e o Saci,
Neném Perigoso e o Mandim,
Maria Repolho e o Canoa
Geraldo Tarzan e o Surubim.
Batatinha quando nasce,
Se esparrama pelo chão
Batatinha se tem raiva
Solta logo um palavrão.
Bolinha e a bicharada
Eu o comparo a um santo
Será que São Francisco
Se importa se eu chego a tanto?
Castigo a dança é o compasso
No tempo de sua vida
Você dançando, Castigo
Esquece sua pobre lida.
Julieta! Julieta!
A cigarra do sertão
Seu canto alegre ameno
Arrebata o coração!
O Felipinho Babão
Sempre a chorar e a babar
Se lhe tomavam o apito
Para o trem de ferro passar.
Nascimento, o apaixonado
É maravilha de cantor
Tem jeito de artista, o danado
É um afinado tenor.
O Manezinho das Moças
Das meninas namorado
Hoje, no céu de brotinhos
Deve estar sempre rodeado.
Badeco, você na verdade
Esqueceu-se de inventar
Um tônico contra a morte
Pra ela não lhe buscar.
Adelina, linda noiva
Com seu traje angelical
Na rua, sem noivo entoa
A marcha nupcial.
Assim são conhecidos,
Estes vultos populares,
Povo bom e gente fina,
Zé Polaque e Zé Butina,
Amigos do Coração!
Desse povo
bom e vivo
Só não falo dos “Ivo”,
Por causa do Geraldão...
Todos cantam a sua terra,
Eu também cantei a minha,
Com seus versos parecidos
Com as pernas do Tianinha...
(*)-
Trabalho realizado pelo professores:
Marilene Barbosa do Santos Venuto e Zacarias Barbosa da Rocha,
Com os alunos dos 1.ºs anos A, B, C, D, E e F.
- Recomposição Poética:
Edênio Godofredo Gandra.
Extraído da Gincana:
“Corinto Em Retrospectiva” – Ano: 1990
TIPOS
POPULARES DE CORINTO
Escola
Estadual Professora Maria Amália Campos
Meus senhores e senhoras
Atenção para meus falares
Vou lembrar-lhes sem mais demoras
Dos nossos tipos populares.
BATATINHA
Todo mundo conhecia
A leiga professorinha,
A assídua filha de Maria
A interessante GERALDINHA.
Não cresceu, mas casou-se,
E teve até um filhinho.
Hoje sua vida mudou-se:
Já é avó de netinho.
Sua vida mudou-se de água para o
vinho,
Pois na bebida viciou-se.
Quer ser a Xuxa do Curralinho,
Mas, na verdade, é simplesmente BATATINHA.
JOEL
Joel
risadinha
Gosta de fazer gracinha,
Com a sua dentadura,
Que fica sempre frouxinha.
Anda mancando de um pé
E é chamado de Joel Manquinha.
Todos que ele vê,
Pergunta pela perninha.
MARIA CANOA
Essa aí que era boa!
Era mãe e era avó!
A dona Maria Canoa,
Nunca, nunca, andava só.
Uma trouxa na cabeça,
Uma neta em cada braço.
Enquanto uma neta brincava,
Ela a outra amamentava.
Das pessoas
de que gostava
O seu nome soletrava.
Ela, que não lia, não escrevia,
Achava um nome que até parecia:
Fê – i – fi – gê – e - gen – nê – a – na
Seu nome é Regina?
CASTIGO
Castigo, mulher dengosa,
Já foi bonita e formosa.
Rodopiava num salão,
Agitando a opinião.
Dançarina em cabaré,
Rodopiava, que mulher!
Castiga ele, Maria!
Era a voz da freguesia.
Assim se tornou popular
Nossa amiga Maria.
Tem um casal de filhos,
Criados e formados, que alegria!
ANTÔNIA BRECHÓ
Nas ruas por onde passava,
Elegante como ela só,
Todo mundo observava
A formosa ANTÔNIA BRECHÓ.
A velha
sexagenária
Queria ser broto de trinta.
Cabelo de frente – rapava de navalha,
Pois, ele não pegava tinta.
Dona de
pensão, aquela senhora
Alugava quarto pra mulher-dama.
E de manhã, bem cedo da hora,
Já estava a cobrar o “troco da cama”
Embora vivesse desse jeito,
Na rua da boêmia,
Exigia bom trato e respeito,
Pra si e pro seu mulherio.
CHIRIRIM BAM BÃO
Você aceite um café?
Não! Aceito uma chá de mate.
Ele, depois que almoçava,
Preferia esse arremate.
Era ele o “CHIRIRIM
BAM BÃO”,
Que saía pedindo auxílio
Para comprar, ou fazer o caixão,
Cada dia, pra um filho.
ARLINDA
Arlinda doida dava gritos,
Quando alguém lhe apupava.
Andava durante o dia
E pelas ruas esmolava.
Numa lata de
dois litros,
Só comida pronta recebia.
Esperando sentada, cantava,
E ali, no chão mesmo, ela comia.
Os moleques a chamavam de “TECHA”
E apitavam piu-u-i-uiu!
Ela retrucava com essa pecha:
“Vai à puta que o pariu!”
FILIPIM BABÃO
Mulato, baixinho, cara miúda,
Conhecido de gente pobre e gente graúda.
Andava nas ruas, mas trabalhava.
Não falava, gungunava.
Se
tataranhava uma palavra,
Ou, talvez, um palavrão,
Era então que ele babava.
Daí seu nome “FILIPIM BABÃO”
Terno azul marinho, de casimira
E boné da mesma cor.
Quem o via tinha em mira:
Era da estação trabalhador.
Eram os ferroviários presentes
Que recolhiam de mão em mão
E formavam o seu vencimento
E o pagador lhe dava como gratificação.
De vez em quando, o Felipe
Mudava de profissão:
Virava guarda de trânsito,
De bandeira e apito na mão.
MARIA CANELINHA
Maria Canelinha, pretinha e
bonitinha,
Não era alta e nem baixinha.
Usava roupas curtinhas,
Mostrando as canelinhas.
Era uma
barranqueira, de Januária,
Que andava doidinha e arrumadinha.
Em Corinto ela vivia alegre
E era chamada de “MARIA CANELINHA”.
Lábios grossos e pintados,
Cara preta e maquiada,
Pernas brilhosas e fininhas,
Era assim MARIA CANELINHA.
VANDERLÉIA
Vanderléia é uma senhora
Cachimbeira e bebedeira.
Seu filho anda arrumado,
Porém, ela anda que é só sujeira.
LUZIA DOIDA
Luzia Doida era afoita,
Hoje, me resta a lembrança
E dela me escondia, na moita.
Pelas ruas perambulava,
Batendo numa latinha.
Saracoteava, e dançava,
E balbuciava um palavrinha.
E na calada da noite,
Dava-se aos homens da rua.
Tornava agradável o pernoite,
Aos trovadores da lua.
ADELINA
Adelina foi se embora
Por causa de seu nego judiador.
Foi morar debaixo da ponte,
Lá em Belo Horizonte.
Os seus dois filhos pequenos,
A polícia carregou,
Depois desta cena triste,
Adelina se endoidou.
ZÉ BOCÓ
O cisterneiro José Bocó,
Era tolo como ele só.
Mas as coisas, que ele queria
De verdade mesmo, ele entendia.
Um dia, quis até cortar o pó
Pra não mais usar o urinol.
Mas entendia bem de pescaria
E até, sobre política, discutia.
IRACEMA
Até que era uma bela figura:
De olhos verdes e inteligente.
Pra cada pessoa, que passava,
Falava uma rima diferente.
“Olha o
homem de roupa xadrez,
Parecendo um galo pedrês.
Dois numa bicicleta,
Um cabeludo outro careca.”
“A mulher
de saia roxa,
parecendo mulher da trouxa”.
Mas coitada da Iracema!
Neste ano ela morreu.
Parece até que de teima,
Foi fazer versos no céu.
JUSCELINO
É o personagem popular mais
recente
E canta até que a goela seque.
É cantor, mas não é presidente,
Se codinome é Juscelino Kubitscheck.
Canta num desafogo:
Julieta-tá tá me chamando.
E ele mesmo responde, dançando:
Toco cru pegando fogo.
MANEZINHO DAS MOÇAS
Era pardo e feinho,
Bigode ralo, cabelo e fiapo,
Muito limpo, o divertido Manoelzinho
Tinha uma carinha de rato.
Manezinho das moças,
Assim ele era chamado.
Enquanto elas faziam troças,
Ele se sentia o bem amado.
Era bem bom no trabalho:
Cavava, limpava e plantava.
Manezinho quebrava qualquer galho,
Pois, até cozinha ele arrumava.
A todos a quem conhecia,
Prazeiroso, ele visitava.
Ser padrinho dos meninos queria,
Os pais, de compadre chamava.
Inesquecível tipo engraçado!
No frio, com um cachecol xadrez,
Fazia rir a moçada,
Falando inglês e francês:
COMANTALEVU?
RUESUANF ASSUÁ?
MERCI BOCU
NEPADEQUÁ
ISABELINHA
A singular Isabelinha
Era baixa e bem gordinha,
Para andar de fasto e se firmar
Uma bengala gostava de usar.
Cabeça grande e cara amarela,
Um lenço escondia a cabeleira dura,
O lábio rachado, deixando a janela,
Mostrando um dente da dentadura.
Até que seu gosto era de primeira,
Quando se falava em namorado.
Viriato Nolasco e Onofre Vieira,
Pelos dois era ela apaixonada.
Quando em uma loja queria
Um vestido novo comprar,
De cada peça de pano pedia,
Pro balconista, 15 centímetros cortar.
Todos já podem imaginar
Como é que seu vestido saía.
Só tinha um que era sem par:
O vestido branco da filha de Maria.
BOLINHA
Quando quiser encontrar Bolinha,
Procure-o nas lixeiras,
Que você vai encontrá-lo na Rodoviária,
Com a boca nas porqueiras.
Ele se veste em frangalhos
E vive sempre acompanhado
De um cão imundo, esfomeado,
A procurar sujas migalhas.
Com um saco emporcalhado
É um andarilho sem sorte,
Usando um paletó preto
Parece zombar da morte.
ARISTIDES
Aristides é engraçadinho,
É homem trabalhador,
Faz entrega de pastéis
Pra ajudar o seu senhor.
Anda sujo, muito ensebado,
Sempre alegre e brincalhão
Quando vê uma menina,
Mexe com ela o bonachão.
—Tá
boazinha, tá boazinha?
Acha que pode o safadinho
Encontrar um amorzinho
E não viver tão sozinho?
MARIA BEÚ
Desde
menina eu já vira
Uma moça bom doidinha,
Que era filha de D. Elvira
E atrás da gente corrida.
Se chamá-la de Maria Beú
Ele xinga palavrão.
Porém, é muito religiosa
E tem bom coração.
Não perde
missa, velório e procissão
E gosta muito de andar.
Começa a chorar e xingar
Se chamá-la “Maria Fubá”.
DOMINGOS
Ô
moço, quem morre no sábado
Em que dia é que se enterra?
—Ora, é na segunda-feira
que ele vai pra debaixo da terra
Não, Domingos, você está
enganado.
Quem morre em dia de sábado
No domingo deve ser enterrado,
Na segunda-feira, já fede mais que um cagado
MAJOR
Era tão engraçado o papudo
A quem todos chamava Major
Fazia festa com tudo
Gravatas tinha de toda cor.
No dia em que sua mãe morreu
Todas as gravatas, juntas, ele usou
Verde, vermelha, amarela e cor do céu
Com todas elas o papo tampou.
Extraído
da Gincana: “Corinto Em Retrospectiva” – Ano: 1990
GENTE IMPORTANTE
DE CORINTO
Agora senhoras e senhores
Vou falar de gente importante
Por seus grande feitos e favores
São elas lembradas a todo instante:
ISLAND PEREIRA
Eis aqui um homem nobre
Não há ninguém que mal lhe queira
É o farmacêutico Island Pereira
Que sempre cura o rico e o pobre.
Naquela figura esbelta se encobre
Um coração de rei, uma alma altaneira
Não há ninguém a quem ele cobre
Além do remédio a consulta certeira.
D. EFIGÊNIA
Dona Efigênia, a sábia catequista
Por quarenta e cinco anos ensinou
Como um exemplo por todos era vista
Pelo tanto que a Deus e irmão amou.
Era mulher que a todos ajudava
Com trabalho, conselho e oração
O que nela a todos admirava
Era a energia e o bom coração.
Notável era a sua fidelidade
A todos, que como irmãos adotou
Como prova de sincera amizade
Afilhados, mais de duzentos deixou.
Naquele dia
em que Deus a chamou
Gente e mais gente num choro se uniu.
Uma pessoa assim argumentou:
Igual a “ela” só uma entre mil.
ARNÔ AGUIAR
Olha esse homem de terno amarelo
Com a mala na cabeça a carregar
De vontade de saber eu me pélo
Quanto no Banco ele vai depositar
Dinheiro tem ele igual farelo.
Aposentado inda vai trabalhar
Mas será porque não anda mais belo,
Ele que vive dinheiro a emprestar?
O seu prazer com o dinheiro era tê-lo
Era emprestá-lo e nada comprar.
E agora que Deus levou o bom velho
O que fará no céu o Sr. Arnô Aguiar?
DR. ALVARENGA
Este sim, este foi o maior
Em sabedoria, em cultura e em dom
Pra todas as missões de amor
Dr. Alvarenga sempre foi o bom.
Bom esposo, bom pai, bom doutor,
Conheceu da roça e da cidade
Todo povo de Corinto morador
E a todos dedicou sua amizade.
Muita gente de Corinto ele curou
Todo mundo em suas consultas confiava
Sua luz em cada dia demonstrou
Por isso o povo todo o amava.
Atendia de manhã e até de madrugada
A quem procurava alívio a sua dor,
Dos pobres nem cobrava nada
E ainda os alegrava com uma pitada de humor.
A rua mais importante tem seu nome
E isto ainda é pouco pelo que foi
Corinto inteiro deve louvar esse homem:
Dr. Alvarenga Deus te abençoe.
Extraído
da Gincana: “Corinto Em Retrospectiva” – Ano: 1990
LITERATURA
DE CORDEL - TIPOS POPULARES DE CORINTO
Instituto
Dom Serafim
Corinto, terra querida,
De gente esperta e amiga
Quem com amor aqui vem,
Não mais parte no trem.
Terra boa, terra bela
Das moças e das donzelas
As pessoas que vêm de fora,
Não mais querem ir embora.
Coro: E a cidade cresceu
E gente nova apareceu!...
O Carnaval famoso,
Desse povo caloroso
Traz a LÍDIA, o CABEÇÃO
E SAPO-SECO: boa recordação!
Do centro da Gerais
Há muito pra se contá
Vem vê, meu povo, vem vê
Nossos Tipos Populá.
Do passado ao presente
Não há quem não conheça
Vivem pra lá e pra cá
Sem tá com o que se preocupá.
Coro: E a cidade cresceu
E gente nova apareceu!...
Voz arrastada, olhar penetrante.
Pernas grossas, estatura avolumada
Tinha ARLINDA a grande arte
De amedrontá a criançada.
LUZIA DOIDA, coitada!
De todos era explorada.
O respeito que merecia
Nunca do povo recebia.
Tinha MANEZINHO DAS MOÇAS
Gente fina a populá
Gostava de muié e pinga
E andava até o sol raiá.
Coro: ...
Portal do
Sertão Mineiro,
foi “Curralim”
Foi-se embora o BOIADEIRO
E chegou o FILIPIM.
Não esqueça de repentista
Que se chamava IRACEMA
Rimava como uma artista
Só faltou ir pro cinema.
Era muito inteligente
Falava tudo rimado.
Brincava muito com a gente
E tinha um jeito engraçado.
Coro: ...
O pobre do JABURU
Esse não vive mais
Mas tem a tal de MARIA BEÚ,
Que de rezá não esquece jamais.
ADELINA e VANDERLÉIA
Elegância e prosa bela
Uma, o noivo abandonou
A outra, nunca noivo encontrou
Coro: ...
Tem também o NASCIMENTO
Bebe até se embriagá.
Presente em todo casamento
Na igreja, põe-se a cantá.
De JOÃO TOLO é chamado
Mas de tolo, não tem nada
É Esperto, é engraçado,
A brincá com a meninada.
Tem também a grande dupla
Que gosta de nos xingá
É o JILÓ e a JURUBEBA
Que vivem só de amá.
Coro: ...
BATATINHA ou XUXINHA
Ninguém enxerga não.
Ela é tão pequenininha
Mais parece um anão.
O BOLINHA DAS CRIANÇAS
Tem olho furado
Pela maldade do povo.
Mesmo achando o culpado
Ele não enxergará de novo.
Portanto, minha gente boa,
Os Tipos Populá estão aí.
Quem quisé conhecê mió
É só dá um chego aqui.
Coro: ...
Nós cantamos essa gente
Com voz forte e animada.
Somos alunas do IDS
Que topamos essa parada!
Coro: E a cidade cresceu
E gente nova apareceu!
Extraído
da Gincana: “Corinto Em Retrospectiva” – Ano: 1990
NATUREZA
Everaldo Carlos Cruz(*)
Banha-me
Manhã,
Fico nu
Da sujeira de hoje;
Desigualdades...
Violências...
Desumanidades...
Estou feliz
Nos raios do Sol,
No frio que me encolhe,
No vivo verde
Das folhas;
Banha-me
Manhã
Oceano de Orvalho brilhante;
Que me faz lutar
E tonaliza,
A minha vida.
(*) Oficial da Polícia Militar
AO
GAY RAIMUNDO PIRUCA
Joni
Bezerra - Jornalista
Foi
ouvindo Nelson Gonçalves que conheci o
primeiro homossexual da minha vida.
Isso
lá em Corinto, na zona boêmia.Era
desmunhecado, falava fino e cozinhava uma
galinhada espetacular. Usava uma peruca de
meia de seda na cabeça, como gorro, daí o
apelido: Raimundo Piruca. Eu tinha uns doze
anos e era louco para comer uma pratada
daquela galinhada cheirosa, adornada com
tomate e alface. Mas cadê a coragem de me
aproximar daquele que os adultos apontavam
como “exemplo a não ser seguido”?
Supondo que me desceria goela abaixo também
o pecado, arredio, não provei daquele rango
que atraía gente até de Curvelo. Azar meu.
De
longe criticava Raimundo Piruca, zombando,
seguindo o exemplo dos adultos – esse sim,
que jamais deveria ser seguido. Raimundo era
ótimo caráter, povoava o vazio e a solidão
das prostitutas, era um porto seguro neste
chamado vale de lágrimas.
E
especialmente nos prostíbulos de minha época
esse vale era um abismo de lágrimas cavado
pelo diabo, pela religião e pelos homens,
pois quem se atolava nele, as mulheres,
apanhava muito.Coitadas!Era visto como herói
quem as espancasse após o amor (?). Hoje
carregando esta cruz incômoda – de ter
discriminado Raimundo Piruca e, veladamente,
aquelas mulheres, avalio a quantidade enorme
de outras pessoas ótimas que expurguei de
minha vida por terem cor, raça, religião e
comportamento diferentes.
Na
nossa cultura ocidental, onde a estupidez
prevalece, é até chique exibir
preconceito, pois alguns o confundem com
refinamento intelectual.Quanto atraso. Hoje,
ateu e medonho aos 54 anos, dedico essas
linhas a Raimundo Piruca e àquelas
mulheres, implorando que –se ainda
existirem entre nós neste abismo de lágrimas
aprofundado por vagabundos como ACM – me
afaguem com seu perdão.
Crônica
extraída do Caderno Gerais – Jornal
Estado de Minas
-quinta-feira , 7 junho de 2001, pág.
22
HIPPIES
QUERIAM REFORMAR O MUNDO
Joni
Bezerra
A
TI
José Andrade
Quando em ti penso, ó
menina,
Sinto o fogo do desejo,
De ouvir a voz que fascina,
E de gozar do teu beijo.
E esta minha atroz paixão,
É que me causa delírio,
E o meu triste coração,
Sofre do amor o martírio!
Porém, este meu sofrer,
Há de um dia se acabar,
Quando eu deixar de viver,
Ou quando não mais te amar.
LEMBRANÇA
José Andrade
Amei-te, sim, não se
nega a verdade.
Amei-te tanto e tão ardentemente:
Quase enlouqueço de felicidade.
Perto de ti me esquecia
a tudo e todos.
Amava. Era feliz.
Hoje eu posso afirmar-te que no mundo
Ninguém quisera assim como eu te quis.
Foste um clarão bonito em minha vida,
Luz
Que afugentava a minha escuridão;
Foste um sorriso alegre, foste
A minha grande apreensão.
Amei-te e acreditei naquele amor
(Seria crime o confessar?).
E porque tanto, tanto acreditei,
Agora eu sei
O quanto que soubeste me enganar.
Hoje eu quero esquecer-te. Porém,
O esquecimento não vem depressa assim.
É preciso outro amor, outra ilusão
Para que tantas mágoas tenham fim.
JOÃO,
O ASSOMBRADO
José Hipólito de Sousa
A seqüência e conseqüência das enchentes estavam deixando a
população em polvorosa.
Boatos: a
barragem não agüenta as águas do Velho Chico.
Impropérios,
desaforos e blasfêmias conta o culpado: o rio São Francisco.
à defesa
civil, nota dez.
Aos
voluntários, nota dez.
Nota dez ao
Governo.
Lamas, gado
morto, pedaços de canoa, galhos de árvores, defuntos desconhecidos,
tudo rolava na massa d'água, antes cristalina e agora barrenta.
Como em toda
catástrofe há sempre o espavorido, nesta o doutor João não cedeu
espaço para ninguém. A mulher, D. Maria, tinha enorme trabalho para
convencê-lo de que sua casa seria a última a ser banhada pela
enchente.
Mas, o doutor
era todo obsessão: morreria afogado. Já enxergava os jatos d'água
entrando por baixo das portas e pelo buraco da fechadura. Um mundo
catastrófico. Coisa que o próprio Dante não descreveria.
à noite,
João não ia ao banheiro e o arcaico urinol se tornava componente do
próprio João: por nada do mundo sairia de sob a cama.
Êxodo na
cidade. Férias antecipadas, licenças, dias abonados e até mesmo
abandonos de emprego. Um pavor.
Certa noite,
ao tomar conhecimento, pela televisão de que seria aquela uma noite de
muita chuva, João foi taxativo:
—Amanhã,
vou-me embora. Quem quiser que fique para ver o resultado.
Era noite e a
casa do João se trancava em silêncio. Proibido: arrastar, cadeiras,
descargas no vaso sanitário, tossir, qualquer ruído que viesse agravar
o psiquismo do homem.
Noite alta, um
grito:
—Socooooooooooorro...
me acudam!
Dona Maria,
sem conter o riso, acordou João:
—Tira
a mão de dentro do urinol, marido.
UM
ESTRANHO MUITO ESTRANHO
José
Hipólito de Souza
Sempre
que retornava de suas longas caçadas, o Coronel Firmino e sua gente
traziam fartas mantas de carne, ou alguma caça cativa. Desta vez dona
Sinhá, sua mulher, se assustou ao deparar com um personagem maltrapilho
tão estranho que, além de estar montado em uma das mulas que tinha ido
com surrões de mantimentos, estava com as mãos amarradas nas ponteiras
da cangalha.
De
imediato, Coronel Firmino mandou alguém à cidade chamar o Juiz, o
delegado e um médico. Apesar do titulo barganhado, um chamado do
Coronel era uma ordem. Afinal, que eu me lembre, candidato do Coronel
Firmino nunca perdeu eleição. As autoridades das redondezas, tanto ele
botava quanto tirava. Era mais fácil do que domar qualquer boi ou burro
brabo.
Chegando
o pessoal recorrido, Coronel Firmino explica ter acampado com sua tropa
(como dizia ele), no lugar de sempre para caçar. Nada encontrando após
infrutuosos tentames de dias, resolveu levantar bivaque em qualquer direção.
Ao
cabo de seis dias mato-a-dentro, depararam com uma clareira, onde, de
uma dúzia de cabanas esparrodava um mau cheiro de embrulhar as
entranhas e causar vomição. Tomados de curiosidade, foram até ao
interior das choças e se acercaram com moribundos e cadáveres pôr
toda a parte. O bando de urubus que tinham visto no dia anterior, lá
estava em horrendo banquete. O que levavam de medicamentos foi gasto sem
nenhuma valia nos desditosos maldelazentos. O melhor, era o rapazola de
perto dos vinte anos. Pelos traços pareciam ser remanescentes de alguma
tribo em extinção.
Tomadas
as providencias de praxe, as autoridades pediram um “cabeça” para
conduzi-los até ao local. Quanto ao rapaz, fora preciso uma lavação
jamais feita em outro ser humano. Não fosse o sabugo de milho e o
sabão de diquada, a caraca pôr todo o corpo não teria se soltado Para
acabar com o piolho foi procedida a raspação da cabeça com máquina
dois zeros e untação com cinza e querosene. Nos olhos remelentos,
estavam as marcas da sapiranga. Vermes de toda qualidade. Para retirar
um berne na perna esquerda, o doutor Xavier teve de fazer uma pequena
incisura. Em suas juntas, pequenas intumescências da avariose já se
assomavam.
Dona
Sinhá não ficou nada satisfeita. Todo o santo dia desacatava a
autoridade do Coronel Firmino, mandando que ele desse sumiço naquele
“mestiço asqueroso”.
Não
se ficou sabendo nada de certo da procedência daquela aldeia miserável.
Dela nada restava. Como medida de prevenção e higiene os corpos foram
enterrados e todas as choupanas queimadas. Ficou também acertada a
tutela do mestiço pelo Coronel Firmino.
Já
tratado, Marambá (ele próprio disse assim se chamar) ajudava na roça,
vaquejava, aprendia a ler e não gostava de falar do passado. Mal
parecido, dona Sinhá o detestava. “Se ao menos fosse um cigano
bonito, poderia se casar com a Lalá” pensava dona Sinhá.
Tendo
encontrado um bezerro esquartejado, Coronel Firmino pede ao pessoal,
inclusive ao Marambá, atenção redobrada e cuidados especiais, pois
parecia haver ali alguma onça extraviada e faminta.
O
tempo foi passando e o quotidiano se repetindo. Dona Sinhá
sempre a reclamar da Lalá, solteirona sem se casar e da presença do
mestiço.
Marambá,
caladão e arredio, estranho e cheio de mistérios. Coronel Firmino,
mandando e desmandando, mas a muito custo, mantendo a presença do mestiço.
Afinal de contas, bom de serviço e de despesa pouca. A bóia, uma vez pôr
dia. No barracão, apenas uma manguara com algum capim jogado pôr cima.
Roupa, o Coronel Firmino mesmo as pedia aos amigos, as usadas.
Certa
noite, estando a matutar com os seus botões, como acabar com a onça
que vinha dizimando seus bezerros já a algum tempo, o Coronel Firmino
é tomado de brusco sobressalto, pela conversa da sua mulher, dona Sinhá:
—
Firmino, ocê num acha que Lalá, prá num ficar titia e num ser a
vergonha da famia, num devia se casá nem que fosse com esse mestiço?
Vai sê triste a única filha ficá prá titia, e titia de quem?
Coronel
Firmino só não caiu porque estava recostado na espreguiçadeira. Ainda
com a boca cheia de fumaça do vetusto cachimbo, apenas balbuciou em
meio a um acometimento de tosse:
—
Heim?...
—
É isso mesmo. O meu padecimento é essa solteirona já nos quarenta sem
casa. Já que até hoje num apareceu nenhum outro, nem que fosse com
esse bagualão ela devia desimpacá.
O
silêncio - que se fizera enquanto dona Sinhá esperava a resposta do
Coronel Firmino, que atônito, parecia estar em outro mundo, com o que
acabara de ouvir – é repentinamente quebrado pôr gritos da Preta
Velha Tonha, que parecia ter visto coisa mal-assombrada e que em
desatinado destampatório bradava:
—
Socorro dona Sinhá. Socorro Coroné, acode pelo amor de Deus, acode
gentes, o Marambá tá cumendo a Lalá. Acode, num deixa não!...
Os
olhos de dona Sinhá brilharam de contentamento. Feliz ela exclama:
—
Graças a Deus fui ouvida. Agora ela casa!
—
Num deixa não Coroné. Acode ela! — Gritava histericamente a Preta
Velha, prestes a esfanicar-se.
Dona
Sinhá corre e fecha a porta, impedindo o Coronel Firmino e a Preta
Velha Tonha de sairem em socorro da filha. Desassisada dona Sinhá
vociferava:
—
Ninguém vai atrapaiá meu sonho de ver a Lalá casada, nem que seja com
esse índio!
Usando
a força que o seu corpanzil acumulava, de sopetão o Coronel Firmino
afasta sua mulher da porta e, já com o parabelum engatilhado, corre até
ao barracão do mestiço.
No
barracão, já abandonado pôr Marambá, grotescamente amontoado a um
canto, restos esquartejados, desossados e ruminados, do que havia sido
Lalá.
Classificado
em concurso literário na cidade do Rio de Janeiro.
OUTUBRO
Leopoldina de Paiva Vianna( *)
É o mês do Rosário,
Dos santos milagrosos,
Das flores e dos frutos,
E do meu aniversário!...
Outubro mês das rosas
Outubro mês das crianças
Outubro do canto das cigarras
Outubro das almas generosas!...
É o mês dos mestres
Do médico e do fisioterapeuta
Dos passarinhos que cantam
Nos quintais e nos campestres!...
Outubro de sóis ardentes,
Do cheiro de mato, dos muricis,
Da fumaça das queimadas,
Das árvores florescentes!...
É o mês das quaresmeiras,
Do ipê roxo, do ipê amarelo,
Do canto das cigarras,
No tronco da mangueiras!...
É o mês dos colibris
Da jandaia que canta ao longe,
No topo das palmeiras
Em coro com os bem-te-vis!...
Outubro dos Anjos de nossas guardas
De São Francisco de Assis
De São Judas Tadeu e São Geraldo
Das borboletas que enfeitam as matas!...
De Santa Terezinha de Jesus,
Que ainda bem pequenina,
Ia colher belas rosas, pelas manhãs,
Pra ofertar ao Mestre, aos pés da Cruz!...
Outubro um mês primaveril
Das flores bailando as cores
Do sol doirando os montes
Da Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil!...
Pedagoga - Fisioterapeuta
LEMBRANÇAS
Mercês Alves Vianna (*)
Porque o envelhecer é a constante preocupação do ser humano?
Envelhecer é colecionar lembranças, é percorrer estradas, é desfiar
contas. Envelhecer é ter o privilégio de despertar e lembrar lembranças.
Nem tudo se perde no túnel do tempo, nem nos corredores da memória.
Alegrias e tristezas nos vêm em conta-gotas ou em cascatas e
cachoeiras. Lembrança, e uma viagem onde vamos deparando com os anjos e
fantasmas da nossa história.
Criança alegre, criança feliz, criança travessa, que corta papelotes,
deixando seu lugar vazio no altar da Virgem. Não era mesmo o seu forte
o vestido de anjo e longas cerimônias piedosas.
De outra feita em lugar do hino de coroação tantas vezes ensaiados,
vaidosamente cantou: Adeus, meu sabugueiro.
Risos e festas vão se desfazendo, levados ou trazidos pelo apito do
trem, responsável por anos de solidão e saudade. E lá nas serras da
Mantiqueira, onde só sonhar não era proibido, Corinto se fazia perto
porque o amor a esperava certo... E lá longe, em Diamantina, fica a
jovem a suspirar, pedindo a todos os santos para em breve se casar.
Voltar para Corinto era o desejo sonhado, pois ali tinha certeza de
encontrar o seu amado.
E o tempo passa, desfolhando folhas e criando amores.
Lembranças... Lembranças!
(*) Normalista Educadora.
O
NASCER DE CORINTO
Nilza
Silveira Gomes (*)
Quadro
simples, mesquinho
Na encosta de um outeiro,
Um córrego, o Curralinho,
Um pouso de tropeiro,
Que partia a estrada,
Para o Rio de Janeiro,
Conduzindo a boiada,
Montado em sendeiro.
Evoco
pela memória,
O fato é puro, suscinto.
E a verdadeira história
De minha terra, CORINTO.
Nascida da natureza,
Choças de palha, zinco,
Trilhos, que fortaleza,
Em mil novecentos e cinco.
Tudo
se movimenta,
Homens passam a trabalhar.
Povo forte que tenta
A cidade improvisar!
D. Sinhazinha Pereira,
Joaquim Dias, Coronel Ricardo,
Padre Joaquim da Silveira
Olham a causa com garbo.
Surge,
então, o povoado,
Há nova mentalidade;
Povo bom, abençoado
Na feliz localidade.
Sonho nobre, profundo,
Do Senhor Antônio Pertence;
Buscou no Velho Mundo
Esse nome que convence!
Se
abordo o passado,
Penso em Prefeito Altino, João
Ferreira, Antônio Vieira Machado
Mestra Risoleta, Vianna - Victor
Pereira
José Brígido, João de Deus,
Clarindo de Paiva, Maria Vitória
Patronos dos filhos seus,
Vultos de nossa história.
Corinto
hoje é crescida
Por força
da emulação.
Sorri, está
convencida,
É a deusa
do sertão.
Então,
Corinto formosa,
Que grande
hilaridade,
Você,
assim, tão vaidosa,
São
arrufos, é mocidade!
Poucos
anos vivente
E já parece centenária;
Lindos brincos com pingente
Feitos de luminária,
Bem calçada, iluminada,
Casas altas de sobrado,
Praça ampla, ajardinada
Recanto de enamorado.
Já
notou que bulício?
Palmas, canto, muita flor
Transcorre o seu natalício
Em discurso e tambor,
Escute, cidade amada,
lhe digo tudo que sinto:
sou mui privilegiada.
Sou natural de Corinto
(*)
Pedagoga, Educadora
O
RELÓGIO DO GUARDA-FREIOS LEVIZÃO
Pedro
Américo
Sebastião
Mandrak, Zé Cristino e Levizão. Ferroviários do tempo das vaporosas
cruzando serras, cortando matas e seguindo os rios. Corinto a
Diamantina, Corinto a Pirapora, Corinto a Montes Claros. Passaram a vida
na lida com os trens. Trabalho difícil e penoso numa época em que a
ferrovia era o principal meio de transporte na região dos
sertões.
Era
uma madrugada fria do mês de junho e os três estavam juntos para mais
uma viagem. Um trem cargueiro que partia de Corinto com destino a
Pirapora. Iniciava a viagem pela madrugada levando vagões
carregados com mercadorias, na cauda, um vagão tanque carregado com água
para ser distribuída nas turmas da via que existiam às margens da
linha, pequenas casas onde moravam o pessoal que cuidava da manutenção
da estrada de ferro. Carrapato, Pratinha, Contria, Beltrão, Porto
Faria, Buritis das Mulatas. Eram comuns aquelas vilas de ferroviários,
casas enfileiradas ao longo dos trilhos.
Sebastião
Mandrak, Zé Cristino e Levizão partiram com o dia ainda escuro
conduzindo o trenzinho parador. Levizão era o responsável pelo
abastecimento dos reservatórios das vilas com a água do tanque. Grandão
nos seus mais de dois metros de altura, uns cento e vinte quilos, chegou
para o trabalho feliz da vida. Carregava na algibeira um reluzente Patek
Phillip. Um relojão trabalhado a ouro, relíquia herdada do pai e
que usava com orgulho. O relógio tinha chegado na véspera de Belo
Horizonte onde tinha sido regulado e polido, pois não confiava naqueles
relojoeiros de Corinto, achava todos uns incompetentes.
Todas
as paradas, todas as turmas, todas as estações Levizão exibia a jóia
rara. Discursava com o seu vozeirão de trovão. Juntava gente para
mostrar e elogiar a pontualidade do Patek. Uma preciosidade.
O
maquinista Sebastião ficava a beira da loucura dentro da locomotiva.
Corria de um lado para o outro da cabine, gritava que estava atrasado,
buzinava e nada adiantava. O Levizão não deixava ninguém sem ver o
seu relojão. A bronca era cada vez maior depois de cada parada. Zé
Cristino sentado em seu banco fingia que nada via. Mãos no queixo,
virado para fora da cabine, admirava as belezas da Serra do Cabral.
A
Serra do Cabral aparece de repente na curva da linha logo após a estação
de Contria. Aparece junto com o Rio das Velhas já bojudo, parrudo,
serpenteando na mata retorcida e rala. Serrado bravo. A linha do trem
ora aproxima, ora se afasta da serra e do rio que seguem juntos, um próximo
do outro e só se separam quando depois de Várzea da Palma o rio pende
para a esquerda e abandona a serra para desaguar no São Francisco.
Nas
épocas das chuvas fios d'áqua deslizam pelas encostas da serra e
encachoeirados procuram o leito do rio que cresce invadindo as várzeas
inundando tudo. Naquele início de junho o sol fazia brilhar as águas
do rio, enquanto um vento frio soprava vindo das encostas da serra.
O
sol já desaparecia pelas bandas dos Gerais quando o trem alcançou o
seu destino. Antes de atingir Pirapora os trilhos seguem e frente,
buscando o São Francisco que chega barulhento, espremido entre
pedras, passando por baixo da ponte de ferro em forma de pequenas
cachoeiras para logo após, voltar a ser manso, com suas águas
passando pela cidade sem pressa, deixando para trás a praia, o porto e
depois partir em frente, tranqüilo rumo ao norte."Remanso, Casa
Nova, Santo Sé, Pilão Arcado, Sobradinho..." Onde o sertão vai
virar mar.
Levy
ficou pelas imediações da estação até a noite chegar. Só uma rua
de terra separa a estação do rio. Quando a cidade adormece, o barulho
da águas chega acompanhado da brisa que sopra de leve agitando as
folhas das velhas mangueiras da praça da estação. Já era noite alta
quando o guarda-freios atravessou a praça em direção ao dormitório.
No outro dia a luta seria grande com o trem de retorno. Antes de deitar
para o repouso teve o cuidado de colocar o Patek no tampo de um
tamborete e prender a corrente do relógio em uma das pernas do móvel
para não correr risco de ser roubado.
No
meio da madrugada acordou com a boca seca, a bexiga estourando. Sentou
na cama procurando o interruptor tateando a parede com as mãos. Não
conseguindo levantou sonolento, andando de um lado para outro sem
conseguir acender a luz. No desespero arriscou um passo maior em direção
a porta no que deu com a canela na beirada do tamborete onde tinha
ficando o relojão que foi arremessado contra a parede.
A
volta foi uma tristeza. Levizão em todas as paradas, todas as turmas,
todas as estações, desconsolado exibia em um lenço os pedaços do seu
Patecão. O presente de seu falecido pai.
O
maquinista Sebastião sentado no comando da locomotiva e com a cabeça
entre as mãos, já não tinha forças para reagir. Zé Cristino, do
outro lado da cabine, olhando rabo-de-olho o companheiro desesperado,
fingia observar ao longe a Serra do Cabral que azulava no
horizonte.
Velho
Carlos, já se passaram mais de vinte anos, o trenzinho parador já não
circula mais. Apenas a brisa do rio ainda sopra as folhas das velhas
mangueiras da praça da estação. O Guarda-Freios Levizão partiu em um
outro trem para um lugar onde o tempo não importa.
Consegui
uma semana de férias e estou em Pirapora. Andando pelas
ruas a procura de uns versos, deparei com a saudade do tempo em que fui
maquinista da RFFSA e viajava por aqueles trilhos.
Sei
que voltarei para casa sem nenhum verso, pois sou apenas louco, não sou
poeta. A última loucura que fiz foi prometer a um sobrinho a letra para
uma canção. De tanto ouvir o tio falar na vida do povo que mora
no Vale o garoto está pronto para botar o pé na estrada.
Abraços
a Todos.
UM
POUCO DE PROSA
Pedro
Américo
Quando
o Prego cruzava pela direita o Detão já estava na área pronto para
enfiar a carapinha na bola era gol certo. A jogada era manjada, mas
ninguém segurava o Prego que recebia a bola enfiada pelo Mico num passe
longo do meio do campo. Matava na barriga, ia até a linha de fundo e
cruzava.
Nosso
técnico era o Jacy Preto que tinha vindo de São Paulo trazendo na
bagagem algumas bolas e um jogo de camisas. Eu jogava no gol, na linha
tinha o Pangaré, Zé Difunto, Antônio Gostoso, e Bira. Mico, Ivan, e
Detão. Prego, Zé Minister e Milton de Firmino.
O
Jacy sempre conseguia um caminhão velho para transportar o time para os
jogos que ele ia conseguindo. Barrocão, Capivara de Cima, Capivara de
Baixo, Salobro, Roça do Brejo, Estiva, Aporá, Andrequicé, Escadinha e
por aí a fora. Só era preciso ter festa, barraquinhas, quermesses e
dança. No final da noite namoro solto na porta da igreja, no muro do
cemitério e debaixo de uma gameleira. No sertão das Gerais fazenda que
se presa tem que ter gameleira na porta.
O
que a gente não sabia é que o nosso técnico andava de namoro com uma
raparigazinha de Marísia, um lugarejo encravado entre a linha do trem e
a serra do Cabral, bem próximo de Augusto de Lima. Não
desconfiamos quando ele tirou o Detão do time e me escalou no seu
lugar. Durante quase toda a partida o coitado do Prego pegava a bola, ia
na linha de fundo e cruzava. Eu só via aquele "fuguete"
passando e nada. O time deles tinha um zagueirão que quando o Prego
ameaçava cruzar já me metia as mãos pela cara a fora, me cuspia
na fuça e não me deixava jogar, nem ver a cor da bola. E assim foi
quase o jogo todo. Lá pelos 45 minutos do segundo tempo o Prego cruzou,
o zagueirão veio bufando prá cima me empurrando. Quando eu ia caindo a
bola pegou de raspão no alto do meu cocuruto e entrou. A confusão
estava formada. Com muito custo conseguimos subir no caminhão do
Juquinha.
Quando
o caminhão começou a ganhar velocidade, o Detão exibiu para a turba já
irrada uma bela leitoa que ele tinha roubado no chiqueiro da fazenda
enquanto o jogo rolava.
Mas
no meio da estrada tinha um mata-burro. No meio não, na saída da vila.
O Juquinha se enrolou e enganchou o caminhão no mata-burro. Nunca
apanhamos tanto na vida, foi um massacre. Descobrimos mais tarde que o
zagueirão era cunhado do Jacy e também o dono da leitoa.
Abraços
a Todos.
ATRIBULAÇÕES
DE UM VELHO VAQUEIRO
Pedro
Américo
João
Bambu é na verdade João Carvalho, vindo do Vau, nas barrancas do rio
Jequitinhonha, onde ele pende para os lados de
Diamantina, esbarra na serra e é obrigado mudar de rumo embrenhando
pelos grotões.
Como
sempre acontece por onde anda, um dia Bambu enojou
daqueles lados, pegou a tralha atravessou a viola nas costas,
montou na mulinha Nobreza e veio bater nestas terras onde
conseguiu emprego de vaqueiro e desde então vive do
ofício que aprendeu com o velho pai Venâncio do Barrocão.
Isto é ele quem conta, agora, é sabido que, na
verdade, saiu mesmo foi fugindo depois de uma pendenga numa roda de
viola.
Trabalha
duro até o sábado, mas no domingo não levanta uma palha.
Veste o melhor terno e já bem cedo está escorado no balcão
do boteco da dona Elza na luta com um copo
de cachaça e uma rodela de salame para tira-gosto.
Depois
da terceira dose vira rei e a meninada da rua já sabe e vai
tomando corpo na porta do bar. Pela quinta dose o Bambu já
tem certeza que é mesmo um rei. Sai pela rua guiando a meninada. Vai
desengonçado com seu passo bêbado. Vez e quando pára,
levanta o chapelão para o alto e grita.
—Quem
manda no céu...?
A
molecada responde: —É o urubuuuuu...
—Quem
manda na terra...?
A
meninada entoa:
—É
o João Bambuuuuu...
Durante
o resto do dia é assim. Ele é rei as custas dos doces e refrigerantes
que vai distribuindo.
Para
o Vau tinha ido por influência de um parente que
vivia do garimpo. Naquele tempo trabalhava em empreitadas de fazenda em
fazenda na região dos Gerais. Trabalho duro, no roçado ou capina
de roça, às vezes cuidando de gado. Não que o
Vau fosse um lugar ruim, ruim mesmo era o trabalho no
garimpo, não estava acostumado, pegou desgosto logo. Foi
ficando por precisão, até que aconteceu a pendenga com o Nestorão,
coisa feia, se estava vivo foi por sorte e por ter conseguido
escapar no meio da noite.
Quando
vem a lembrança daquele dia, o Nestorão arrancando a peixeira e
caminhando na sua direção, estremece. Já havia algum tempo que
andava cabreiro com a vida. O ano não
tinha sido bom no Vau, o garimpo não estava dando para
o sustento, as dívidas acumulavam, já não tinha como pagar o
armazém e o Calimério ameaçava cortar
o crédito. Estava entabulando uma negociata com
o vendeiro e tinha acertado a entrega da junta de bois
em troca das dívidas antigas e o recebimento de algum
dinheiro de volta.
Não
foi fácil negociar, a dívida era alta e o Calimério desconversou
alegando que os bois eram velhos e judiados. Velhos eram de fato,
mas na secura daquela região não havia animal sem sofrimento.
Aquele
entrevero com o Nestorão era coisa do demônio como costumava dizer o
Zé Sacristão, pois nem mesmo conhecia aquele moço. Era costume
reunir com os amigos vez em quando
para relembrar umas cantorias acompanhadas da viola
que aprendera tocar com o velho Gaudêncio, tirador de folia no Curvelo.
A
refrega começou com um bate boca entre o Zé de Memé, um piauiense que
morava no São Gonçalo e circulava na região consertando arreios
e o Nestorão, dono de uma gleba de
terra pelas bandas do Milho Verde. O motivo era um
desentendimento antigo. Na boca do povo o Memé andava de liberdades
com a Miúda, uma mulatinha que o Nestorão tinha conhecido no
Beco do Mota em Diamantina e que havia trazido para o São Gonçalo.
O
Nestorão chegou primeiro, estava de passagem vindo de Diamantiva. O
piauiense apareceu mais tarde, bêbado, tateando a
cerca encostou no mourão da porteira onde ficou. O Memé
era um sujeito franzino, de fala mansa, tranqüilo e de boa prosa.
Ninguém entendeu quando o Nestorão deu a volta pela cerca
e passou a agredi-lo. Era preciso apartar ou então o Nestorão
matava o seleiro que já sangrava. João Bambú só aproximou para
pedir que não prosseguisse com os maus-tratos. O que não esperava é
que de repente o moço desse com a peixeira no
seu pescoço. Não fosse o Zé Sacristão meter a mão no
braço do Nestorão, ele teria a garganta varada pela faca
que ainda lhe pegou o ombro esquerdo e foi
rasgando até o peito. A cegueira, um passo
atrás, a mão na garrucha, o estampido, Nestorão rolando
pelo chão com a mão no peito.
Ainda
não tinha anoitecido quando conseguiu chegar em casa. Depois do
tiro e aproveitando a confusão, conseguiu alcançar a mata
atravessar o riacho, pular a cerca e entrar pelos fundos.
Foi o tempo de juntar o que podia e colocar a mulinha Nobreza na
estrada.
Saiu
no meio da noite por um desvio que
descambava por trás do cemitério. Alcançou a mata rala que dava para
o garimpo, atravessou o rio e foi subindo morro
beirando os abismos até alcançar as bandas de
Diamantina que ficava a umas sete léguas noite adentro. A
mulinha gemia carregando o peso no meio das pedras.
O
dia já ia pelo meio quando avistou Diamantina, acampou no alto do morro
protegido entre as pedras. Do alto
a cidade podia ser vista esparramada morro abaixo. Só ao
escurecer aventurou uma caminhada até a venda do Antero
no beco do Mota, onde costumava beber quando vinha a cidade.
Com o amigo conseguiu o que precisava para continuar
viagem e teve notícias que reviravam o Vau à sua procura.
Não
tinha destino certo, viajava sem prestar atenção
no tempo. Naquela época do ano, o profundo
azul do céu incomodava, a falta de nuvens já com o
mês de junho adiantado era sinal de muito frio.
O silêncio profundo às vezes era quebrado por um bando de maitacas
cortando o espaço, um berro ao longe ou um troféu rápido de uma
montaria. As árvores retorcidas do cerrado recebiam os raios do
sol quase rente ao chão, a luminosidade castigava os olhos.
Três
dias depois tinha chegado em Tomas Gonzaga. O caminho
tinha sido difícil, viajou pelas trilhas do mato evitando
as estradas, carecia descansar para seguir viagem e ali parecia um lugar
seguro.
Chegou
no meio da noite. Parou na boca ponte. As muitas
horas de viagem tinham estropiado o animal, carecia descansar. Tirou os
arreios e observou as bicheiras que sangravam. A
mulinha estava definhando, na certa não iria aquentar continuar
viajando.
Atravessou
a ponte e subiu a rua até a praça. A lua cheia iluminava a
igreja. O enorme cruzeiro fazia sombra na grama.
Vultos cruzavam o largo no silêncio da noite. No frio
de junho uma lua cheia iluminava o casario, ouvia-se apenas ruídos no
do meio da noite. Retirou do bolso um pedaço de fumo e passou a fazer
um cigarro enquanto subia em direção ao largo.
Observou
o movimento. Do outro lado da praça duas portas iluminadas pela
luz de um lampião mostrava o interior de um armazém.
Deu a volta desviando dos cavalos amarrados junto as portas e
entrou. A luz morna do lampião clareava o recinto
onde sentados em volta de uma mesa alguns homens conversavam.
Foi
direto ao balcão pediu um copo de
aguardente. O homem de amarelo que atendia do outro
lado do balcão encheu e copo e estendeu a mão direita em
busca do pagamento enquanto com a outra retinha a o copo no balcão.
Pagou e passou a beber observando o movimento do lugar. Já
era noite alta quando saiu do armazém. A lua ainda iluminava a
praça. Aqui e ali alguma luz de lampião escapava das frestas das
portas, janelas e telhados.
Caminhou
a passos lentos até a ponte. A mulinha levantou a cabeça e ficou
a observá-lo. Sentou no barranco da estrada e passou
a fazer um cigarro esperando o dia clarear. A cabeça pesava.
Começava
a soprar um vento leve, chegando pela manhã,
vindo das bandas do Rio das Velhas. O horizonte
vermelho confirmava que seria um ano de muito frio. Uma garça
cruzou o azul do céu em direção ao rio.Um cavaleiro
aproximou da ponte num trote apressado. Percebeu que era um dos que
conversavam no armazém da praça. O homem de amarelo, agora na
luz do dia aparentava mais idade, os sulcos no
rosto e os cabelos brancos aparecendo sob o chapéu de feltro indicavam
se tratar de um homem na casa do sessenta anos. Bem próximo
e sem apear do cavalo cumprimentou com um aceno que o Bambu, por sua
vez, respondeu sem vontade.
A
mulinha Nobreza não amanhecera bem. Os quartos traseiros arriados
no chão impediam-na de andar. Em vão o animal, firmando o corpo
sobre as patas dianteiras, tentava levantar-se. Foram dois dias de
sofrimento e agonia até morrer.
Bambu
juntou a tralha que restou e pegou a estrada, duas léguas até o
Jabuticaba, mais uma até Corinto. Não
veio direto, embrenhou pelas fazendas em busca de
algum ganhame para o sustento. Em Corinto mesmo chegou ajudando
Pedro dos Reis, filho de dona Chiquinha dos Reis, moradora mais
antiga das terras do Corredor, a trazer um boiada para embarcar em um
trem da Central do Brasil.
No
último domingo do ano que passou João Bambú não saiu do rancho
em que morava. Acordou ainda com o
dia escuro, com dores no peito e com dificuldades para respirar
sentou-se no chão da porta que dava para o fundo do quintal.
Enquanto observava a cachorra Mazurca que dormia sob o pé de ingá,
encostou a cabeça cansada no mourão da porta.
Um
resto de chuva ainda fazia barulho no telhado. O velho
vaqueiro estava iniciando mais uma viagem.
DO USO DAS
RETICÊNCIAS
Pérola Soares Gandra (*)
Meu esposo levantou-se da velha cadeira da varanda e anunciou-me a visita
que chegara.
O tempo era curto. Assentamos os três na sala.
A expressão do meu marido era a de sempre: olhos profundos, mãos
cruzadas, um leve sorriso de boca fechada. E o visitante
instalou-se na poltrona, muito à vontade, com suas botas recém—chegadas
da fazenda empoeiradas, com a mesma cara de domingo e de
segunda-feira, sem pressa nenhuma.
A conversa iniciou-se entre os dois a respeito do tempo seco, dos
pastos maltratados, do preço do gado, das altas e baixas do
mercado.
Em seguida, o visitante dirigiu-se a mim, falando do motivo de
estar em nossa casa: viera trazer, pessoalmente, uma crítica a
algumas poesias minhas. Elogiou-as. Falou do meu belo estilo, da
minha sensibilidade, do meu jeito feminino de abrir o coração em
versos. Falou da beleza da métrica e rima conjugadas, da
precisão das palavras que pareciam uma varinha de condão tocando
o peito.
De repente, com um olhar perscrutante, que só já vi nos poetas,
nos filósofos e nos loucos, deixou cair a pergunta:
— Por que tantas reticências?
Tomada de chofre, respondi na hora:
— Nem eu sei direito, acho que vem de dentro. Eu me considero
vagante,indefinida.
Veio o conselho do crítico literário:
— Não. Não pode. Não se pode ser indefinido no que se
escreve. Ou se afirma, ou se nega. Reticências são coisas que
só podem ficar na alma de cada um. Passe a afirmar. Ou a negar.
Não fique no meio do caminho. Ademais, a linguagem do escritor
tem que ser enxuta. Sem poréns, entretantos ou reticências.
Não me senti ofendida. Afinal, as palavras saiam de um grande
conhecedor dos estilos lingüísticos.
Ele leu vários poemas meus. Declamou-os com reticências e
depois, sem reticências. Falou muito. Muito mesmo.
Meu marido observava somente. E eu, conhecendo-o como conhecia,
admirador incondicional dos meus escritos, podia até ler seus
pensamentos:
— Porque cortar as reticências dela, se as coloca no lugar tão certinho?
E de reticências a reticências eles se renderam aos falares ,
sem pensar nas horas, perambulando pela retórica, pela poesia,
pela filosofia.
De onde estava, mais ouvi do que falei, como não é muito do meu
feitio. Minha sensatez me dizia que eu tinha que aproveitar aquele
momento ímpar do encontro de dois filósofos.
A prosa acabou.
À noite, ao caminhar pela calçada,
de mãos dadas com meu marido, como fazíamos diariamente,
lembrei-me da visita e voltamos ao assunto das reticências. Numa
divagação, cheguei a dizer-lhe que se a vida parasse ali,
naquele instante, eu iria deixá-la em reticências.
Não sei que rumo tomou a conversa. Aquele colóquio amadureceu-me
uns bons anos. Afirmar. Negar. E deixar desta história de não é
bem assim, pode ser diferente, você tem razão em parte.
Certo é que, o ensinamento calou-me no fundo da alma: preciso ser
menos evasiva. Preciso saber dizer sim ou não.
Mais tarde, desta reflexão brotou uma poesia. Achei-a mais
consistente. Sem muita reticências.
A cara visita que recebemos, foi do Dr. Raulino Floresta, numa
sexta-feira de setembro, lá pelas dezesseis horas, não sei de
que ano. A ele devo isto: passei a cuidar-me ao usar as reticências.
Porém, a verdade é que quem nasce para voar, só não voa se lhe
cortarem as asas. Não posso deixar de reconhecer que meus olhos e
minha alma continuam voando por aí.
Hoje, lembrando esta passagem, afirmo. Sou mesmo reticente. Mas
aprendi a lição do Mestre das Letras. Agora eu sei afirmar que
sou evasiva, reticente. Sem deixar reticências.
(*) Poetisa e Psicopedagoga.
Licenciada em Letras.
ENCONTRO
Pérola
Soares Gandra( *)
Ao
te encontrar a festa será tanta
E o sol se vestirá de tal beleza
Que a poesia que o universo encanta
Ante nós será pobre, com certeza.
As
juras que fizemos pela vida,
O amor eterno, as nossas vãs loucuras
Serão uma por uma repetidas
E tudo será paz, sonho e doçura.
Ao
te encontrar, os versos que me inflamam
Nem sei se os direi, pois a emoção
Envolverá meu pobre coração.
E de
carinho um eterno paraíso
Se abrirá para nós como um sorriso,
Na alegria sem par dos que se amam.
Psicopedagoga.
Licenciada em Letras
FILOSOFANDO
Pérola
Soares Gandra(*)
.
A vida é muito bela.
Saio pensando, na tarde quente. É domingo.
Como é maravilhoso viver! Como é encantador ter olhos para ver
este céu magnífico, misto de azul e vermelho, agora que o sol
apronta-se para dormir.
Como é maravilhoso. De repente, uma voz:
— Uma esmolinha, Dona.
— Agora não tenho, respondo logo. Saí sem bolsa.
Continuo. Volto a pensar: mas, que encanto está a serra! Parece
um tapete esverdeado, atirado descaprichosamente sobre um móvel
qualquer. Vontade de fazer versos:
. . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A beleza da terra invade meu ser
E o céu majestoso reflete-se em meus olhos...
Há paz no céu, no ar, em toda parte,
E em minha’alma também há paz
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Com
tanta beleza ao redor, a gente dá até para fazer versos. Quem
não é poeta numa tarde como a de hoje?
— Moça, pelo amor de Deus, eu não almocei ainda. Me dá um
pão?
Outro mendigo. Começo a inquietar-me, respondo:
— Olhe, meu filho, eu não tenho nem um vintém aqui. Depois eu
lhe dou.
Com a cara mais triste do mundo ele se vai.
Resolvo voltar. A beleza da tarde vai se diminuindo aos poucos
para mim. Uma nuvem de tristeza embaça o poente que, minutos
atrás, era espantosamente lindo.
Sim, há um céu maravilhoso, há uma tarde de domingo a se
acabar, há tema para poesia em todo canto, mas, aqui, bem perto,
muita miséria. Gente, de carne e osso, igualzinha a mim, morrendo
de fome, enquanto eu busco inspiração num fim de tarde.
Santo Deus! E eu dizia que a vida é muito bela.
Poetisa.
Publicou: “Kaleidoscópio”.
TEU
NOME
Pérola
Gandra
Pensei
que nunca mais faria um verso...
Que em rimas, nunca mais escreveria...
Meus sonetos, sem dó, eu rasgaria...
Pensei que nunca mias faria um verso...
Mas
nunca, no papel, eu deixaria
Transparecer as dores desta vida,
Ao escrever, chorando, uma poesia,
Para cicatrizar uma ferida...
Porém,
no mundo de contradições,
Onde nascem e morrem ilusões,
Tudo se passa... Tudo se consome...
Algo
despedaçou-me a pobre jura:
Na timidez da minha ânsia pura,
Compus mais rimas ao falar teu nome...
JARDIM DO AMOR
Oliveira Cardoso da Silva( *)
Éramos dois num jardim,
éramos dois a passear,
meu bem pertinho de mim,
no céu, um lindo luar.
Éramos dois sonhadores,
éramos dois a sonhar,
vagando por entre as flores
e a lua a nos clarear.
Provei o mel de teu beijo,
desta boquinha mimosa,
matamos nossos anseios
naquela noite saudosa.
Passeávamos sorridentes,
matamos desilusões
e um grande amor de repente
floria em dois corações.
Éramos dois namorados,
só nós dois e mais ninguém,
a lua e o céu estrelado,
nos contemplavam do além.
(*)
Trovador - compositor - repentista.
JÁ
FOMOS BAIANOS
Dr. Raimundo Lima(*)
A
história de Corinto, em seus primórdios, é mais ou menos a
mesma de toda a mesopotâmia formada pelos rios São Francisco,
Paraopeba e Guaicuí, limitada ao Sul por uma linha imaginária
que margeia a Zona Metalúrgica, ligando estes dois últimos
cursos d’água, formando um paralelogramo alongado, não muito
perfeito.
O povoamento dessas terras foi conseqüência da criação de gado, iniciada em meados do século
dezessete.
Até início do século dezoito, essa região era tida,
tranqüilamente, como pertencente à Bahia, mesmo porque não
havia sido criada a Capitania de Minas Gerais, e os governadores
da Capitania do Rio de Janeiro, que compreendia também as terras
de São Paulo, nem sequer atentavam para esses territórios, uma
vez que tinham as vistas voltadas apenas para o litoral.
Até então, não se tinha conhecimento de que as terras do Rio de
Janeiro e as da Bahia eram confluentes. O mais longe que tinham
avançado foi até Taubaté. Se, antes, houve expedições com o
objetivo de descobrir esses limites, não há registros delas.
Não se sabia que a penetração do território, partindo do
Espírito Santo, do Rio ou de São Paulo podia conduzir à Bahia
ou vice-versa. Nós estávamos ligados à Bahia, pela expansão
dos currais de gado.
Os habitantes desta região entendiam que, para ir ao Rio ou São
Vicente, era necessário viajar até a Bahia e atingir aquelas
localidades por mar.
Só posteriormente, Diogo Gonçalves Laço e Domingos Proença
perlustraram a bacia do Rio Sapucaí, permitindo ao alemão
Glimmer fazer estudos e chegar à conclusão de que nenhuma dúvida
existia sobre a continuidade do País desde a foz do São
Francisco até as cabeceiras na Região de Piuí, local já
conhecido pelos paulistas. Coube a Fernão Dias provar a tese do
cientista germânico. As informações sobre as esmeraldas já
eram do conhecimento de exploradores baianos, através de
pesquisas e de informações dos indígenas. Ignorava-se, contudo,
que pudessem ser atingidas, partindo-se de São Paulo, Rio de
Janeiro ou Espírito Santo.
A indiferença dos governadores do Rio de Janeiro pela mesopotâmia
mineira, todavia, só durou até a descoberta das minas de
Sabarabuçu, por Borba Gato, e de Tripuí, pelo mulato de Taubaté,
cujo nome a história ignora, e de outras.
Em 1700, Dom João de Lencastre, Governador da Bahia e, portanto,
Governador Geral do Brasil, advertiu ao Governador da Capitania do
Rio de Janeiro, seu subordinado, Artur de Sá, a respeito da
jurisdição baiana sobre estas terras e outras mais.
Trecho
do Livro “O Campo da Garça”
(*)Médico - Historiador - ex-Prefeito
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TREM
DE MINAS
Raulino
Floresta Magalhães
Lá
vai Maria-fumaça
em chão de Minas Gerais.
Sobe
serra,
desce morro,
vê mar e mar de montanhas
na ondulacão da paisagem.
Tchan...
tchan... tchan... tchan...
Luar
mistério
brancura
nas ruas inconfidentes.
A
noite (cansada) inventa
algum sono intermitente.
O nada em nós.
Pouco a pouco,
em tímidas nuances de aquarela
se desenvolve o parto da manhã.
Envolta em transparências de neblinas
a madrugada acontece.
É minas, meu irmão, é Minas
aqui presente.
minas, minas Gerais
de memoráveis conspirações:
espia
a incongruência circunjascente.
Adia, espera, assunta.
De
repente,
explode mineiridade.
Mineiro é mineiro, gente:
Minas pensa
para o alto e para frente.
Tchan...
tchan... tchan... tchan...
Lá
vai, lá vai o trem.
Passa
ponte
passa rio
passa passa o casario
vestido em manhã barroca.
Pasto verde verde verde.
Bois de engorda
ruminam mansa filosofia:
sempre alheios ao mundo circunstante
desenham cores na paisagem calma.
Brancas. Pretas. Amarelas.
Cinzas. Rapés. Araçás.
Em marcha. De pé. Deitados.
Bois de múltipla geometria:
inventam
o bucolismo de Minas.
Lá
vai, lá vai o trem.
(— “Eu volto, meu bem, eu volto “).
Maria-fumaça
viaja conspirações.
Café
com pão,
manteiga não.
Café com pão,
manteiga não.
Uí...
Uí... Uí... Uí...
— “Sai, boi, sai da frente”.
Mas boi mineiro é valente:
não sai.
Ranger de ferros. Frenagem.
Bem junto ao boi,
o trem parou.
— Quem foi?
— Gado na linha.
A gente logo adivinha:
boi mineiro entrou na briga?
Dá boiada mas não sai.
—
Com licença, boi.
(“Agora, sim.
A gente se entende, uai! “)
Tchan... tchan... tchan,.. tchan...
Lá
vai,l
á vai o trem
na manhã brasileira.
Uí...
Uí... Uí... Uí...
O trem apita,
grita fumaça.
A nuvenzinha passa, passa
a turma de
conservação.
Mas (bem se vê) na janela
um lenço branco se agita.
É sempre assim: trem apita
ocorrem novos acenos.
Depois,
na vigília do íntimo recato,
um retrato
e uma lágrima (escondida)
querendo compreensão.
Café
com pão,
manteiga não.
Café com pão,
manteiga não.
Uí...
Uí... Uí... Uí...
Lá vai, lá vai o trem.
Viaja a manhã mineira.
FUGA
Raulino
Floresta Magalhães
O
sol mordia-lhe o rosto. Mas havia ternura na voz do homem:
— Morreu,
Joana, morreu.
A mulher pousou os olhos na cabra defunta:
— É.
Finou-se, a coitada. Agora não se tem mais o que segure a gente.
Pode-se arribar.
O mormaço adormece o mundo.
Córregos morrem de sede e as lagoas são manchas de argila cinza,
estorricadas no muito calor.
Árvores desnudas mendigam socorro. Quem ouve o apelo vegetal?
Açoã, no toco do pau, ainda solfeja e solfeja o mau-agouro.
Joana escuta. O marido também. Eu te esconjuro, peste.
Ainda quente, o corpo da cabra morta. Foi ela (pobrezinha) a
derradeira criação vivente. Antes (nos velhos dias), muitas
havia: vacas de leite, bois de arado, cavalos de campo, tudo
gordo e bonito, com muita vontade de viver e ânimo de se
multiplicar. Naqueles idos, a fala animada:
— Foi
muito suor, Joana, mas valeu.
— A
gente é rica, marido.
— Ora,
bichinha, quem vê a riqueza nisso?
— Não
é nisso, não. É aqui, dentro da gente. Riqueza de amor.
— Obrigado,
Joana.
O pensamento voa, vai longe,
reacontece aquela manhã na vaquejada, o primeiro olhar, as
palavras primeiras e depois aquele arrebatamento bom, tudo se
desencadeando com muita urgência de serem felizes e a vida
acontecendo, rolando os fatos e atos do dia-a-dia, o mundo dá, o
mundo nega, oferece e recusa, um dia depois do outro, até ali,
no agora, desgraça muita, sol, sol, sempre o sol. Aves em
arribada. Retirantes, aos magotes, arrastam seus andrajos em rumos
do Sul. As criações minguando, pasto roído, cacimba vazia. Os
bois, fantasmas de pele e osso, andarilham nos campos e mugem
solicitações inúteis, o passo lento, focinho no chão, se
cansam, deitam, é o fim. Cães e urubus nem esperam o
desenlace: vão garimpando os olhos, vaginas, cloacas dos seres
agonizantes.
O céu-azul, azul, — testemunha o trágico banquete.
Uma a uma, lá se vão, deitam, morrem todas as criações.
Minguando, a vida circunstante, minguando, em dolorosa
subtração.
— Sabe Joana? Deus se esqueceu de mim. Cadê lavouras? Cadê
nosso gado? A gente não tem mais nada, Joana.
— Ora! Não diga bobagem. Tem sim.
— Tem o quê, mulher?
— Tem amor, bobo. Ou o sol secou teu coração?
A cabrinha amiga, foi, pois, a última criação vivente. Joana a
contempla, em silenciosa veneração. Ainda brilha o pelo negro,
mas são os olhos, grandes e redondos, que não se fecham, recusam
a morte, absurdamente abertos, como se quisessem refletir todas as
cores e formas do mundo que foi seu.
Joana lhe advinha a podridão iminente, não a quer roida de cães
e urubus, repugna-lhe a imagem da amiga (destroçada e podre) em
poluição da paisagem, essa paisagem que se enfeitava em
verdeluz, e recolhia o canto dos pássaros, e foi amiga, e foi
bela e foi, nos anos de fartura, a melhor razão de viver e
sorrir: alegria bonita para um mundo bom.
Piedade acordou lembrança:
— Enterra-se?
O marido não respondeu. Demorou-se nos olhos silenciosos do
animal defunto: eles insistiam, abertos e grandes, a mansidão
paralítica.
Repete-se, a mulher:
— Enterra-se?
— Carece não, Joana. De qualquer jeito se apodrece, plantado no
chão ou cá de fora. Fique aí, a pobre, olhando o sítio, até
que as moscas lhe chupem a vista e os urubus lhe comam as tripas.
— E a gente, aonde vai?
— Por aí... São Paulo, Minas, algum sítio que Deus protege.
— E os terens?
— Ficam. Não servem para nada.
Era dor e revolta. Contra o céu, que
nega a chuva. Contra o chão, que recusa os frutos. Ficasse
tudo ali: casa, curral, chiqueiro de cabras, cacimba vazia, pasto
roído, lagoa seca e as criações defuntas. Para
o diabo o chão somítico.
— Isso é terra do cão, Joana. Nunca mais a gente volta.
* * * *
Seguiram,
nem olhavam para trás. Para que olhar? O mundo é grande,
trabalha-se, coragem não falta, a vida melhora, vira-se gente
outra vez. Que diabo faziam ali?
— O Sul é Sul, Joana. Outro mundo. Lá todo cristão tem
direito de viver.
O caminho encompridava.
Os passos (molengos) levantavam um nadinha de poeira mansa, longo
acomodada no chão de brasa. Até o vento era sovino.
O agreste morria de fome.
Lento e lento o sol esmorece, quer repouso, e a tarde se espraia,
pedindo a noite e o consolo de estrelas silenciosas.
Súbito:
— Ouviu, mulher?
— Trovão. Será chuva?
A nuvem pardacenta rolou no céu, cresceu, riscou faísca na
fímbria do horizonte.
— É lá.
Os olhos do homem navegaram a paisagem e o pensamento pousou no
sítio abandonado:
— A gente volta?
Ferveu coragem no sangue de Joana:
— Com a graça de Deus, marido.
— Vai ser ano de fartura.
As alpargatas desenharam, na poeira da estrada, os passos do
regresso:
— Agora a gente enterra a pobrezinha.
Finca-se uma cruz na sepultura.
— E planta-se, junto, um pé de alecrim. Quando cheirar...
Os dois riram, riram, com muita coragem de viver.
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MARIA, COMO
TANTAS MARIAS
Tadeu Oliveira
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“Maria... Maria... Há tantas Marias...
Maria da Penha... Maria da Glória...
É tudo Maria!...(...)
(...) Há tantas Marias!...(...)
(...) E foi
só Maria, a Santa Maria,
A Mãe da pureza,
A Mãe da bondade,
A Mãe da justiça,
A Mãe das Marias!...”
( POEMA DAS MARIAS, Caleidoscópio, Pérola S. Gandra)
|
Procure-a
nos terços rezados em igrejas ou em casa de alguém, que lá a
encontrará juntando suas preces com as preces de outras bocas,
num bater ligeiro de lábios e num tatear de contas gastas do
seu rosário, roçadas pelos dedos inábeis e rústicos.
Ela é
assim: não perde missa, terços, ladainhas, procissões, velórios
e na Semana Santa engrossa o coro das beatas na procissão do
enterro do Nosso Senhor Jesus Cristo, com sua voz desafinada e
destoante, esforçando-se nos solfejos das palavras latinas
evocadas em primeira instância pela Verônica.
Seu
entretenimento preferido é bater perna pela cidade inteira mas,
para dizer a verdade, creio que se ainda houvesse as carpideiras
aqui por estas terras, com certeza, ela seria uma e das
melhores.
Os
trajes são sempre os mesmos: lenço na cabeça, blusa de mangas
compridas, mesmo com forte calor, saia frisada de cores sóbrias
e desbotadas batendo abaixo dos joelhos e sob os pés rotos,
carcomidos nos calcanhares pela fricção do caminho percorrido
nas suas andanças, um velho par de havaianas. Como complemento,
traz sempre debaixo do braço, faça chuva ou faça sol, uma
sombrinha e um saco plástico a servir de sacola ou de bolsa
para guardar, presume-se, seu cabedal.
Não há
muito o que falar das suas feições, já cansadas. Basta
lembrar-se daquele personagem da Escolinha do Professor
Raimundo, o aluno Baltazar da Rocha, e você atestará a
verossimilhança com o tal. Há de se ressaltar que, enquanto
aquele sempre trazia uma boa piada na ponta da língua, ela traz
um afiado palavrão para quem atreve-se a mangar-lhe,
numa sucessão de impropérios impublicáveis, contraditórios
às palavras sacrossantas rogadas de sua boca. E isto é o que
mais acontece, porque a molecada e até mesmo muitos marmanjos
desprovidos de autocrítica e comiseração, estão incontinenti
dirigindo-lhe os dois pseudônimos que funcionam-lhe como
ofensas: MARIA BEÚ ou MARIA FUBÁ.
Quem
primeiro sofre com os seus xingatórios explosivos e esfuziantes
são as genitoras de quem dirigiu-lhe as palavras insultantes e,
caso o desafeto insista na afirmação, ela parte para o ataque
corporal. Sendo criança, uma boa corrida e
atingido o alvo, reforça com pancadas de sombrinha onde
esta acertar ou, caso adulto, desfecha pedradas nem sempre
certeiras.
Parece
que ninguém se acostuma com ela e nem ela com ninguém. Quando
pequeno sempre a vi com as mesmas atitudes e com os mesmos
olhos. E a minha condição de pequeno moleque nunca impediu-me
de zombar-lhe, o que me custou muitas carreiras e muitas surras
de meus pais, flagrando-me os inocentes delitos. Já adulto, o
meu amadurecimento perante as coisas do mundo não permite-me
cogitar importuná-la mas, dependendo da zombaria imposta por
algum pirralho, às vezes não se deixa de achar graça nas suas
reações. Acho que é aquele lado sádico e perverso que
manifesta-se dos recônditos dos nossos instintos animalescos.
Vez
ou outra, aparece numa roda de barzinho como quem não quer
nada, só para filar uma caninha, bebida preferida por ela. E
fica insolente se negarem-lhe o gole sob a alegação de que
comungou e não pode beber o líquido impuro sobre a hóstia
sagrada. Quando alguém mais apiedado faz-lhe a generosidade,
num átimo os seus olhos ficam apertadinhos, a voz pastosa e
mais versante. Mas, ai de quem ousar perturbá-la!
Curiosa,
não pode ver alguém conversando numa porta de rua ou numa
esquina e logo encontra um assunto para contar ou bisbilhotar a
conversa.
Vivendo
sob a tutela dos vicentinos, Maria Beú sempre teve um
lugarzinho para morar, uma modesta cesta alimentar adquirida no
dispensário da entidade, além da constante – felizmente –
caridade alheia.
Já não
se tem notícias dela pelas ruas e praças da cidade, muito
menos nas igrejas ou procissões. É que Maria Beú sofre com os
achaques da idade. Sem família e sem ninguém, ela vive às
expensas do asilo quase que como indigente. Já não sofre com
as pilhérias dos meninos nem com a covardia dos adultos. Sofre,
sim, com a solidão e a angústia que são os prêmios
adquiridos pelos idosos neste país e neste mundo indiferente
aos direitos humanos, consoantes também neste torrãozinho que
é Corinto.
Numa
ocasião, uma Maria qualquer disse-me que toda Maria é
sofredora, porque herdou no nome as dores de Maria Santíssima,
mãe de Jesus. Não acredito nesse paralogismo, mas quero crer
que, todas as Marias, não importa em que circunstâncias, não
importa onde, não importa quando, estejam sob a proteção do
manto sagrado da maior de todas as Marias a cobrir-lhes os desígnios
da vida. E que as preces de Maria Beú sejam ouvidas em nome de
todas as Marias e que a sua simplicidade distinga-lhe um dia, no
céu, entre as outras tantas, pois que ela já suportou e tem
suportado todo o tipo de zombarias.
JULIETA,
A CIGARRA DO SERTÃO
Tadeu Oliveira
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“Julieta,
tá, tá
Tá me chamando
Julieta, tá, tá
Tá me chamando”
|
Por
acaso você já ouviu este versos sendo cantados pelas ruas de
Corinto? Não? Pois no dia em que passar por lá, não se assuste
nem se engane: este é o Julieta, o mais recente personagem popular
entre os tantos surgidos ou passados nesta terra onde o grande
escritor mineiro teria enorme repertório de histórias mentecaptas,
mesmo porque o nosso Julieta assemelha-se muito com Geraldo
Viramundo. Dizem alguns que depois dele apareceu o Afonsinho, mas,
creio eu, este é apenas uma caricatura inacabada de um tipo que
ainda pode fazer história.
Julieta
incorporou esta alcunha justament por causa dos versos citados
acima. Voz estridente, entoa seu canto a todos os pulmões que Deus
lhe deu e não pára nem mesmo quando a goela
seca. Tudo começou lá perto da antiga loja da DiscoBrasa, nas
confluências das ruas do Footing
e Capitão Altino, em frente à farmácia do Butinão. Num belo dia
apareceu por lá um excêntrico jovem, no auge da música “Julieta”,
que ficava na calçada oposta disputando com as caixas acústicas o
volume do som. Quando não cantava, ensaiava passos de dança
faceando-se com a parede da farmácia e, de quando em quando,
passava a beijá-la como se esta fosse uma maravilhosa donzela entre
seus braços.
Será que o nosso
extravagante amigo teria tido uma namorada ou alguma desilusão
amorosa com o nome de Julieta?
Ou será que, na sua ingenuidade visionária, conseguia vislumbrar a
musa de seus sonhos? Uma coisa posso garantir: apesar de estar a
anos luz dos encantos de Romeu, Julieta, o personagem de que se
trata esta narrativa, se nunca namorou, pelo menos teve o
conhecimento das peças íntimas usadas pelas mulheres e, vez ou
outra, mesmo por um instante apenas, deslumbrou-se com as curvas e
concavidades femininas. Muitas vezes fora flagrado perambulando
pelas bandas do Capim Gordura, zona boêmia local, espiando um tanto
zeloso os quintais das mulheres damas. Tinha ainda, em plena luz do
dia, o privilégio em atendê-las com pequenos favores na compra de
cigarros, sabonetes e
coisas do gênero, garantindo-lhe melhores condições de
visibilidade. Os seus arroubos não passavam disso. Ninguém nunca
teve notícia que houvera engraçado com alguma mulher de família,
ou mesmo as de vida fácil.
Tempos
depois foi que todo mundo tomou conhecimento do seu verdadeiro nome:
Juscelino. O nome é de presidente, mas é pseudo-cantor. E o seu
cantar lembra as cigarras insistindo em chamar as chuvas nas
cáusticas tardes do verão sertanejo. Parece adorar a chuva, pois,
nesta estação, perambula pelas enxurradas esfregando os pés,
mãos e axilas. Esta, mesmo com tanta “higiene”, insiste em
emanar odores um tanto desagradáveis. Na falta de chuva, o
encontrará numa
das tantas praças da cidade, dependurado numa torneira,
praticando o seu ritual.
Julieta,
ou melhor, Juscelino não chama atenção apenas pelo monólogo
repetitivo do seu canto ou pelos descompassos de sua dança. Ele
compõe-se no estereótipo da simploriedade: pés descalços, os
calcanhares lembram enormes voçorocas em terrenos desmatados; dedos
grossos encravados na base esparramada em pés de pato; a fisionomia
é salva pelo rasgo da boca, que parece estar em permanente sorriso
mostrando a gengiva lisa feito um recém-nascido; contornando a
boca, riscada de lábios carnudos e revirados, um bigode ralo que os
maldosos insistem em chamar de rodapé e no queixo, uma barbicha a
acompanhar toda sua extensão, como um resto de palha de aço; sua
pele morena contrasta com a alvura dos pés e mãos, devido à mania
de lavá-los a todo instante; os olhos, ora alienados ora serenos,
dão a impressão de um profundo poço onde parece estar escondido a
amálgama da sua simplicidade. Aproximando-se dele, notará que sua
cabeça se comportará como a de uma galinha, girando de um lado a
outro, num giro esperto e entrecortado, a perscrutar o terreiro
quando o perigo avança sobre sua ninhada. Desconfiança – ou será medo? – é o que não falta a
este indivíduo.
Os
seus trajes seguem sempre o mesmo figurino. Raras serão as vezes em
que você o encontrará usando calças compridas, fazendo o estilo Sérgio
Malandro, bermudas abaixo dos joelhos e uma camisa qualquer.
Possuidor de moradia, nosso doidivanas prefere o abrigo da sarjeta
ao aconchego de uma cama. Talvez por preguiça de voltar para casa
devido à distância do centro da cidade, pernoita no posto do
Santinho, dentro da vala do lavador de carros e bem cedinho, com seu
pote de margarina em punho, requer um cafezinho fresco na porta de
alguém. Indagado se não se importa de dormir ao relento, responde:
“num acho rúim não, inté gostio!” ( expressão que tornou-se
um bordão na boca dos corintianos).
Fiquei
sabendo que o seu passatempo predileto era ir lá para o asfalto, no
entroncamento dos trevos de Pirapora e Montes Claros jogar pedras no
pára-brisa de caminhões e carretas que por lá trafegam, pelo
simples prazer de ouvir o estrondo dos vidros estilhaçarem-se. Por
sorte nunca ouve nada de mais grave, mas a família teve enormes
dores de cabeça por causa disso.
Outra
atitude peculiar do nosso personagem é a sua semelhança com os
papagaios. Desculpe-me, leitor, em usar mais um membro da nossa
fauna para descrevê-lo, não porque eu queira denegri-lo, antes,
pelo contrário, quero apenas poder retrata-lo com todas as
metáforas que seu ser irradia. Voltemos ao papagaio, ou melhor,
Juscelino (ou Julieta). Ia dizendo da sua semelhança com os
papagaios. Veja se não tenho razão! Qualquer pergunta dirigida a
ele é devolvida como resposta. Se você perguntar-lhe se está com
fome, ele responderá: “tô cum fome”; se você afirmar que ele não está com fome,
repetirá o mesmo enunciado. Quer uma prova? Numa manhã em que
encontrá-lo, peça-lhe para dizer a seguinte frase: “toco
cru pegando fogo”. Caso o encontre pela tarde, diga-me depois
o que ele estará repetindo seguidamente... Salvo-me do engano,
apenas uma vez o extraordinário Julieta expressou um caso diferente
dos padrões do seu vocabulário. Foi num dia em que eu e alguns
amigos estávamos a prosear na praça Raul Gorgulho, a pracinha da
minha infância e a preferida dos mentecaptos. Julieta chegou de
mansinho passando a integrar a roda. Depois de muito divagar,
relatou uma de suas peripécias: sua mãe estava muito brava, pois
havia jogado as galinhas dela no buraco da latrina, matando as
coitadinhas atoladas no cocô. Mal o som das nossas hilárias
gargalhadas repercutiam-se pela praça, arrematou: “vaca
num dá pra jogar não, vaqu’é grande!”.
Houve
um tempo, em que o Juscelino andou desaparecido. Havia fugido de
casa e o seu exílio nas ruas obrigou sua família a levá-lo para
Belo Horizonte em busca de algum tratamento. Passado um longo tempo,
reapareceu. A olhos vistos notava-se que estava grogue, mais defectível
que o comum, com um par de olhos vagos e opacos. Desconfiava-se que,
no seu tratamento, Juscelino submetera-se a choques elétricos e
fortes medicamentos. Mas nem essa brutalidade arcaica conseguiu
apagar a inata performance do nosso personagem que, meses depois
entoava seu canto pelas ruas e praças. O seu canto agora era como
se respondesse a um chamado do inconsciente coletivo da cidade a
clamar pela alegria! O povo voltava a sorrir com a sonoridade morna
a impregnar o bochorno das tardes ensolaradas do eterno verão
corintiano...
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“Julieta,
tá, tá
Tá me chamando
Julieta, tá, tá
Tá me chamando”
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O
RETRATO DA JANELA
Tadeu Oliveira
Chegou
sorrateiro, espiando meio macambúzio pelas
frestas dos olhos a algazarra no terreiro da
casa. Pelos pés descalços, rachados e
sujos de bosta de boi,k via-se logo o seu
jeito matuto de ser. Era um ser tão minúsculo
e insignificante, que passou despercebido da
atenção dos presentes, entretidos em posar
de frente a uma máquina fotográfica que
alguém segurava.
Se
achegou devagarinho, postou pesados
embornais e um saco de aniagem no chão, no
que ouviu-se um cacarejo de frango,
destampou a cabeça do chapéu puído e
desvestiu-se do paletó de casimira
encardida, na certa herdado de alguém.
Passou a mão sobre os olhos, como a querer
desanuviá-los e, vacilante, procurou pela
dona da casa num espicho de olho, mas a
vergonha era maior que a visão.
Tão
logo deram conta da sua presença, alguém
se aproximou com presteza: uma bela moça,
indagando-o sobre o que desejava, o que fê-lo
consumir-se no simplório da sua vergonha.
Ensaiando um sorriso acanhado e jocoso,
deixou realçar os cacos de dentes pretos e
os sulcos nas faces chupadas, revelando o
xadrez das rugas e o sofrimento do sertão
dos gerais. Por um instante pensou em
arrepender de encontrar-se ali. Com voz
titubeante, quase um sibilo, perguntou pela
comadre, prima em primeiro grau, que a
consideração trazia-lhe em visita. A moça
vistosa antecipou-lhe as honras da casa,
revelando ser pessoa fina nos modos e nos
tratos, que o deixou mais precavido. A
beleza da moça aumentava o seu
constrangimento, mas no seu íntimo,
imperava um enorme desejo em saber de quem
se tratava tão singela criatura.
Anunciado
à comadre, esta veio ao encontro do primo
abrindo-se em sorrisos e perguntando notícias
dos seus. Colocando em dia a prosa,
entremeada de respostas monossílabas do
compadre, a dona da casa convidou-o a
entrar, no que foi incisivo em negar, sob a
alegação de que os pés estavam muitos
sujos. A comadre insistiu e ele preferiu
acomodar-se do lado de fora, enviesando a
conversa pelo batente da janela da cozinha.
Servido
o café com broa de fubá, foi a vez do
visitante fazer agrados à comadre,
entregando-lhe produtos agrários produzidos
pela prole lá na sua glebinha de terra.
Rapadura, queijo, polvilho, farinha de
mandioca, beiju, além da encomenda especial
de todas as vezes: um frango caipira.
Os
agrados chamaram a atenção da moça grã-fina.
Curiosidade despertada, como é do costume
das pessoas da cidade, foi aí que o matuto
veio a saber que se tratava da sobrinha do
marido da comadre, oriunda de São Paulo e
que há anos não se aventurava por aquelas
paragens.
O
homem, então, perguntou pelo regresso da moça
para as terras paulista, prometendo que,
antes da partida, traria um lote especial de
iguarias para ela, o que o deixou mais à
vontade fazendo com que a modéstia aos
poucos escapulisse do seu controle.
Após
algumas considerações a bela moça
valeu-se de uma máquina fotográfica e pôs-se
a registrar os produtos depositados sobre o
fogão “de lenha”. Afinal, sempre que
vinha visitar a parentela, fazia questão de
coletar lembranças e traduzir em recordações
nos pequenos quadrados de papel em preto e
branco. Depois, fotografou a dona da casa
guardando os agrados e o capiau foi ficando
cada vez mais intrigado com tal engenhoca. A
sua curiosidade levou-o a perguntar se era
aquilo que fazia retratos e depois de
minuciosas explicações, a moça retirou de
uma bolsa uma maço de fotografias de
diversas pessoas e lugares, passando à mão
do matuto num gesto de simpatia.
Deleitou-se, encantado com as fotografias.
Decorrido
algum tempo, a linda moça convidou-o para
tirar uma chapa com ela no que ele,
encabulado, prontificou-se a atender. Após
batida a fotografia, perscrutou o ambiente e
num lampejo, adentrou-se pela casa a
persignar-se, esquecendo-se da timidez e da
sujeira dos pés, postando-se um tanto pilhérico,
num misto de acocoramento e genuflexão, por
detrás da janela da cozinha, estufou o
peito raquítico e com voz embargada de
alegria e emoção pediu para a formosa moça
que tirasse um retrato dele naquela posição,
entre o esquadrado da janela, “focando
os peitos pra riba”, modo este que
sinalizou com um gesto de mãos, pois há
muito queria fazer seus documentos, mas
nunca tinha surgido a possibilidade de
conseguir um retrato três por quatro.
(Texto
vencedor do 3.º lugar no Concurso Literário
“Grandes Escritores de Minas Gerais”,
promovido pela Litteris Editora – RJ e
publicado no Livro de Antologias do referido
concurso em 1999)
CAÇADA
Tadeu
Oliveira
Zé Ribeiro entrou ofegante no Bar
"Lesblon" e mandou a notícia:
— Pegaro!... Pegar'o curisco!...
O rebuliço rodou as mesas,
interrompendo o carteado e acendendo
interrogações nas fisionomias curiosas,
despertando os que modorravam pelos
cantos.
— Quem foi o autor da proeza? —
perguntou Zé Argemiro, deixando
transparecer nos olhos algo mais que
curiosidade.
— Bento da "Sinhá"
Marcelina, que já vem vindo aí pra
contar a história. — respondeu, ainda
ofegante, Zé Ribeiro.
Havia meses que os caçadores
daquelas plagas pelejavam na captura dum
veado-campeiro. Como viera parar naquele
cafundó, ninguém o sabia. Desde que os
eucaliptos apoderaram-se dos cerrados e
capões, bicho de caça era artigo de
luxo, uma raridade.
Falar do veado era o assunto do
dia, passatempo preferido dos caçadores e
demais viventes, visto que novos
acontecimentos eram raros no cotidiano da
vila. A sua fama correra região atraindo
caçadores de estirpe, à medida que iam
colecionando insucessos. O bicho era tão
velhaco que logo o alcunharam
"corisco". Um
"beija-flor", no dizer dos caçadores,
desses que correm na pontinha dos cascos.
Depois de enredarem infrutíferas expedições,
justo o Bento da "Sinhá"
Marcelina foi quem veio dar epílogo ao
caso.
Fito da Chica pôs dúvida na questão:
— Du-vi-de-o-dó! Duvido mesmo
que o palerma do Bento conseguiu capturar
o "suaçu". Caçada, homem, é
pra quem tem tino e faro fino...
— Pois eu mesmo vi, co’ esses
óio que a terra haverá de comer. Tavam
levando o galheiro pra casa do Zeca
Peixeira. Lá iam destrinchar, empalhar a
cabeça, tirar os fatos... inclusive o
coração já tá prometido à cumadre
Mercês, coitadinha, que anda nas últimas.
Diz que coração de veado é bão pra
chagásico. — retrucou Zé Ribeiro,
refestelando-se na primeira cadeira vazia.
O burburinho tomou conta do bar
"Lesblon" dividindo a opinião
dos presentes, entre os que acreditavam na
epopéia e os que achavam ser mais uma
invencionice do Bento, somente para chamar
a atenção do lugar. Aliás, esta era a
sua maior especialidade.
Os jogadores pararam de orelhar a
sota e logo começaram a abrir bolsa de
apostas. Estavam neste intento quando
irrompeu pelo bar o prodigioso caçador,
peito empinado, queixo jogado para frente,
vanglorioso. As exclamações seguiram-se
de um surdo silêncio, quebrado apenas
pela voz embargada de vantagem, que o caçador
fez ressoar fortemente, esnobando:
— Desce uma cana aí, fidalguia.
Aliás, cana pra todo mundo. Quero
oferecer um brinde a todos os presentes.
Hoje eu tô com a honra de poder
festejar... E não precisa ansiedade não,
camaradas, qu'eu vou contar tudinho,
tintim-por-tintim.
A
notícia correu e o bar
"Lesblon" já não cabia de
tanta gente curiosa que viera ouvir a
odisséia, espremida por entre mesas. O
balcão foi logo cedido como tribuna ao caçador,
a fim de facilitar a audição da platéia.
— Se achegue, companheirada. Só
que antes, quero pedir pr'o Celinho correr
no açougue do Zeca Peixeira e pedir pra
mandar dois quilos de filé e dá pr'os
meus “buião”, que sem eles eu num
tava aqui, agora, relatando pr'ôces a
minha história — ordenou o Bento,
aumentando o suspense no ambiente,
enquanto alguns conferiam lá fora oscachorros
citados por ele.
João d'Alzira, retrucou:
— Não vai me dizer que ocê
pegou o viado com esses dois vira-latas
desconjuntados que tão aí fora...
— Ara! Dobre a língua,
"Seu" João, que esses cachorros
têm nome e foram eles mesmos que me
ajudaram a capturar o curisco. — atalhou
o Bento com veemência e, em seguida, ameaçou:
— E
tratem de fazer silêncio, senão não
dá pra narrar os fatos. Vou-m'embora no
mesmo pé que cheguei...
Seguiu-se um vespeiro de vozes
acalmadas apenas com os apelos do Zé
Ribeiro:
— Calma gente, calma! Não vamos
atalhar o “home”. Deixa o Bento falar.
O narrador tomou a palavra com eloqüência,
sem nenhuma pressa de chegar ao ponto
final:
— “Há muitos dias que venho
assuntando sobre esse ‘beija-flor’. Um
dia, a convite d'um cumpadre meu, ‘Sô’
Matias, resolvi acompanhar uma caçada pra
ver de perto a esperteza do bicho. Tivemos
notícias do bicho lá pr'os lado da grota
do São Pio. Juntamos a perrada, numa base
de oito americanos ‘urrador’ e quatro
‘nacional’. Nós éramos em oito
homens. Os melhores caçadores das bandas
do Muquém.
Peguei minha Astra importada,
espingarda fina na conservação. Ocês
sabem, pra atirar de longe tem que ter
confiança na arma... Os companheiros
armados até os dentes, cada calibre doze,
vint'oito, dezesseis, e vinte e quatro que
fazia gosto.
Averiguamos o paradeiro do bicho e
logo que fizemos rancharia, deixamos
compadre Joaquim Ventania encarregado da
matula e da gororoba.
Dividimos todo mundo, botamos os
homens na espera, sempre de dupla, caso um
errasse o tiro na passagem o outro
emendava, dando jeito de tocaiar o
galheiro pr'os
lados
dos grotões do Valo Fundo. Saí de
perreiro, soltando a perrada das trela. Os
cachorro começaram a ‘triar’ assim
que encontramos o rastro do corça. Tinha
chuvido uma chuva fininha, o que facilitou
a batida. Danei a bater palma, pra mó de
juntar a cachorrama.” — Enquanto ia
narrando, o emérito caçador ia
demonstrando com gestos toda a movimentação
realizada na caçada, inclusive as palmas.
— “ O campeiro deu o levante iniciando
a trabalhada dos cachorros: côu, côu, côu...
no que os bichos assentaram faro em riba
das pegadas, avistei o curisco.”
À medida que Bento de "Sinhá"
de Marcelina ia desenrolando o caso,
viam-se nos rostos expressões que iam se
desenhando conforme a ênfase dada aos
fatos narrados. Vez ou outra, alguém da
ala contrária ameaçava atalhá-lo, para
botar em dúvida a sua perspicácia de caçador,
mas era barrado por um gesto de mão do Zé
Ribeiro, agora autonomeado escudeiro-mor
do caçador. Inocêncio Vitorino, proprietário
do bar "Lesblon", era quem mais
gostava do acontecimento. O bar, ficando
cheio, melhorava o faturamento.
Após uma pausa para limpar a
garganta e bebericar um golinho de cachaça,
o caçador deu seqüência à história:
— "Bem, lá ia eu dizendo
que a perrada deu em riba do rastro fresco
do bicho. Cada urro que era uma beleza.
Urro grosso, urro fino, de conforme o tipo
da raça do cão..." — deu uma
pausa e explicou, deixando escapar a empáfia
— "Tô perdendo tempo nos
‘pormenor’, porque aqui dentro tem
muita gente que nunca viu uma caçada. Então
é pra mó de eles ficarem sabendo como é
que é que a coisa funciona. Então, quem
conhece de caçada, não precisa olhar com
desaprovação... Como eu lá ia dizendo,
a cachorrama uivava numa latomia que era
uma beleza. O veado deu levante e os
cachorros começaram a trabalhada de uivo
aberto: 'ap, ap, ap'... O danado zunia na
ponta das unhas e a cachorrada atrás. Deu
uma rabanada pra direita caindo na mira do
cumpadre meu, ‘Sô’ Matias, que chamou
fogo. Cumpadre meu errou o tiro e deu logo
grito de passagem: 'quêi, quêi, quêi,
passou por aqui'. Os cachorros apertaram
mais, atendendo o tiro. Nessa altura, quem
perseguia era só os cachorros de ponta.
O corça guinou pra banda da
esquerda dando
em
riba da mira d'outro
companheiro que puxou fogo, errando
também. O ‘diacho’ era mesmo um
beija-flor! O
danado pulava correndo, modo que
‘dificulitava’ a precisão do tiro. O
pessoal, sumindo todo mato adentro com as
espingardas alemoa na mão e eu de cá só
escutando tiro e cachorro urrando. Aos
poucos, os companheiros foram voltando
dando notícia do veado: ora nas bandas do
Socorro, ora pr'as bandas de Santa Quitéria
e outros diziam que o danado já tava lá
pr'os lados do Santo Antônio dos Monteiro
e, por último, já tava lá pr'os fundos
do Lopes. Por fim, desistimos da caça. O
bicho deixou todo mundo sambado. Bem,
‘dispois’ dessa, inda fui noutras caçadas
e nada de dar cabo do bicho. Muitos d'ocês
mesmos tiveram oportunidade de ver a
leveza do bicho. Foi aí que matutei na idéia
um modo de flagrar o danado..."
Crédulos e incrédulos, caçadores
profissionais e amadores, curiosos, todos
se acotovelavam no bar "Lesblon"
aguardando o misterioso desfecho. Ninguém
arredava pé. Isso fazia com que Bento de
"Sinhá" Marcelina aumentasse o
suspense. Afinal, todos já sabiam que os
mais afamados caçadores da redondeza não
conseguiram abater a tiros o arisco veado.
O narrador retomou sua história:
— "Fiquei muitos dias
matutando... matutando um jeito de dobrar
o curisco. Pois bem! Me alembrei do Peroca
e Nossavalença, dois cachorros ‘buião’
que ninguém dava nada por eles. Mandei
emissário lá na Grota Seca pedindo
retorno dos cachorros que tava emprestado
pro Valtinho, filho meu, pra mó de dar
jeito nuns gambás que não davam
sossego
às suas galinhas."
João d'Alzira pôs, novamente, em
dúvida a qualidade dos cães:
— Ara, pois. Ocê quer nos
engalobar com esta história que pegou o
"beija-flor" só com estes dois
pulguentos?
— Assim não dá! Se alguém me
atalhar os raciocínios de novo,
vou-m'embora. — ameaçou severamente o
contador de história.
A galera esconjurou o João
implorando a continuidade do caso. Depois
dos ânimos acalmados e muitas adulações,
Bento retomou a palavra:
— "Pr'eu continuar, tenho
que abrir umas ‘aspa’ pra falar dos
meus cães. Aliás, esses bichos mereciam
até medalha. O Peroca é filho duma
cadela lá das bandas do Pau d'Olim,
cruzada com um buião do finado Agenor
Tiro Certo. Perrada melhor que a dele não
havia por essas bandas. Nossavalença,
peguei de pequeno pra criar e só me deu
alegria. Naquele tempo em que as
‘dificulidade’ andou rondando por
estas bandas, o danando do cachorro ia no
mato, trazia caça por conta própria pra
encher nossas panelas. Por isso dei nele o
nome de Nossavalença. Depois ficava
sentado, paciente, esperando o restolho.
Na falta d'água, a ‘muié’ botava as
panelas no terreiro e Nossavalença e
Peroca dava jeito de botarem elas nos
brilhos. Lambia que lambia, lustrando as
danadas. Mas o que me acossou o pensamento
neles foi quando me alembrei de como os
dois são espertos. Pegavam os ratazões
do paiol num bote só. Sinal de esperteza
igual essa não havia de... Gato num
arreliava pr'os lado lá de casa. Também,
com uns cachorros desse, quem vai precisar
de gato?"
Nessa altura dos fatos, os menos crédulos
foram se retirando de fininho. Era muita
baboseira para um dia só. O caçador, com
a mesma eloqüência inicial, voltou a
expor a vitoriosa caçada:
— "Bem, os cachorros tão lá
fora aproveitando o filé que mandei
oferecer. E eu aqui peço a ocês o
derradeiro minuto de atenção. E não
adianta querer oferecer dinheiro nos dois,
porque
vão ficar comigo até o dia que Deus
levar.
Como lá ia dizendo, depois de muito
matutar, lembrar dos cachorros foi que o
plano acendeu nas idéias. Falei comigo
mesmo: 'Pra dar jeito neste curisco, só cão
de fôlego grande.' No caso, dois cachorros
de fôlego grande, na somatória dava o
dobro do veado. ‘Trelei’ os dois e
arribei pro Muquém atrás do rastro do
curisco. Não foi difícil de encontrar. Então,
executei minha idéia: peguei o Peroca e
amarrei nas costas do Nossavalença com as
patas pro alto de forma que, enquanto um
corria, o outro ficava em riba discansando.
‘Dispois’, invertia a posição: o que
tava por baixo passava pra riba e o de riba,
agora embaixo, dava seqüência na perseguição.
Seu moço, foi um dia e uma noite inteirinha
nessa porfia até que o ‘suaçu’, vendo
a persistência e ligeireza dos bichos, foi
fraquejando, fraquejando, parou de correr
pulado e veio meio trotando de gatão pro
meu lado. Quase que de joelho, o bicho
espichou uns óio cumprido pro meu lado, uns
óio que, só de olhar, cortava o coração.
Era um misto de tristeza, cansaço e rendição.
Isso mesmo! Pelo olhar do veado reparei que
ele tava era suplicando o tiro de misericórdia.
Foi a conta pra assinar sentença. Minha
Astra importada falou fogo e só vi quando o
‘beija-flor’ caiu estrebuchando no chão”.
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METRÓPOLE
QUALQUER
Tadeu
Oliveira
Barracos
sob viadutos
mulheres entre balas perdidas
camelôs
aids
gritos.
Um
motoboy vai depressa.
Uma ambulância vai depressa.
Uma radiopatrulha vai depressa.
Apressadas...
as janelas se fecham.
Eta! A vida continua besta, meu Deus.
(Capelinha,
09 de julho 2002. - Homenagem ao centenário de nascimento de
Carlos Drummond de Andrade).
ADEUS,
RIO DAS VELHAS, ADEUS!!!
Tasso
Alvarenga
Parecia
uma bela sexta-feira, 13 de outubro
Eu acordei bem de manhã com o cantar bem tristonho da cauã
Eu pensei comigo: a cauã diz que traz muito azar
Mas, bobagem, passo preto e curió também estavam a cantar
Eu
tomei meu cafezinho com um pedaço de bolo gostoso
Da minha mulher e da filha eu ganhei um beijo bem carinhoso
Eu tinha que ir bem depressa pegar a condução
E atravessar nosso rio, o gigante da região
Eu
não sabia o que me esperava na travessia do rio
O Sol estava raiando, acabando com o resto do frio
Eu cheguei lá no barranco para no rio entrar
Fiquei bastante assustado com os peixes no barco a encostar
O
que eu vi foi muito bonito, mas nunca queria ver não
Eu vi piaus, mandis e cascudos, muito mais de um milhão
Eu olhei para o meio do rio e vi aguapés e sujeira
Toda vez que os vejo, logo penso outra besteira
Será que já vêm outra vez esses aguapés assassinos?
Todo ano eles vêm marcar a morte dos peixes grandes e pequeninos
Eu
fui remando bem devagar o meu pequeno barco de pau
Aí que eu fui entender que o homem tinha feito outro mal
Soltou outra bomba lá em cima e caiu no rio a fagulha
Não importam com nossos rios, até pra embelezar a Pampulha
Só que aqui vivem os fracos, lá governadores e deputados
Mas daqui a pouco tempo vão ver que eles são os errados
Eles só pensam no ida de hoje, não vêem que têm filho e
parentes
Que aqui vive um povo pobre, que come peixe, mas são gentes
Pra muitas vezes matar a fome dos seus por uns dias
Quantas ocasiões este rio nos trouxe tanta alegria
Eu
olhei mas assustado ainda para o outro lado do rio
E senti, meus amigos, foi tristeza e até calafrio
Ali vi peixes maiores: dourado, pira, surubim
E perguntei a mim mesmo: por que eles pulam assim?
Então
eu fui entender por que estavam pulando
Estavam à procura do ar que na água estava faltando
Eu olhei pra o céu e vi que ele estava escurecendo
Quanto mais escurecia mais peixes iam morrendo
Eu
pe a meu grande Deus que mandasse até um temporal
Pois com a água em grande volume, podia voltar tudo ao normal
Mas ele me respondeu: “E eu, que criei toda essa grandeza,
Eu seu irmão acaba com tudo: com a água, com o ar, com a
natureza...”
Eu
tornei a ficar assustado com o vulto que vi no céu
Parece que Deus me dizia: “Passa isso tudo pro papel”
Mas, isso era tão grande, não dá para aqui relatar
A mortandade era imensa, impossível de enumerar
Pensei
comigo outra vez: por que esse situação?
Será que o homem não tem amor e nem coração?
Indefeso naquele inferno tinha aquele pobre peixinho
Era como uma epidemia, que arrasa com o mundo inteirinho
Sem
nada poder fazer, também porque eu estava só
Fui assistindo à tragédia, chorando e morrendo de dó
Tentando, pegava peixe aqui, peixe ali, peixe acolá
Eu segurava, de leve, impulsionando, tentando fazê-los nadar
Mas,
depois eu pensei bem, não adianta mais esta tentativa
Para estes milhões de peixe não tem outra alternativa
Não foi Deus que lhes enviou esta sina, esta má sorte
Todos irão, culpa do homem, de encontro até a morte
Abaixei
a cabeça, continuei a chorar
Chegou bem pertinho do barco uma curvina a me olhar
Com os olhos parecia dizer: “ou, me dê um pouquinho de ar!
E que mal nós fizemos aos homens para eles nos exterminar?”
Eu
sei, os peixes não falam, mas querem
saber a verdade
Será que nunca vão descobrir quem cometeu a maldade?
Mas vou escrever pra quem tem amor e emoção
É o pessoal da imprensa que vai arranjar solução
Publicando esta mensagem de um pobre sitiante
Pra que não aconteça jamais catástrofes desta adiante
Tomando as providências e dando muitos gritos de alerta
Pra que nossos rios não transformem em águas imundas e desertas
Então,
se um dia encontrar um filho ou um neto seu
Eu passarei muitas horas a relatar tudo o que aconteceu
E por fim direi que o rio agonizava como um ente querido dos meus
E o que eu pude fazer foi dizer: adeus, rios das Velhas, adeus!!!
Tasso
Alvarenga é morador de Beltrão. Extraído do Informativo do
Projeto Manuelzão (UFMG) – Dezembro 2002
– Ano 6
– n.º 21
DESPEDIDA
DE AMOR
Tatiane de Almeida
Como o suave cantar
de
uma sereia ainda menina,
a brisa molhada
pelo orvalho da lua
toca minha face.
E, lentamente, como
a morte, desfaz
o meu sorriso.
A melancolia do meu olhar,
cruza com
a luz das estrelas
e se perde no passado.
O presente adormece
e o futuro desaparece.
Uma fada morre, e
um anjo a sepulta
em meu coração.
O amor chora
lágrimas cristalinas, que uma
a uma enchem o
vaso da esperança.
Outra fada nasce
e a vida sorri.
Estudante
VAZIO
Wander
J. Almeida(*)
Sem
idéia,
sem amor,
sem ódio,
sem ser,
sem sofrer,
sem querer,
sem perder,
sem ter
a inspiração.
Nada digo,
nada falo,
nada sinto,
nada sou,
nada quero,
nada perco,
nada sofro,
nada tenho,
nem mesmo
a sua falta.
(*)
Corintiano, advogado. Publicou "Tanto".
C
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