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ESCRITORES  CORINTIANOS:

 

 

Antônia Rosa
Show de Bola
Quatro Rodas

Antônio Dornas
Trenzinho do sertão

Arlete V. Machado
O que é pátria, meu menino

Edênio G. Gandra
O que eu vi

Eloá Caxangá
Minha Cidade 
Mineiríssima

E.E. José B. P. Pedras
Literatura de Cordel

E.E. Profª Mª A. Campos
Tipos populares de Corinto  
Gente importante de Corinto

Instituto D. Serafim
Literatura de Cordel 

Everaldo C. Cruz
Natureza

Joni Bezerra
Ao gay Raimundo Piruca
Hippies queriam reformar o mundo

José Andrade
A Ti 
Lembrança

José Hipólito Souza
João, o assombrado 
Um estranho muito estranho

Leopoldina P. Vianna
Outubro

Marilene B. Venuto
AnimAções

Mercedes A. de Paula
Lembranças

Mercês A. Vianna
Lembranças

Nilza Silveira Gomes
O nascer de Corinto

Pedro Américo 
O relógio do guarda -freio Levizão
Um pouco de prosa
Atribulações de um velho vaqueiro

 

Pérola Gandra
Do uso das reticências 
Encontro

Filosofando
 
Teu Nome

Oliveira Cardoso
Jardim do Amor 
Outro

Raimundo Lima
Já fomos baianos

Raulino F. Magalhães
Trem de Minas 
Fuga

Tadeu Oliveira
Maria, como tantas Marias  
Julieta, a cigarra do sertão
 
O retrato da janela
 
Caçada
 
Metrópole Qualquer


Tasso Alvarenga
Adeus, rio das Velhas, adeus!!!

Tatiane de Almeida
Despedida de Amor

Wander J. Almeida
Vazio

Wilson G. Freitas
Maria-Mãe

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TEXTOS LITERÁRIOS:

  SHOW DE BOLA

Antônia Rosa

O meu coração é um imenso tapete verde
onde a bola repica sempre seu nome.
Os meus braços são as traves
e estão sempre abertos querendo te abraçar.
Dos meus cabelos longos fiz uma rede mágica
só pra te pegar.
Tento te enfeitiçar na lateral do meu olhar
apostando te convencer.
E na arquibancada do sonho
vi você partir naquele avião azul.
Sei que no pênalti armada pela vida
o gol era pura ilusão.
Minha pernas circulam na pequena área
pois agora só resta o escanteio,
meus passos decididos vão em busca de um grande
lance: encontrar você na grande área da minha
imaginação.
A torcida vibra, olé – olé – olé.
De peito aberto encontro a bola na marca
do seu coração.
Então você passou a viver
no círculo central da minha vida.

Educadora e poetisa corintiana.

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QUATRO RODAS

Antônia Rosa

Parati entreguei meus segredos
numa velocidade sem radar.
Corsa nas costas nesse tapete breu.
Ganhaste o Prêmio da sorte, Mercedes de luxo,
o conforto agressivo da fórmula Indy.
Talvez Opala,
Oh! Fusca meu sonho conversível, selvagem Mustang
que chegaste com ares de Fiesta.
Peugeot qualquer km e nem manobrou pra sair
na Brasília que nunca foi amarela.
Sentindo o Del Rey da estrada, Quantum risos
deixaste pra trás...
Eras Uno na minha vida!
Logus perderá a potência
e seu Passat te condenará.
Se resta o Pit Stop
não quero ouvir nem o ronco da Elba,
quero ir pra galera,
gritar esse Gol
porque o Tempra
é o melhor remédio
pra esquecer essa Voyage.

Educadora e poetisa corintiana.

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TRENZINHO DO SERTÃO

Antônio Dornas

Trenzinho tocado à lenha,
Vaporosa, ou "Maria Fumaça",
Que levava "João da Penha"
E dona "Maria da Graça".

       Levava, fazendeiro e lojista,
       E o ambulante, "caixeiro".
       Tinha maquinista, foguista,
       Chefe, fiscal e graxeiro.

              "Bate roda, bate trilho".
              Bater trilho era a moda.
              Eu não esqueço o estribilho,
              Daquela cantiga da roda.

                     Ia cortando o sertão,
                     Alegre, sinuoso, devagar.
                     Carregava muita emoção
                     E a certeza de voltar

                            Já não existe o trenzinho,
                            Ficou só a recordação.
                            Coração está miudinho,
                            Ficou tão triste o sertão.

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O QUE É PÁTRIA, MEU MENINO

Arlete Vieira Machado Rocha( *)

Meu menino, Pátria é:
a boneca que você embala
a bola que você joga
o carrinho que você empurra
a pipa que você empina
 

A casa onde você mora
a família que cuida de você
o sorriso da mamãe
o trabalho do papai
a adulação dos avós
 

O doce gostoso na sua boca
a fruta madurinha que caiu do pé
a flor que você cheira
a horta que dá verduras
 

Os amigos com quem você brinca 
e, às vezes, briga...
os brinquedos de roda, de cabra-cega, 
de mocinho, de casinha
os vizinhos que nos ocupam e a 
quem pedimos as coisas. 

PÁTRIA TAMBÉM É...

O riacho de tomar banho
o rio de pescar
as ruas onde todo mundo passa
a escola onde você estuda
a igreja onde rezamos
o clube que freqüentamos
a cidade onde moramos
 

E outras cidades
mais outras
outras mais
E gente, muita, muita gente!
 

TUDO ISSO, MEU MENINO, É PÁTRIA!
MAS A PÁTRIA É MUITO GRANDE E
TEM AINDA MUITO MAIS
 

A PÁTRIA AINDA É:
o céu azul cheinho de estrelas 
as florestas verdinhas 
as serras tão altas 
os rios tão grandes 
o mar de areias branquinhas 
com suas jangadas 
os pampas com o gado pastando 
os campos com as plantações 
o milharal, o cafezal 
os coqueirais dançando ao vento 
os bandos de passarinhos coloridos 
e de insetos inquietos 
os parques de árvores e sombras fresquinhas, 
as praças e os jardins com seus 
canteirinhos carregadinhos de flores 
e com seus banquinhos para os namorados... 
as minas profundas que guardam 
tesouros... Tantas cidades! 
cheinhas de fábricas, cheinhas 
de escolas, cheinhas de gente!
 

A PÁTRIA É
o chão que pisamos de onde tiramos o barro
o cimento
para fazer nossa casa, as estradas
daqui para ali.., e por aí
afora, por todos os cantos, por
todos os lados
 

OS BRASILEIROS...
Brasileirinhos pés descalços 
sapatinhos pés descalços
sapatinhos
E gente grande como o papai, 
forte e viril
TUDO É BRASIL! TUDO É BRASIL! TUDO É BRASIL!

Educadora - Escritora

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O QUE EU VI 

Edênio Godofredo Gandra( *)

          É apenas uma pletora do olhar, o caminho da narração do momento.
Ontem, quando voltava de um passeio noturno, numa primeira esquina que havia de cruzar, senti que os meus fios de cabelos, começavam a se levantar por uma força interior.
          Um vulto que me parecia de um animal muito grande e selvagem, um verdadeiro monstro de carne e osso, surgiu a uns dez braços do meu caminho a ser percorrido. Tive vontade de voltar! Mas, como poderia ser, se era o único caminho que me conduziria até minha casa?
          Já era tarde. Mais ou menos onze horas e trinta minutos da noite.
          Pensei bater à porta de um amigo qualquer para pedir auxílio.
          Todos estariam dormindo, por certo! No interior, onze horas correspondem madrugada para todos aqueles acostumados numa vida de sossego e solidão. Sentindo envergonhado comigo mesmo, tentei enfrentar a situação imprevista por mim. Os ânimos bastante cansados pelo esforço de coragem, nada queriam ter com a dureza. A luta do consciente com o subconsciente, esgotavam-me a cada vez mais. Então, diante daquele quadro que mais me trazia medo que coragem, ou melhor, confiança em mim mesmo, fiquei numa situação bastante digna de piedade por todos que me vissem ali, a tais horas da noite. Tentei voltar e agir de acordo com o meu primeiro pensar: pedir auxílio a um amigo qualquer. Como voltar?
          Quando fui dando as costas para o fantasma, senti ouvir uns passos rápidos e pesados a acompanharem-me. Como se fosse um militar ao cumprir uma ordem imediata, dei meia volta, mas, não segui o rumo desejado.
Pobre de mim, pensava eu! Que iria fazer para aquele vulto deixar que eu passasse?
          Parecia-me que já não era aquele mesmo homem de antes que presenciava aquela cena de terror.
          O sangue acumulava-me nas veias, tirando-me toda a força para correr. Com as pernas trêmulas, sentindo no corpo, deslizar-se um suor frio, provocava-me uma dor imensa, desde a cabeça até as pontas dos dedos.
          De quando em vez, sentia passar dentro de mim, uma espécie de vácuo. Estava prestes a desmaiar.
          Eu que sempre fui católico e cria em tudo que merecia fé; desde os dogmas aos pontos menos importantes para a religião, estava começando a acreditar em cousas diferentes, isto é, que a própria Igreja condena. Pensava: Bem minha mãe falou que eu não chegasse tarde em casa. Será castigo? Minhas tias contavam-me, quando criança, histórias de almas, mulas sem cabeças que apareciam a todas as crianças que pecavam e estavam em pecado mortal! Mas, já não sou mais criança! Que será isto que tanto me persegue, será o demônio que se aproxima com o carnaval? Por que vem aparecer logo a mim? Eu que sou tão bom, tão caridoso!
          Por que não vai aparecer a outras pessoas de menos medo que eu?
          Aparecer a pessoas más?
          Ah! Se meus amigos pudessem ler meus pensamentos naquela hora!
          Ou se ao menos deles soubessem!
          Eu que contava tanta vantagem; valente, destemido, corajoso para todos e para tudo! - Ah! - Se soubessem!
          Quanta zombaria não iria suportar no dia seguinte! Quanta! - É - Você que dizia ir ao cemitério a qualquer hora da noite! Você que invoca a todas as almas que lhe apareçam! Você que é bravo e que conta vantagens! “E agora?
          Pensando nisto, na minha desmoralização diante de mim mesmo; vendo aquele fantasma a acompanhar todos os meus gestos querendo agarrar-me, resolvi tomar outra providência para poder chegar até minha casa que não ficava distante.
          Tentei gritar pela primeira vez! Faltou-me a voz. Que fazer?
          Sentei-me num pedrado alto de uma casa que ficava perto. Com as vistas fixas no fantasma à minha frente, um terror aumentou ainda mais. O bicho estava de outro lado, com a mesma distância que guardava antes. Neste momento, criei alma nova e tentei reagir.
          Lembrei-me que em certa época havia lido um livro de Euclides da Cunha “Os Sertões” onde certo trecho conta histórias dos homens bravios do nordeste, que enfrentavam onças terríveis com tições de fogo. Não ia imitá-los, mas, enfrentar a situação. Desembainhei o punhal que trazia comigo; levantei-me com rapidez e coragem, dirigi-me em caminho para a luta.
          Eis que me vou colocando de pé e o animal também. Era a hora do duelo. Ao passo que ia caminhando com a faca em punho, o fantasma se retirava na mesma proporção. Andei bastante! Enxortado pelo afastamento daquela figura, gritei com bastante força: vamos! - Vem! enfrenta-me!
          — Tu tentastes correr atrás de mim, vem agora? Dizendo estas palavras, continuei andando com bastante raiva.
          Minha casa ficava mais perto. Continuei gritando!
          Quando fui passando, debaixo de um poste, onde bem em cima ficava uma luzinha vermelha, o fantasma desapareceu de minha frente. Senti outra morte dentro de mim. Quando olho para trás, - que surpresa! - o monstro continuava numa posição firme, querendo me pegar pelas costas. Gritando com voz forte, caminhei em sua direção. Ele novamente desaparece de minha frente e volta à sua antiga posição.
          Meu pai ouvia aqueles gritos de quem estava quase a morrer; conhecendo a minha fala, sai em meu socorro.
          Que espanto! Meu filho! Estás louco? Que fazes sozinho a esta hora, a gritar em voz de luta?
          Ouvindo aquela voz e conhecendo-a, respondi:
          Ajuda-me meu pai! Vamos pegar aquele monstro que há horas vem querendo me pegar.
          Qual monstro, retrucou o velho!
          Num gesto de maior coragem apontei, para o chão.
          Olha meu filho, quanta bobagem! Vamos p’ra casa.
          Estás brigando com a tua própria sombra...
          Depois de discordar um pouco, cheguei à conclusão de que aquele fantasma, era de verdade, minha própria sombra.
          Agora amigo, não rias! Deves acreditar:
          Muitas vezes nossas sombras são mais terríveis e mais amedrontadoras que os próprios monstros e os verdadeiros fantasmas.


 Bacharel em Direito e em Letras  (In-memoriam)

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MINHA CIDADE

Eloá Caxangá

(Inspirado no poema "Minha Cidade", de Cora Coralina)

Corinto, minha cidade...
Guardas em teus caminhos
A minha inocência,
Guardas em teus antigos muros
Os meus antigos segredos
Guardas em tuas ruas
As lembranças daquela
Menina feliz que fui...

Corinto, minha cidade...
Nas minha horas de angústia
Lembro-me de ti
Da segurança das tuas ruas
Que me conhecem
Do teu povo que eu conheço e amo...
Da rua Pedro Lana, minha rua
Pedaços de mim que ainda vivem lá...
Aina posso ver meu Pai com seu andar
Medido (conhecendo cada pedra) descer a rua
E eu, menina, aguardando
O abraço, o sorriso, o presente...
A querida Escola Major Clarindo de Paiva
Atravessando décadas
Com a mesma austeridade e doçura...

Corinto, minha cidade...
Nas minhas horas de alegria
Lembro-me de ti
De como foi doce
Ser jovem em teus domínios
Descer e subir mil vezes
A rua do Footing
Point de minha geração...
Ir aos bailes no Clube Ferroviário
Lugar de amores e histórias
quantas saudades!

Corinto, minha cidade...
Vives dentro de mim
Entranhada, enraizada
Todos os meus sonhos e ideais
Dentro de ti
Guardas contigo o melhor
Que tive e fui...

Corinto, minha cidade...
Eu sou aquela que um dia
Mesmo sem querer, precisou partir
Mas que vive esperando
pelo dia de voltar.

 

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MINEIRÍSSIMA

Eloá Caxangá

Eu sou Minas
Eu canto as Minas
A mina do amor
A mina interior
Eu sou do coração de Minas
E meu coração é de poeta
Mas não gosta de rimar amor e dor
Sou da terra de Juscelino,
Tancredo,
Tiradentes,
Carlos Drumonnd, o poeta-Maior
Milton Nascimento...
Adoro esta Terra
sou gamada por ela
Com suas ladeiras,
Seu povo simples
Seu queijo gostoso, famoso...
A mulher mineira, que quando
ama é tão sincera
e faz carinho como ela só
Amo Minas com suas superstições absurdas
Com suas igrejas e a sua fé
às vezes cega, mas sempre sólida
Tenho a raça dessa terra no sangue
A raça das minas...
As Minas Gerais.

 

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LITERATURA DE CORDEL

E.E. José Brígido Pereira Pedras(*)

Todos cantam a sua terra
E eu também vou cantar a minha
Com seus tipos populares:
—Manoel Pato e João Galinha. 

Corinto terra divertida
Com seus apelidos pitorescos:
Muitos são nomes fortes,
Outros fracos e bem frescos. 

Chico Gato – Piriquito
Pedro Galo e “Piriá”
Vaca Mansa, Vaca Ruça,
João Rã e João Gambá. 

Balaio e Zé Nariga,
Caraolho e Butinão,
Zé doido, Zé Barriga,
Bacuté e Macarrão. 

Macalé e Zé Maminha,
Tira-Gosto e Papagaio,
Manga Rosa e Batatinha,
Pela-Osso e Marataio. 

Sá Rosa e Zé Palito,
Pau Velho e o Fofão,
Barrão e Lamparina,
Adão Ruela e Lampião. 

Geraldo Garrote e o Boi,
Geraldo Ferrugem e o Bolinha,
Geraldo Bicanca e Marreta,
 
João Tolo e Zé Capeta. 

Neste grande coquetel
De Beú e de Fubá
Tem até Piriquitel... 

Tem Cachacinha, tem Bambu,
Aritana e Zé Mandinga,
Zé Preto e Urubu. 

Carranca e Zé Bicanca,
Pé na Cova e Bacaninha,
Maxixe e Pela-Osso,
Lambança e Nem Galinha. 

Nesta vida de orgia
Tem até Wilson Gia
Procurando a gente acha
Repolho e Borracha. 

Da Roça e Cabeção
Pindoba e Chico Gato,
Zé Rato e Azulão,
Trator e Carrapato... 

Beto Calango e Zé Banana
Fumaça e Nega Véia,
Celso Porquim e Castigo,
Bocão e Vanderléia...

Bafo de Bode e o Saci,
Neném Perigoso e o Mandim,
Maria Repolho e o Canoa
Geraldo Tarzan e o Surubim. 

Batatinha quando nasce,
Se esparrama pelo chão
Batatinha se tem raiva
Solta logo um palavrão. 

Bolinha e a bicharada
Eu o comparo a um santo
Será que São Francisco
Se importa se eu chego a tanto? 

Castigo a dança é o compasso
No tempo de sua vida
Você dançando, Castigo
Esquece sua pobre lida. 

Julieta! Julieta!
A cigarra do sertão
Seu canto alegre ameno
Arrebata o coração! 

O Felipinho Babão
Sempre a chorar e a babar
Se lhe tomavam o apito
Para o trem de ferro passar. 

Nascimento, o apaixonado
É maravilha de cantor
Tem jeito de artista, o danado
É um afinado tenor. 

O Manezinho das Moças
Das meninas namorado
Hoje, no céu de brotinhos
Deve estar sempre rodeado. 

Badeco, você na verdade
Esqueceu-se de inventar
Um tônico contra a morte
Pra ela não lhe buscar. 

Adelina, linda noiva
Com seu traje angelical
Na rua, sem noivo entoa

A marcha nupcial. 

Assim são conhecidos,
Estes vultos populares,
Povo bom e gente fina,
Zé Polaque e Zé Butina,
Amigos do Coração! 

Desse povo bom e vivo
Só não falo dos “Ivo”,
Por causa do Geraldão... 

Todos cantam a sua terra,
Eu também cantei a minha,
Com seus versos parecidos
Com as pernas do Tianinha...

(*)- Trabalho realizado pelo professores:
            Marilene Barbosa do Santos Venuto e Zacarias Barbosa da Rocha,
            Com os alunos dos 1.ºs anos A, B, C, D, E e F.

- Recomposição Poética:
            Edênio Godofredo Gandra.  

Extraído da Gincana: “Corinto Em Retrospectiva” – Ano: 1990

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TIPOS POPULARES DE CORINTO

Escola Estadual Professora Maria Amália Campos 

Meus senhores e senhoras
Atenção para meus falares
Vou lembrar-lhes sem mais demoras
Dos nossos tipos populares. 

BATATINHA

Todo mundo conhecia
A leiga professorinha,
A assídua filha de Maria
A interessante GERALDINHA. 

Não cresceu, mas casou-se,
E teve até um filhinho.
Hoje sua vida mudou-se:
Já é avó de netinho. 

Sua vida mudou-se de água para o vinho,
Pois na bebida viciou-se.
Quer ser a Xuxa do Curralinho,
Mas, na verdade, é simplesmente BATATINHA.

JOEL

Joel risadinha
Gosta de fazer gracinha,
Com a sua dentadura,
Que fica sempre frouxinha. 

Anda mancando de um pé
E é chamado de Joel Manquinha.
Todos que ele vê,
Pergunta pela perninha. 

MARIA CANOA

Essa aí que era boa!
Era mãe e era avó!
A dona Maria Canoa,
Nunca, nunca, andava só.
Uma trouxa na cabeça,
Uma neta em cada braço.
Enquanto uma neta brincava,
Ela a outra amamentava. 

Das pessoas de que gostava
O seu nome soletrava.
Ela, que não lia, não escrevia,
Achava um nome que até parecia:
Fê – i – fi – gê – e - gen – nê – a – na

Seu nome é Regina?

CASTIGO 

Castigo, mulher dengosa,
Já foi bonita e formosa.
Rodopiava num salão,
Agitando a opinião.

Dançarina em cabaré,
Rodopiava, que mulher!
Castiga ele, Maria!
Era a voz da freguesia. 

Assim se tornou popular
Nossa amiga Maria.
Tem um casal de filhos,
Criados e formados, que alegria! 

ANTÔNIA BRECHÓ

Nas ruas por onde passava,
Elegante como ela só,
Todo mundo observava
A formosa ANTÔNIA BRECHÓ. 

A velha sexagenária
Queria ser broto de trinta.
Cabelo de frente – rapava de navalha,
Pois, ele não pegava tinta. 

Dona de pensão, aquela senhora
Alugava quarto pra mulher-dama.
E de manhã, bem cedo da hora,
Já estava a cobrar o “troco da cama” 

Embora vivesse desse jeito,
Na rua da boêmia,
Exigia bom trato e respeito,
Pra si e pro seu mulherio.

CHIRIRIM BAM BÃO 

Você aceite um café?
Não! Aceito uma chá de mate.
Ele, depois que almoçava,
Preferia esse arremate. 

Era ele o “CHIRIRIM BAM BÃO”,
Que saía pedindo auxílio
Para comprar, ou fazer o caixão,
Cada dia, pra um filho. 

ARLINDA

Arlinda doida dava gritos,
Quando alguém lhe apupava.
Andava durante o dia
E pelas ruas esmolava. 

Numa lata de dois litros,
Só comida pronta recebia.
Esperando sentada, cantava,
E ali, no chão mesmo, ela comia.
Os moleques a chamavam de “TECHA”
E apitavam piu-u-i-uiu!
Ela retrucava com essa pecha:
“Vai à puta que o pariu!” 

FILIPIM BABÃO 

Mulato, baixinho, cara miúda,
Conhecido de gente pobre e gente graúda.
Andava nas ruas, mas trabalhava.
Não falava, gungunava. 

Se tataranhava uma palavra,
Ou, talvez, um palavrão,
Era então que ele babava.
Daí seu nome “FILIPIM BABÃO” 

Terno azul marinho, de casimira
E boné da mesma cor.
Quem o via tinha em mira:
Era da estação trabalhador. 

Eram os ferroviários presentes
Que recolhiam de mão em mão
E formavam o seu vencimento
E o pagador lhe dava como gratificação. 

De vez em quando, o Felipe
Mudava de profissão:
Virava guarda de trânsito,
De bandeira e apito na mão. 

MARIA CANELINHA 

Maria Canelinha, pretinha e bonitinha,
Não era alta e nem baixinha.
Usava roupas curtinhas,
Mostrando as canelinhas. 

Era uma barranqueira, de Januária,
Que andava doidinha e arrumadinha.
Em Corinto ela vivia alegre
E era chamada de “MARIA CANELINHA”. 

Lábios grossos e pintados,
Cara preta e maquiada,
Pernas brilhosas e fininhas,
Era assim MARIA CANELINHA. 

VANDERLÉIA

Vanderléia é uma senhora
Cachimbeira e bebedeira.
Seu filho anda arrumado,
Porém, ela anda que é só sujeira. 

LUZIA DOIDA 

Luzia Doida era afoita,
Hoje, me resta a lembrança
E dela me escondia, na moita. 

Pelas ruas perambulava,
Batendo numa latinha.
Saracoteava, e dançava,
E balbuciava um palavrinha. 

E na calada da noite,
Dava-se aos homens da rua.
Tornava agradável o pernoite,
Aos trovadores da lua. 

ADELINA

Adelina foi se embora
Por causa de seu nego judiador.
Foi morar debaixo da ponte,
Lá em Belo Horizonte. 

Os seus dois filhos pequenos,
A polícia carregou,
Depois desta cena triste,
Adelina se endoidou. 

ZÉ BOCÓ 

O cisterneiro José Bocó,
Era tolo como ele só.
Mas as coisas, que ele queria
De verdade mesmo, ele entendia. 

Um dia, quis até cortar o pó
Pra não mais usar o urinol.
Mas entendia bem de pescaria
E até, sobre política, discutia. 

IRACEMA 

Até que era uma bela figura:
De olhos verdes e inteligente.
Pra cada pessoa, que passava,
Falava uma rima diferente. 

“Olha o homem de roupa xadrez,
Parecendo um galo pedrês.
Dois numa bicicleta,
Um cabeludo outro careca.” 

“A mulher de saia roxa,
parecendo mulher da trouxa”.

Mas coitada da Iracema!
Neste ano ela morreu.
Parece até que de teima,
Foi fazer versos no céu. 

JUSCELINO

É o personagem popular mais recente
E canta até que a goela seque.
É cantor, mas não é presidente,
Se codinome é Juscelino Kubitscheck. 

Canta num desafogo:
Julieta-tá tá me chamando.
E ele mesmo responde, dançando:
Toco cru pegando fogo.

MANEZINHO DAS MOÇAS

Era pardo e feinho,
Bigode ralo, cabelo e fiapo,
Muito limpo, o divertido Manoelzinho
Tinha uma carinha de rato. 

Manezinho das moças,
Assim ele era chamado.
Enquanto elas faziam troças,
Ele se sentia o bem amado. 

Era bem bom no trabalho:
Cavava, limpava e plantava.
Manezinho quebrava qualquer galho,
Pois, até cozinha ele arrumava. 

A todos a quem conhecia,
Prazeiroso, ele visitava.
Ser padrinho dos meninos queria,
Os pais, de compadre chamava. 

Inesquecível tipo engraçado!
No frio, com um cachecol xadrez,
Fazia rir a moçada,
Falando inglês e francês: 

COMANTALEVU?
RUESUANF ASSUÁ?
MERCI BOCU
NEPADEQUÁ

ISABELINHA 

A singular Isabelinha
Era baixa e bem gordinha,
Para andar de fasto e se firmar
Uma bengala gostava de usar. 

Cabeça grande e cara amarela,
Um lenço escondia a cabeleira dura,
O lábio rachado, deixando a janela,
Mostrando um dente da dentadura. 

Até que seu gosto era de primeira,
Quando se falava em namorado.
Viriato Nolasco e Onofre Vieira,
Pelos dois era ela apaixonada. 

Quando em uma loja queria
Um vestido novo comprar,
De cada peça de pano pedia,
Pro balconista, 15 centímetros cortar. 

Todos já podem imaginar
Como é que seu vestido saía.
Só tinha um que era sem par:
O vestido branco da filha de Maria.

BOLINHA

Quando quiser encontrar Bolinha,
Procure-o nas lixeiras,
Que você vai encontrá-lo na Rodoviária,
Com a boca nas porqueiras. 

Ele se veste em frangalhos
E vive sempre acompanhado
De um cão imundo, esfomeado,
A procurar sujas migalhas.

Com um saco emporcalhado
É um andarilho sem sorte,
Usando um paletó preto
Parece zombar da morte. 

ARISTIDES 

Aristides é engraçadinho,
É homem trabalhador,
Faz entrega de pastéis
Pra ajudar o seu senhor. 

Anda sujo, muito ensebado,
Sempre alegre e brincalhão
Quando vê uma menina,
Mexe com ela o bonachão. 

—Tá boazinha, tá boazinha?
Acha que pode o safadinho
Encontrar um amorzinho
E não viver tão sozinho? 

MARIA BEÚ 

Desde menina eu já vira
Uma moça bom doidinha,
Que era filha de D. Elvira
E atrás da gente corrida. 

Se chamá-la de Maria Beú
Ele xinga palavrão.
Porém, é muito religiosa
E tem bom coração. 

Não perde missa, velório e procissão
E gosta muito de andar.
Começa a chorar e xingar
Se chamá-la “Maria Fubá”. 

DOMINGOS

Ô moço, quem morre no sábado
Em que dia é que se enterra?
—Ora, é na segunda-feira
que ele vai pra debaixo da terra 

Não, Domingos, você está enganado.
Quem morre em dia de sábado
No domingo deve ser enterrado,
Na segunda-feira, já fede mais que um cagado

MAJOR

Era tão engraçado o papudo
A quem todos chamava Major
Fazia festa com tudo
Gravatas tinha de toda cor. 

No dia em que sua mãe morreu
Todas as gravatas, juntas, ele usou
Verde, vermelha, amarela e cor do céu
Com todas elas o papo tampou.   

Extraído da Gincana: “Corinto Em Retrospectiva” – Ano: 1990

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GENTE IMPORTANTE DE CORINTO  

Agora senhoras e senhores
Vou falar de gente importante
Por seus grande feitos e favores
São elas lembradas a todo instante: 

ISLAND PEREIRA

Eis aqui um homem nobre
Não há ninguém que mal lhe queira
É o farmacêutico Island Pereira
Que sempre cura o rico e o pobre. 

Naquela figura esbelta se encobre
Um coração de rei, uma alma altaneira
Não há ninguém a quem ele cobre
Além do remédio a consulta certeira. 

D. EFIGÊNIA

Dona Efigênia, a sábia catequista
Por quarenta e cinco anos ensinou
Como um exemplo por todos era vista
Pelo tanto que a Deus e irmão amou. 

Era mulher que a todos ajudava
Com trabalho, conselho e oração
O que nela a todos admirava
Era a energia e o bom coração. 

Notável era a sua fidelidade
A todos, que como irmãos adotou
Como prova de sincera amizade
Afilhados, mais de duzentos deixou. 

Naquele dia em que Deus a chamou
Gente e mais gente num choro se uniu.
Uma pessoa assim argumentou:
Igual a “ela” só uma entre mil. 

ARNÔ AGUIAR

Olha esse homem de terno amarelo
Com a mala na cabeça a carregar
De vontade de saber eu me pélo
Quanto no Banco ele vai depositar 

Dinheiro tem ele igual farelo.
Aposentado inda vai trabalhar
Mas será porque não anda mais belo,
Ele que vive dinheiro a emprestar? 

O seu prazer com o dinheiro era tê-lo
Era emprestá-lo e nada comprar.
E agora que Deus levou o bom velho
O que fará no céu o Sr. Arnô Aguiar? 

DR. ALVARENGA

Este sim, este foi o maior
Em sabedoria, em cultura e em dom
Pra todas as missões de amor
Dr. Alvarenga sempre foi o bom. 

Bom esposo, bom pai, bom doutor,
Conheceu da roça e da cidade
Todo povo de Corinto morador
E a todos dedicou sua amizade. 

Muita gente de Corinto ele curou
Todo mundo em suas consultas confiava
Sua luz em cada dia demonstrou
Por isso o povo todo o amava. 

Atendia de manhã e até de madrugada
A quem procurava alívio a sua dor,
Dos pobres nem cobrava nada
E ainda os alegrava com uma pitada de humor. 

A rua mais importante tem seu nome
E isto ainda é pouco pelo que foi
Corinto inteiro deve louvar esse homem:
Dr. Alvarenga Deus te abençoe.

Extraído da Gincana: “Corinto Em Retrospectiva” – Ano: 1990

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LITERATURA DE CORDEL - TIPOS POPULARES DE CORINTO

Instituto Dom Serafim

Corinto, terra querida,
De gente esperta e amiga
Quem com amor aqui vem,
Não mais parte no trem. 

Terra boa, terra bela
Das moças e das donzelas
As pessoas que vêm de fora,
Não mais querem ir embora. 

Coro: E a cidade cresceu
        
E gente nova apareceu!... 

O Carnaval famoso,
Desse povo caloroso
Traz a LÍDIA, o CABEÇÃO
E SAPO-SECO: boa recordação!

Do centro da Gerais
Há muito pra se contá
Vem vê, meu povo, vem vê
Nossos Tipos Populá.

Do passado ao presente
Não há quem não conheça
Vivem pra lá e pra cá
Sem tá com o que se preocupá.

Coro: E a cidade cresceu
        
E gente nova apareceu!...

Voz arrastada, olhar penetrante.
Pernas grossas, estatura avolumada

Tinha ARLINDA a grande arte
De amedrontá a criançada.

LUZIA DOIDA, coitada!
De todos era explorada.
O respeito que merecia
Nunca do povo recebia.

Tinha MANEZINHO DAS MOÇAS
Gente fina a populá
Gostava de muié e pinga
E andava até o sol raiá.

Coro: ...

Portal do Sertão Mineiro,
foi “Curralim”
Foi-se embora o BOIADEIRO
E chegou o FILIPIM.

Não esqueça de repentista
Que se chamava IRACEMA
Rimava como uma artista
Só faltou ir pro cinema.

Era muito inteligente
Falava tudo rimado.
Brincava muito com a gente
E tinha um jeito engraçado. 

Coro: ...

O pobre do JABURU
Esse não vive mais
Mas tem a tal de MARIA BEÚ,
Que de rezá não esquece jamais. 

ADELINA e VANDERLÉIA
Elegância e prosa bela
Uma, o noivo abandonou
A outra, nunca noivo encontrou 

Coro: ...

Tem também o NASCIMENTO
Bebe até se embriagá.
Presente em todo casamento
Na igreja, põe-se a cantá. 

De JOÃO TOLO é chamado
Mas de tolo, não tem nada
É Esperto, é engraçado,
A brincá com a meninada. 

Tem também a grande dupla
Que gosta de nos xingá

É o JILÓ e a JURUBEBA
Que vivem só de amá.

Coro: ...

BATATINHA ou XUXINHA
Ninguém enxerga não.
Ela é tão pequenininha
Mais parece um anão. 

O BOLINHA DAS CRIANÇAS
Tem olho furado
Pela maldade do povo.
Mesmo achando o culpado
Ele não enxergará de novo. 

Portanto, minha gente boa,
Os Tipos Populá estão aí.
Quem quisé conhecê mió
É só dá um chego aqui. 

Coro: ...

Nós cantamos essa gente
Com voz forte e animada.
Somos alunas do IDS
Que topamos essa parada! 

Coro: E a cidade cresceu
         E gente nova apareceu!  

Extraído da Gincana: “Corinto Em Retrospectiva” – Ano: 1990

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NATUREZA

Everaldo Carlos Cruz(*)

Banha-me
Manhã,
Fico nu
Da sujeira de hoje;

Desigualdades...
Violências...
Desumanidades...

Estou feliz
Nos raios do Sol,
No frio que me encolhe,
No vivo verde
Das folhas;

Banha-me
Manhã
Oceano de Orvalho brilhante;
Que me faz lutar
E tonaliza,
A minha vida.

(*) Oficial da Polícia Militar

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AO GAY RAIMUNDO PIRUCA

Joni Bezerra - Jornalista

Foi ouvindo Nelson Gonçalves que conheci o primeiro homossexual da minha vida.

Isso lá em Corinto, na zona boêmia.Era desmunhecado, falava fino e cozinhava uma galinhada espetacular. Usava uma peruca de meia de seda na cabeça, como gorro, daí o apelido: Raimundo Piruca. Eu tinha uns doze anos e era louco para comer uma pratada daquela galinhada cheirosa, adornada com tomate e alface. Mas cadê a coragem de me aproximar daquele que os adultos apontavam como “exemplo a não ser seguido”? Supondo que me desceria goela abaixo também o pecado, arredio, não provei daquele rango que atraía gente até de Curvelo. Azar meu.

De longe criticava Raimundo Piruca, zombando, seguindo o exemplo dos adultos – esse sim, que jamais deveria ser seguido. Raimundo era ótimo caráter, povoava o vazio e a solidão das prostitutas, era um porto seguro neste chamado vale de lágrimas.

E especialmente nos prostíbulos de minha época esse vale era um abismo de lágrimas cavado pelo diabo, pela religião e pelos homens, pois quem se atolava nele, as mulheres, apanhava muito.Coitadas!Era visto como herói quem as espancasse após o amor (?). Hoje carregando esta cruz incômoda – de ter discriminado Raimundo Piruca e, veladamente, aquelas mulheres, avalio a quantidade enorme de outras pessoas ótimas que expurguei de minha vida por terem cor, raça, religião e comportamento diferentes.

Na nossa cultura ocidental, onde a estupidez prevalece, é até chique exibir preconceito, pois alguns o confundem com refinamento intelectual.Quanto atraso. Hoje, ateu e medonho aos 54 anos, dedico essas linhas a Raimundo Piruca e àquelas mulheres, implorando que –se ainda existirem entre nós neste abismo de lágrimas aprofundado por vagabundos como ACM – me afaguem com seu perdão.

Crônica extraída do Caderno Gerais – Jornal Estado de Minas  -quinta-feira , 7 junho de 2001, pág. 22

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HIPPIES QUERIAM REFORMAR O MUNDO

Joni Bezerra

 

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A TI   

José Andrade

Quando em ti penso, ó menina,
Sinto o fogo do desejo,
De ouvir a voz que fascina,
E de gozar do teu beijo.

               E esta minha atroz paixão,
               É que me causa delírio,
               E o meu triste coração,
               Sofre do amor o martírio!

Porém, este meu sofrer,
Há de um dia se acabar,
Quando eu deixar de viver,
Ou quando não mais te amar.

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LEMBRANÇA

José Andrade

Amei-te, sim, não se nega a verdade.
Amei-te tanto e tão ardentemente:
Quase enlouqueço de felicidade.

Perto de ti me esquecia
     a tudo e todos.
Amava. Era feliz.
Hoje eu posso afirmar-te que no mundo
Ninguém quisera assim como eu te quis.

Foste um clarão bonito em minha vida,
                                                 Luz
Que afugentava a minha escuridão;
Foste um sorriso alegre, foste
A minha grande apreensão.

Amei-te e acreditei naquele amor
(Seria crime o confessar?).
E porque tanto, tanto acreditei,
                            Agora eu sei
O quanto que soubeste me enganar.

Hoje eu quero esquecer-te. Porém,
O esquecimento não vem depressa assim.
É preciso outro amor, outra ilusão
Para que tantas mágoas tenham fim.

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JOÃO, O ASSOMBRADO

José Hipólito de Sousa

A seqüência e conseqüência das enchentes estavam deixando a população em polvorosa.

Boatos: a barragem não agüenta as águas do Velho Chico.

Impropérios, desaforos e blasfêmias conta o culpado: o rio São Francisco.

à defesa civil, nota dez.

Aos voluntários, nota dez.

Nota dez ao Governo.

Lamas, gado morto, pedaços de canoa, galhos de árvores, defuntos desconhecidos, tudo rolava na massa d'água, antes cristalina e agora barrenta.

Como em toda catástrofe há sempre o espavorido, nesta o doutor João não cedeu espaço para ninguém. A mulher, D. Maria, tinha enorme trabalho para convencê-lo de que sua casa seria a última a ser banhada pela enchente.

Mas, o doutor era todo obsessão: morreria afogado. Já enxergava os jatos d'água entrando por baixo das portas e pelo buraco da fechadura. Um mundo catastrófico. Coisa que o próprio Dante não descreveria.

à noite, João não ia ao banheiro e o arcaico urinol se tornava componente do próprio João: por nada do mundo sairia de sob a cama.

Êxodo na cidade. Férias antecipadas, licenças, dias abonados e até mesmo abandonos de emprego. Um pavor.

Certa noite, ao tomar conhecimento, pela televisão de que seria aquela uma noite de muita chuva, João foi taxativo:

—Amanhã, vou-me embora. Quem quiser que fique para ver o resultado.

Era noite e a casa do João se trancava em silêncio. Proibido: arrastar, cadeiras, descargas no vaso sanitário, tossir, qualquer ruído que viesse agravar o psiquismo do homem.

Noite alta, um grito:

—Socooooooooooorro... me acudam!

Dona Maria, sem conter o riso, acordou João:

—Tira a mão de dentro do urinol, marido.

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UM ESTRANHO MUITO ESTRANHO

José Hipólito de Souza

Sempre que retornava de suas longas caçadas, o Coronel Firmino e sua gente traziam fartas mantas de carne, ou alguma caça cativa. Desta vez dona Sinhá, sua mulher, se assustou ao deparar com um personagem maltrapilho tão estranho que, além de estar montado em uma das mulas que tinha ido com surrões de mantimentos, estava com as mãos amarradas nas ponteiras da cangalha.

De imediato, Coronel Firmino mandou alguém à cidade chamar o Juiz, o delegado e um médico. Apesar do titulo barganhado, um chamado do Coronel era uma ordem. Afinal, que eu me lembre, candidato do Coronel Firmino nunca perdeu eleição. As autoridades das redondezas, tanto ele botava quanto tirava. Era mais fácil do que domar qualquer boi ou burro brabo.

Chegando o pessoal recorrido, Coronel Firmino explica ter acampado com sua tropa (como dizia ele), no lugar de sempre para caçar. Nada encontrando após infrutuosos tentames de dias, resolveu levantar bivaque em qualquer direção.

Ao cabo de seis dias mato-a-dentro, depararam com uma clareira, onde, de uma dúzia de cabanas esparrodava um mau cheiro de embrulhar as entranhas e causar vomição. Tomados de curiosidade, foram até ao interior das choças e se acercaram com moribundos e cadáveres pôr toda a parte. O bando de urubus que tinham visto no dia anterior, lá estava em horrendo banquete. O que levavam de medicamentos foi gasto sem nenhuma valia nos desditosos maldelazentos. O melhor, era o rapazola de perto dos vinte anos. Pelos traços pareciam ser remanescentes de alguma tribo em extinção.

Tomadas as providencias de praxe, as autoridades pediram um “cabeça” para conduzi-los até ao local. Quanto ao rapaz, fora preciso uma lavação jamais feita em outro ser humano. Não fosse o sabugo de milho e o sabão de diquada, a caraca pôr todo o corpo não teria se soltado Para acabar com o piolho foi procedida a raspação da cabeça com máquina dois zeros e untação com cinza e querosene. Nos olhos remelentos, estavam as marcas da sapiranga. Vermes de toda qualidade. Para retirar um berne na perna esquerda, o doutor Xavier teve de fazer uma pequena incisura. Em suas juntas, pequenas intumescências da avariose já se assomavam.

Dona Sinhá não ficou nada satisfeita. Todo o santo dia desacatava a autoridade do Coronel Firmino, mandando que ele desse sumiço naquele “mestiço asqueroso”.

Não se ficou sabendo nada de certo da procedência daquela aldeia miserável. Dela nada restava. Como medida de prevenção e higiene os corpos foram enterrados e todas as choupanas queimadas. Ficou também acertada a tutela do mestiço pelo Coronel Firmino.

Já tratado, Marambá (ele próprio disse assim se chamar) ajudava na roça, vaquejava, aprendia a ler e não gostava de falar do passado. Mal parecido, dona Sinhá o detestava. “Se ao menos fosse um cigano bonito, poderia se casar com a Lalá” pensava dona Sinhá.

Tendo encontrado um bezerro esquartejado, Coronel Firmino pede ao pessoal, inclusive ao Marambá, atenção redobrada e cuidados especiais, pois parecia haver ali alguma onça extraviada e faminta.

O  tempo foi passando e o quotidiano se repetindo. Dona Sinhá sempre a reclamar da Lalá, solteirona sem se casar e da presença do mestiço.

Marambá, caladão e arredio, estranho e cheio de mistérios. Coronel Firmino, mandando e desmandando, mas a muito custo, mantendo a presença do mestiço. Afinal de contas, bom de serviço e de despesa pouca. A bóia, uma vez pôr dia. No barracão, apenas uma manguara com algum capim jogado pôr cima. Roupa, o Coronel Firmino mesmo as pedia aos amigos, as usadas.

Certa noite, estando a matutar com os seus botões, como acabar com a onça que vinha dizimando seus bezerros já a algum tempo, o Coronel Firmino é tomado de brusco sobressalto, pela conversa da sua mulher, dona Sinhá:

— Firmino, ocê num acha que Lalá, prá num ficar titia e num ser a vergonha da famia, num devia se casá nem que fosse com esse mestiço? Vai sê triste a única filha ficá prá titia, e titia de quem?

Coronel Firmino só não caiu porque estava recostado na espreguiçadeira. Ainda com a boca cheia de fumaça do vetusto cachimbo, apenas balbuciou em meio a um acometimento de tosse:

— Heim?...

— É isso mesmo. O meu padecimento é essa solteirona já nos quarenta sem casa. Já que até hoje num apareceu nenhum outro, nem que fosse com esse bagualão ela devia desimpacá.

O silêncio - que se fizera enquanto dona Sinhá esperava a resposta do Coronel Firmino, que atônito, parecia estar em outro mundo, com o que acabara de ouvir – é repentinamente quebrado pôr gritos da Preta Velha Tonha, que parecia ter visto coisa mal-assombrada e que em desatinado destampatório bradava:

— Socorro dona Sinhá. Socorro Coroné, acode pelo amor de Deus, acode gentes, o Marambá tá cumendo a Lalá. Acode, num deixa não!...

Os olhos de dona Sinhá brilharam de contentamento. Feliz ela exclama:

— Graças a Deus fui ouvida. Agora ela casa!

— Num deixa não Coroné. Acode ela! — Gritava histericamente a Preta Velha, prestes a esfanicar-se.

Dona Sinhá corre e fecha a porta, impedindo o Coronel Firmino e a Preta Velha Tonha de sairem em socorro da filha. Desassisada dona Sinhá vociferava:

— Ninguém vai atrapaiá meu sonho de ver a Lalá casada, nem que seja com esse índio!

Usando a força que o seu corpanzil acumulava, de sopetão o Coronel Firmino afasta sua mulher da porta e, já com o parabelum engatilhado, corre até ao barracão do mestiço.

No barracão, já abandonado pôr Marambá, grotescamente amontoado a um canto, restos esquartejados, desossados e ruminados, do que havia sido Lalá.

Classificado em concurso literário na cidade do Rio de Janeiro.  

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OUTUBRO

Leopoldina de Paiva Vianna(
*)
 

É o mês do Rosário,
Dos santos milagrosos,
Das flores e dos frutos,
E do meu aniversário!...

Outubro mês das rosas
Outubro mês das crianças
Outubro do canto das cigarras
Outubro das almas generosas!...

É o mês dos mestres
Do médico e do fisioterapeuta
Dos passarinhos que cantam
Nos quintais e nos campestres!...
 

Outubro de sóis ardentes,
Do cheiro de mato, dos muricis,
Da fumaça das queimadas,
Das árvores florescentes!...
 

É o mês das quaresmeiras,
Do ipê roxo, do ipê amarelo,
Do canto das cigarras,
No tronco da mangueiras!...
 

É o mês dos colibris
Da jandaia que canta ao longe,
No topo das palmeiras
Em coro com os bem-te-vis!...
 

Outubro dos Anjos de nossas guardas
De São Francisco de Assis
De São Judas Tadeu e São Geraldo
Das borboletas que enfeitam as matas!...
 

De Santa Terezinha de Jesus,
Que ainda bem pequenina,
Ia colher belas rosas, pelas manhãs,
Pra ofertar ao Mestre, aos pés da Cruz!...
 

Outubro um mês primaveril
Das flores bailando as cores
Do sol doirando os montes
Da Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil!...


Pedagoga - Fisioterapeuta

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LEMBRANÇAS

Mercês Alves Vianna (*) 

Porque o envelhecer é a constante preocupação do ser humano?
Envelhecer é colecionar lembranças, é percorrer estradas, é desfiar contas. Envelhecer é ter o privilégio de despertar e lembrar lembranças.
Nem tudo se perde no túnel do tempo, nem nos corredores da memória. Alegrias e tristezas nos vêm em conta-gotas ou em cascatas e cachoeiras. Lembrança, e uma viagem onde vamos deparando com os anjos e fantasmas da nossa história.
Criança alegre, criança feliz, criança travessa, que corta papelotes, deixando seu lugar vazio no altar da Virgem. Não era mesmo o seu forte o vestido de anjo e longas cerimônias piedosas.
De outra feita em lugar do hino de coroação tantas vezes ensaiados, vaidosamente cantou: Adeus, meu sabugueiro.
Risos e festas vão se desfazendo, levados ou trazidos pelo apito do trem, responsável por anos de solidão e saudade. E lá nas serras da Mantiqueira, onde só sonhar não era proibido, Corinto se fazia perto porque o amor a esperava certo... E lá longe, em Diamantina, fica a jovem a suspirar, pedindo a todos os santos para em breve se casar. Voltar para Corinto era o desejo sonhado, pois ali tinha certeza de encontrar o seu amado.
E o tempo passa, desfolhando folhas e criando amores.
Lembranças... Lembranças! 

(*) Normalista Educadora.

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O NASCER DE CORINTO

Nilza Silveira Gomes (*)

Quadro simples, mesquinho
Na encosta de um outeiro,
Um córrego, o Curralinho,
Um pouso de tropeiro,
Que partia a estrada,
Para o Rio de Janeiro,
Conduzindo a boiada,
Montado em sendeiro.

Evoco pela memória,
O fato é puro, suscinto.
E a verdadeira história
De minha terra, CORINTO.
Nascida da natureza,
Choças de palha, zinco,
Trilhos, que fortaleza,
Em mil novecentos e cinco.
 

Tudo se movimenta,
Homens passam a trabalhar.
Povo forte que tenta
A cidade improvisar!
D. Sinhazinha Pereira,
Joaquim Dias, Coronel Ricardo,
Padre Joaquim da Silveira
Olham a causa com garbo.
 

Surge, então, o povoado,
Há nova mentalidade;
Povo bom, abençoado
Na feliz localidade.
Sonho nobre, profundo,
Do Senhor Antônio Pertence;
Buscou no Velho Mundo
Esse nome que convence! 

Se abordo o passado,
Penso em Prefeito Altino, João
Ferreira, Antônio Vieira Machado
Mestra Risoleta, Vianna - Victor
Pereira
José Brígido, João de Deus,
Clarindo de Paiva, Maria Vitória
Patronos dos filhos seus,
Vultos de nossa história.

           Corinto hoje é crescida
           Por força da emulação.
           Sorri, está convencida,
           É a deusa do sertão.
           Então, Corinto formosa,

           Que grande hilaridade,

           Você, assim, tão vaidosa,
           São arrufos, é mocidade!
 

Poucos anos vivente
E já parece centenária;
Lindos brincos com pingente
Feitos de luminária,
Bem calçada, iluminada,
Casas altas de sobrado,
Praça ampla, ajardinada
Recanto de enamorado.
 

Já notou que bulício?
Palmas, canto, muita flor
Transcorre o seu natalício
Em discurso e tambor,
Escute, cidade amada,
lhe digo tudo que sinto:
sou mui privilegiada.
Sou natural de Corinto

(*) Pedagoga, Educadora

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O RELÓGIO DO GUARDA-FREIOS LEVIZÃO 

Pedro Américo 

Sebastião Mandrak, Zé Cristino e Levizão. Ferroviários do tempo das vaporosas cruzando serras, cortando matas e seguindo os rios. Corinto a Diamantina, Corinto a Pirapora, Corinto a Montes Claros. Passaram a vida na lida com os trens. Trabalho difícil e penoso numa época em que a ferrovia era o  principal meio de transporte na  região dos sertões.

Era uma madrugada fria do mês de junho e os três estavam juntos para mais uma viagem. Um trem cargueiro que partia de Corinto com destino a Pirapora. Iniciava a viagem  pela madrugada levando vagões carregados com mercadorias, na cauda, um vagão tanque carregado com água para ser distribuída nas turmas da via que existiam às margens da linha, pequenas casas onde moravam o pessoal que cuidava da manutenção da estrada de ferro. Carrapato, Pratinha, Contria, Beltrão, Porto Faria, Buritis das Mulatas. Eram comuns aquelas  vilas de ferroviários, casas  enfileiradas ao longo dos trilhos.

Sebastião Mandrak, Zé Cristino e Levizão partiram com o dia ainda escuro conduzindo o trenzinho parador. Levizão era o  responsável pelo abastecimento dos reservatórios das vilas com a água do tanque. Grandão nos seus mais de dois metros de altura, uns cento e vinte quilos, chegou para o trabalho feliz da vida. Carregava na algibeira um reluzente Patek Phillip. Um relojão  trabalhado a ouro, relíquia herdada do pai e que usava com orgulho. O relógio tinha chegado na véspera de Belo Horizonte onde tinha sido regulado e polido, pois não confiava naqueles relojoeiros de Corinto, achava  todos uns incompetentes.

Todas as paradas, todas as turmas, todas as estações Levizão exibia a jóia rara. Discursava com o seu vozeirão de trovão. Juntava gente para mostrar e elogiar a pontualidade do Patek. Uma preciosidade.

O maquinista Sebastião ficava a beira da loucura dentro da locomotiva. Corria de um lado para o outro da cabine, gritava que estava atrasado, buzinava e nada adiantava. O Levizão não deixava ninguém sem ver o seu relojão. A bronca era cada vez maior depois de cada parada. Zé Cristino sentado em seu banco fingia que nada via. Mãos no queixo, virado para fora da cabine, admirava as belezas da Serra do Cabral.

A Serra do Cabral aparece de repente na curva da linha logo após a estação de Contria. Aparece junto com o Rio das Velhas já bojudo, parrudo, serpenteando na mata retorcida e rala. Serrado bravo. A linha do trem ora aproxima, ora se afasta da serra e do rio que seguem juntos, um próximo do outro e só se separam quando depois de Várzea da Palma o rio pende para a esquerda e abandona a serra para desaguar no São Francisco.

Nas épocas das chuvas  fios d'áqua deslizam pelas encostas da serra e encachoeirados procuram o leito do rio que cresce invadindo as várzeas inundando tudo. Naquele início de junho o sol fazia brilhar as águas do rio, enquanto um vento frio soprava vindo das encostas da serra.

O sol já desaparecia pelas bandas dos Gerais quando o trem alcançou o seu destino. Antes de atingir Pirapora os trilhos seguem e frente, buscando o São Francisco que chega  barulhento, espremido entre pedras, passando por baixo da ponte de  ferro em forma de pequenas cachoeiras para logo após, voltar a ser manso, com suas  águas passando pela cidade sem pressa, deixando para trás a praia, o porto e depois partir em frente, tranqüilo rumo ao norte."Remanso, Casa Nova, Santo Sé, Pilão Arcado, Sobradinho..." Onde o sertão vai virar mar.

Levy ficou pelas imediações da estação até a noite chegar. Só uma rua de terra separa a estação do rio. Quando a cidade adormece, o barulho da águas chega acompanhado da brisa que sopra de leve agitando as folhas das velhas mangueiras da praça da estação. Já era noite alta quando o guarda-freios atravessou a praça em direção ao dormitório. No outro dia a luta seria grande com o trem de retorno. Antes de deitar para o repouso teve o cuidado de colocar o Patek no tampo de um tamborete e prender a corrente do relógio em uma das pernas do móvel para não correr risco de ser roubado.

No meio da madrugada acordou com a boca seca, a bexiga estourando. Sentou na cama procurando o interruptor tateando a parede com as mãos. Não conseguindo levantou sonolento, andando de um lado para outro sem conseguir acender a luz. No desespero arriscou um passo maior em direção a porta no que deu com a canela na beirada do tamborete onde tinha ficando o relojão que foi arremessado contra a parede.

A volta foi uma tristeza. Levizão em todas as paradas, todas as turmas, todas as estações, desconsolado exibia em um lenço os pedaços do seu Patecão. O presente de seu falecido pai.

O maquinista Sebastião sentado no comando da locomotiva e com a cabeça entre as mãos, já não tinha forças para reagir. Zé Cristino, do outro lado da cabine, olhando rabo-de-olho o companheiro desesperado, fingia observar ao longe a Serra do Cabral que  azulava no horizonte.

Velho Carlos, já se passaram mais de vinte anos, o trenzinho parador já não circula mais. Apenas a brisa do rio ainda sopra as folhas das velhas mangueiras da praça da estação. O Guarda-Freios Levizão partiu em um outro trem  para um lugar onde o tempo não importa.

Consegui uma semana de férias e estou em Pirapora. Andando pelas ruas a procura de uns versos, deparei com a saudade do tempo em que fui maquinista da RFFSA e viajava por aqueles trilhos.

Sei que voltarei para casa sem nenhum verso, pois sou apenas louco, não sou poeta. A última loucura que fiz foi prometer a um sobrinho a letra para uma canção. De tanto  ouvir o tio falar na vida do povo que mora no Vale o garoto está pronto para botar o  pé na estrada.

Abraços a Todos.  

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UM POUCO DE PROSA

Pedro Américo

Quando o Prego cruzava pela direita o Detão já estava na área pronto para enfiar a carapinha na bola era gol certo. A jogada era manjada, mas ninguém segurava o Prego que recebia a bola enfiada pelo Mico num passe longo do meio do campo. Matava na barriga, ia até a linha de fundo e cruzava.

Nosso técnico era o Jacy Preto que tinha vindo de São Paulo trazendo na bagagem algumas bolas e um jogo de camisas. Eu jogava no gol, na linha tinha o Pangaré, Zé Difunto, Antônio Gostoso, e Bira. Mico, Ivan, e Detão. Prego, Zé Minister e Milton de Firmino.

O Jacy sempre conseguia um caminhão velho para transportar o time para os jogos que ele ia conseguindo. Barrocão, Capivara de Cima, Capivara de Baixo, Salobro, Roça do Brejo, Estiva, Aporá, Andrequicé, Escadinha e por aí a fora. Só era preciso ter festa, barraquinhas, quermesses e dança. No final da noite namoro solto na porta da igreja, no muro do cemitério e debaixo de uma gameleira. No sertão das Gerais fazenda que se presa tem que ter gameleira na porta.

O que a gente não sabia é que o nosso técnico andava de namoro com uma raparigazinha de Marísia, um lugarejo encravado entre a linha do trem e a serra do Cabral, bem próximo de Augusto de Lima.  Não desconfiamos quando ele tirou o Detão do time e me escalou no seu lugar. Durante quase toda a partida o coitado do Prego pegava a bola, ia na linha de fundo e cruzava. Eu só via aquele "fuguete" passando e nada. O time deles tinha um zagueirão que quando o Prego ameaçava cruzar  já me metia as mãos pela cara a fora, me cuspia na fuça e não me deixava jogar, nem ver a cor da bola. E assim foi quase o jogo todo. Lá pelos 45 minutos do segundo tempo o Prego cruzou, o zagueirão veio bufando prá cima me empurrando. Quando eu ia caindo a bola pegou de raspão no alto do meu cocuruto e entrou. A confusão estava formada. Com muito custo conseguimos subir no caminhão do Juquinha.

Quando o caminhão começou a ganhar velocidade, o Detão exibiu para a turba já irrada uma bela leitoa que ele tinha roubado no chiqueiro da fazenda enquanto o jogo rolava.

Mas no meio da estrada tinha um mata-burro. No meio não, na saída da vila. O Juquinha se enrolou e enganchou o caminhão no mata-burro. Nunca apanhamos tanto na vida, foi um massacre. Descobrimos mais tarde que o zagueirão era cunhado do Jacy e também o dono da leitoa.

Abraços a Todos.

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ATRIBULAÇÕES DE UM VELHO VAQUEIRO

Pedro Américo

João Bambu é na verdade João Carvalho, vindo do Vau, nas barrancas do rio Jequitinhonha,  onde  ele  pende  para os lados de Diamantina, esbarra na serra e é obrigado mudar de rumo embrenhando pelos grotões.

Como  sempre  acontece  por  onde anda, um dia Bambu enojou daqueles lados, pegou  a tralha atravessou a viola nas costas, montou na mulinha Nobreza  e  veio bater nestas terras onde conseguiu emprego de vaqueiro e desde  então  vive  do  ofício  que  aprendeu com o velho pai Venâncio do Barrocão.  Isto  é  ele  quem conta, agora, é sabido que, na verdade, saiu mesmo foi fugindo depois de uma pendenga numa roda de viola.

Trabalha  duro  até o sábado, mas no domingo não levanta  uma palha. Veste  o  melhor terno e já bem cedo está escorado no balcão do boteco da dona  Elza  na  luta  com  um copo de cachaça e uma rodela de salame para tira-gosto.

Depois  da  terceira dose vira rei e a meninada da rua já sabe e vai tomando corpo  na  porta do bar. Pela quinta dose o Bambu já tem certeza que é mesmo um rei. Sai pela rua guiando a meninada. Vai desengonçado com seu  passo bêbado.  Vez  e quando pára, levanta o chapelão para o alto e grita.

—Quem manda no céu...?

A  molecada responde: —É o urubuuuuu...

—Quem manda na terra...?

A meninada entoa:

—É o João Bambuuuuu...

Durante o resto do dia é assim. Ele é rei as custas dos doces e refrigerantes que vai distribuindo.

Para o Vau  tinha  ido  por influência de um parente que vivia do garimpo. Naquele tempo trabalhava em empreitadas de fazenda em fazenda na região dos Gerais. Trabalho duro, no roçado ou  capina de roça, às vezes cuidando  de  gado.  Não  que o Vau fosse um lugar ruim, ruim mesmo era o trabalho  no  garimpo, não  estava  acostumado, pegou desgosto logo. Foi ficando  por precisão, até que aconteceu a pendenga com o Nestorão, coisa feia, se  estava vivo foi por sorte e por ter conseguido escapar no meio da noite.

Quando vem a lembrança daquele dia, o Nestorão arrancando a peixeira e  caminhando  na sua direção, estremece. Já havia algum tempo que andava cabreiro  com  a  vida.  O  ano  não tinha sido bom no Vau, o garimpo não estava  dando  para  o sustento, as dívidas acumulavam, já não tinha como pagar  o  armazém  e  o  Calimério  ameaçava  cortar  o  crédito.  Estava entabulando  uma  negociata com o vendeiro e tinha acertado  a entrega da junta  de  bois  em  troca  das  dívidas antigas e o recebimento de algum dinheiro de volta.

Não foi fácil negociar, a dívida era alta e o Calimério desconversou alegando  que os bois eram velhos e judiados. Velhos eram de fato, mas na secura daquela região não havia animal sem sofrimento.

Aquele  entrevero com o Nestorão era coisa do demônio como costumava dizer o  Zé  Sacristão, pois nem mesmo conhecia aquele moço. Era costume reunir  com  os  amigos  vez  em  quando  para  relembrar  umas cantorias acompanhadas  da viola que aprendera tocar com o velho Gaudêncio, tirador de folia no Curvelo.

A  refrega começou com um bate boca entre o Zé de Memé, um piauiense que  morava  no São Gonçalo e circulava na região consertando arreios e o Nestorão,  dono  de  uma  gleba  de  terra pelas bandas do Milho Verde. O motivo  era  um  desentendimento antigo. Na boca do povo o Memé andava de liberdades  com  a Miúda, uma mulatinha que o Nestorão tinha conhecido no Beco do Mota em Diamantina e que havia trazido para o São Gonçalo.

O  Nestorão chegou primeiro, estava de passagem vindo de Diamantiva. O  piauiense  apareceu  mais  tarde, bêbado, tateando a cerca encostou no mourão  da  porteira onde ficou. O Memé era  um sujeito franzino, de fala mansa, tranqüilo e de boa prosa. Ninguém entendeu quando o Nestorão deu a volta  pela  cerca  e  passou a agredi-lo. Era preciso apartar ou então o Nestorão  matava o seleiro que já sangrava.  João Bambú só aproximou para pedir que não prosseguisse com os maus-tratos. O que não esperava é que de  repente  o  moço  desse com a peixeira no seu pescoço. Não fosse o Zé Sacristão  meter  a mão no braço do Nestorão, ele teria a garganta varada pela  faca  que  ainda  lhe  pegou  o ombro esquerdo e foi rasgando até o peito.  A  cegueira,  um  passo  atrás,  a  mão na garrucha, o estampido, Nestorão rolando pelo chão com a mão no peito.

Ainda  não  tinha anoitecido quando conseguiu chegar em casa. Depois do  tiro e  aproveitando a confusão, conseguiu alcançar a mata atravessar o  riacho,  pular a cerca e entrar pelos fundos.  Foi o tempo de juntar o que podia e colocar a mulinha Nobreza na estrada.

Saiu  no  meio  da  noite  por  um desvio que descambava por trás do cemitério. Alcançou a mata rala que dava para o garimpo, atravessou o rio e  foi  subindo  morro  beirando  os  abismos  até  alcançar as bandas de Diamantina  que  ficava a umas sete léguas noite adentro. A mulinha gemia carregando o peso no meio das pedras.

O  dia já ia pelo meio quando avistou Diamantina, acampou no alto do morro  protegido  entre  as  pedras.  Do  alto   a cidade podia ser vista esparramada  morro  abaixo. Só ao escurecer aventurou uma caminhada até a venda  do  Antero  no  beco  do Mota, onde costumava beber quando vinha a cidade.  Com  o  amigo  conseguiu o que precisava para continuar viagem e teve notícias que  reviravam o Vau à sua procura.

Não  tinha  destino certo,  viajava  sem prestar atenção no tempo. Naquela  época  do  ano, o  profundo  azul do céu incomodava, a falta de nuvens  já  com  o  mês  de  junho  adiantado  era sinal de muito frio. O silêncio profundo às vezes era quebrado por um bando de maitacas cortando o espaço, um berro ao longe ou um troféu rápido de uma montaria. As  árvores retorcidas do cerrado recebiam os raios do sol quase rente ao chão, a luminosidade castigava os olhos.

Três  dias  depois  tinha  chegado em Tomas Gonzaga. O caminho tinha  sido  difícil, viajou pelas trilhas do mato evitando as estradas, carecia descansar para seguir viagem e ali parecia um lugar seguro.

Chegou  no  meio da noite. Parou na  boca  ponte.  As muitas horas de viagem tinham estropiado o animal, carecia descansar. Tirou os arreios e  observou  as  bicheiras que sangravam. A mulinha estava definhando, na certa não iria aquentar continuar  viajando.

Atravessou a ponte e subiu a rua até a praça. A lua cheia iluminava a  igreja.  O  enorme  cruzeiro  fazia sombra na grama. Vultos cruzavam o largo  no  silêncio  da noite. No frio de junho uma lua cheia iluminava o casario, ouvia-se apenas ruídos no do meio da noite. Retirou do bolso um pedaço de fumo e passou a fazer um cigarro enquanto subia em direção ao largo.

Observou  o movimento. Do outro lado da praça duas portas iluminadas pela  luz  de  um  lampião mostrava o interior de um armazém. Deu a volta desviando  dos cavalos amarrados junto as portas e entrou. A luz morna do lampião  clareava  o  recinto  onde  sentados em volta de uma mesa alguns homens conversavam.

Foi  direto  ao  balcão  pediu  um  copo  de aguardente. O homem de amarelo  que  atendia  do outro lado do balcão encheu e copo e estendeu a mão  direita  em busca do pagamento enquanto com a outra retinha a o copo no balcão. Pagou  e passou a beber observando o movimento do lugar. Já  era  noite alta quando saiu do armazém. A lua ainda iluminava a praça.  Aqui e ali alguma luz de lampião escapava das frestas das portas, janelas e telhados.

Caminhou  a passos lentos até a ponte. A mulinha levantou a cabeça e ficou  a  observá-lo.  Sentou  no barranco da estrada e passou a fazer um cigarro esperando o dia clarear. A cabeça pesava.

Começava  a  soprar  um  vento  leve, chegando pela manhã, vindo das bandas  do  Rio  das Velhas. O horizonte vermelho confirmava que seria um ano de muito frio. Uma garça  cruzou o azul do céu em direção ao rio.Um  cavaleiro  aproximou da ponte num trote apressado. Percebeu que era um dos que conversavam no armazém da praça. O homem de amarelo, agora na  luz  do  dia  aparentava  mais idade, os sulcos no rosto e os cabelos brancos aparecendo sob o chapéu de feltro indicavam se tratar de um homem na  casa  do sessenta anos. Bem próximo e sem apear do cavalo cumprimentou com um aceno que o Bambu, por sua vez, respondeu sem vontade.

A  mulinha  Nobreza não amanhecera bem. Os quartos traseiros arriados no chão  impediam-na de andar. Em vão o animal, firmando o corpo sobre as patas dianteiras, tentava levantar-se. Foram dois dias de sofrimento e agonia até morrer.

Bambu  juntou a tralha que restou e pegou a estrada, duas léguas até o  Jabuticaba,  mais  uma  até  Corinto.  Não veio direto, embrenhou pelas fazendas  em  busca  de  algum  ganhame para o sustento. Em Corinto mesmo chegou ajudando Pedro dos Reis, filho de dona Chiquinha dos Reis, moradora mais  antiga das terras do Corredor, a trazer um boiada para embarcar em um trem da Central do Brasil.

No  último  domingo do ano que passou João Bambú não saiu do rancho em  que  morava.  Acordou  ainda  com  o  dia escuro, com dores no peito e com dificuldades  para respirar sentou-se no chão da porta que dava para o fundo do  quintal. Enquanto observava a cachorra Mazurca que dormia sob o pé de ingá, encostou  a  cabeça  cansada no mourão da porta.

Um resto de chuva ainda  fazia  barulho no telhado. O velho vaqueiro estava iniciando mais uma viagem.

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DO USO DAS RETICÊNCIAS 

Pérola Soares Gandra (*) 

Meu esposo levantou-se da velha cadeira da varanda e anunciou-me a visita que chegara.
O tempo era curto. Assentamos os três na sala.
A expressão do meu marido era a de sempre: olhos profundos, mãos cruzadas, um leve sorriso de boca fechada. E o visitante instalou-se na poltrona, muito à vontade, com suas botas recém—chegadas da fazenda empoeiradas, com a mesma cara de domingo e de segunda-feira, sem pressa nenhuma.
A conversa iniciou-se entre os dois a respeito do tempo seco, dos pastos maltratados, do preço do gado, das altas e baixas do mercado.
Em seguida, o visitante dirigiu-se a mim, falando do motivo de estar em nossa casa: viera trazer, pessoalmente, uma crítica a algumas poesias minhas. Elogiou-as. Falou do meu belo estilo, da minha sensibilidade, do meu jeito feminino de abrir o coração em versos. Falou da beleza da métrica e rima conjugadas, da precisão das palavras que pareciam uma varinha de condão tocando o peito.
De repente, com um olhar perscrutante, que só já vi nos poetas, nos filósofos e nos loucos, deixou cair a pergunta:
— Por que tantas reticências?
Tomada de chofre, respondi na hora:
— Nem eu sei direito, acho que vem de dentro. Eu me considero vagante,indefinida.
Veio o conselho do crítico literário:
— Não. Não pode. Não se pode ser indefinido no que se escreve. Ou se afirma, ou se nega. Reticências são coisas que só podem ficar na alma de cada um. Passe a afirmar. Ou a negar. Não fique no meio do caminho. Ademais, a linguagem do escritor tem que ser enxuta. Sem poréns, entretantos ou reticências.
Não me senti ofendida. Afinal, as palavras saiam de um grande conhecedor dos estilos lingüísticos.
Ele leu vários poemas meus. Declamou-os com reticências e depois, sem reticências. Falou muito. Muito mesmo.
Meu marido observava somente. E eu, conhecendo-o como conhecia, admirador incondicional dos meus escritos, podia até ler seus pensamentos: 
— Porque cortar as reticências dela, se as coloca no lugar tão certinho?
E de reticências a reticências eles se renderam aos falares , sem pensar nas horas, perambulando pela retórica, pela poesia, pela filosofia.
De onde estava, mais ouvi do que falei, como não é muito do meu feitio. Minha sensatez me dizia que eu tinha que aproveitar aquele momento ímpar do encontro de dois filósofos.
A prosa acabou.

À
noite, ao caminhar pela calça­da, de mãos dadas com meu marido, como fazíamos diariamente, lembrei-me da visita e voltamos ao assunto das reticências. Numa divagação, cheguei a dizer-lhe que se a vida parasse ali, naquele instante, eu iria deixá-la em reticências.
Não sei que rumo tomou a conversa. Aquele colóquio amadureceu-me uns bons anos. Afirmar. Negar. E deixar desta história de não é bem assim, pode ser diferente, você tem razão em parte.
Certo é que, o ensinamento calou-me no fundo da alma: preciso ser menos evasiva. Preciso saber dizer sim ou não.
Mais tarde, desta reflexão brotou uma poesia. Achei-a mais consistente. Sem muita reticências.
A cara visita que recebemos, foi do Dr. Raulino Floresta, numa sexta-feira de setembro, lá pelas dezesseis horas, não sei de que ano. A ele devo isto: passei a cuidar-me ao usar as reticências. Porém, a verdade é que quem nasce para voar, só não voa se lhe cortarem as asas. Não posso deixar de reconhecer que meus olhos e minha alma continuam voando por aí.
Hoje, lembrando esta passagem, afirmo. Sou mesmo reticente. Mas aprendi a lição do Mestre das Letras. Agora eu sei afirmar que sou evasiva, reticente. Sem deixar reticências. 

(*) Poetisa e Psicopedagoga.  Licenciada em Letras.

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ENCONTRO

Pérola Soares Gandra( *)

Ao te encontrar a festa será tanta
E o sol se vestirá de tal beleza
Que a poesia que o universo encanta
Ante nós será pobre, com certeza.

As juras que fizemos pela vida,
O amor eterno, as nossas vãs loucuras
Serão uma por uma repetidas
E tudo será paz, sonho e doçura.

Ao te encontrar, os versos que me inflamam
Nem sei se os direi, pois a emoção
Envolverá meu pobre coração.

E de carinho um eterno paraíso 
Se abrirá para nós como um sorriso,
Na alegria sem par dos que se amam.

Psicopedagoga. Licenciada em Letras

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FILOSOFANDO 

Pérola Soares Gandra(*)

. A vida é muito bela.
Saio pensando, na tarde quente. É domingo.
Como é maravilhoso viver! Como é encantador ter olhos para ver este céu magnífico, misto de azul e vermelho, agora que o sol apronta-se para dormir.
Como é maravilhoso. De repente, uma voz:
— Uma esmolinha, Dona.
— Agora não tenho, respondo logo. Saí sem bolsa.
Continuo. Volto a pensar: mas, que encan­to está a serra! Parece um tapete esverdeado, atirado descaprichosamente sobre um móvel qualquer. Vontade de fazer versos:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 

A beleza da terra invade meu ser
E o céu majestoso reflete-se em meus olhos...
Há paz no céu, no ar, em toda parte,
E em minha’alma também há paz

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Com tanta beleza ao redor, a gente dá até para fazer versos. Quem não é poeta numa tarde como a de hoje?
— Moça, pelo amor de Deus, eu não almocei ainda. Me dá um pão?
Outro mendigo. Começo a inquietar-me, respondo:
— Olhe, meu filho, eu não tenho nem um vintém aqui. Depois eu lhe dou.
Com a cara mais triste do mundo ele se vai.
Resolvo voltar. A beleza da tarde vai se diminuindo aos poucos para mim. Uma nuvem de tristeza embaça o poente que, minutos atrás, era espantosamente lindo.
Sim, há um céu maravilhoso, há uma tarde de domingo a se acabar, há tema para poesia em todo canto, mas, aqui, bem perto, muita miséria. Gente, de carne e osso, igualzinha a mim, morrendo de fome, enquanto eu busco inspiração num fim de tarde.
Santo Deus! E eu dizia que a vida é muito bela. 

Poetisa. Publicou: “Kaleidoscópio”.

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TEU NOME

Pérola Gandra  

Pensei que nunca mais faria um verso...
Que em rimas, nunca mais escreveria...
Meus sonetos, sem dó, eu rasgaria...
Pensei que nunca mias faria um verso... 

Mas nunca, no papel, eu deixaria
Transparecer as dores desta vida,
Ao escrever, chorando, uma poesia,
Para cicatrizar uma ferida... 

Porém, no mundo de contradições,
Onde nascem e morrem ilusões,
Tudo se passa... Tudo se consome... 

Algo despedaçou-me a pobre jura:
Na timidez da minha ânsia pura,
Compus mais rimas ao falar teu nome...

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JARDIM DO AMOR

Oliveira Cardoso da Silva(
*)

Éramos dois num jardim, 
éramos dois a passear, 
meu bem pertinho de mim, 
no céu, um lindo luar.
 

Éramos dois sonhadores, 
éramos dois a sonhar,
vagando por entre as flores 
e a lua a nos clarear.
 

Provei o mel de teu beijo, 
desta boquinha mimosa, 
matamos nossos anseios 
naquela noite saudosa.
 

Passeávamos sorridentes, 
matamos desilusões 
e um grande amor de repente 
floria em dois corações.
 

Éramos dois namorados, 
só nós dois e mais ninguém, 
a lua e o céu estrelado, 
nos contemplavam do além.

(*) Trovador - compositor - repentista.

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JÁ FOMOS BAIANOS

Dr. Raimundo Lima(*)

A história de Corinto, em seus primórdios, é mais ou menos a mesma de toda a mesopotâmia formada pelos rios São Francisco, Paraopeba e Guaicuí, limitada ao Sul por uma linha imaginária que margeia a Zona Metalúrgica, ligando estes dois últimos cursos d’água, formando um paralelogramo alongado, não muito perfeito.
O povoamento dessas terras foi conseqüência da criação de gado, iniciada em meados do século dezessete.
Até início do século dezoito, essa região era tida, tranqüilamente, como pertencente à Bahia, mesmo porque não havia sido criada a Capitania de Minas Gerais, e os governadores da Capitania do Rio de Janeiro, que compreendia também as terras de São Paulo, nem sequer atentavam para esses territórios, uma vez que tinham as vistas voltadas apenas para o litoral.
Até então, não se tinha conhecimento de que as terras do Rio de Janeiro e as da Bahia eram confluentes. O mais longe que tinham avançado foi até Taubaté. Se, antes, houve expedições com o objetivo de descobrir esses limites, não há registros delas. Não se sabia que a penetração do território, partindo do Espírito Santo, do Rio ou de São Paulo podia conduzir à Bahia ou vice-versa. Nós estávamos ligados à Bahia, pela expansão dos currais de gado.
Os habitantes desta região entendiam que, para ir ao Rio ou São Vicente, era necessário viajar até a Bahia e atingir aquelas localidades por mar.

Só posteriormente, Diogo Gonçalves Laço e Domingos Proença perlustraram a bacia do Rio Sapucaí, permitindo ao alemão Glimmer fazer estudos e chegar à conclusão de que nenhuma dúvida existia sobre a continuidade do País desde a foz do São Francisco até as cabeceiras na Região de Piuí, local já conhecido pelos paulistas. Coube a Fernão Dias provar a tese do cientista germânico. As informações sobre as esmeraldas já eram do conhecimento de exploradores baianos, através de pesquisas e de informações dos indígenas. Ignorava-se, contudo, que pudessem ser atingidas, partindo-se de São Paulo, Rio de Janeiro ou Espírito Santo.

A indiferença dos governadores do Rio de Janeiro pela mesopotâmia mineira, todavia, só durou até a descoberta das minas de Sabarabuçu, por Borba Gato, e de Tripuí, pelo mulato de Taubaté, cujo nome a história ignora, e de outras.
Em 1700, Dom João de Lencastre, Governador da Bahia e, portanto, Governador Geral do Brasil, advertiu ao Governador da Capitania do Rio de Janeiro, seu subordinado, Artur de Sá, a respeito da jurisdição baiana sobre estas terras e outras mais.


Trecho do Livro “O Campo da Garça”
(*)Médico - Historiador - ex-Prefeito

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TREM DE MINAS

Raulino Floresta Magalhães

Lá vai Maria-fumaça
em chão de Minas Gerais.

Sobe serra,
desce morro,
vê mar e mar de montanhas
na ondulacão da paisagem.
Tchan... tchan... tchan... tchan...

Luar
mistério
brancura
nas ruas inconfidentes.

A noite (cansada) inventa
algum sono intermitente.
O nada em nós.
       Pouco a pouco,
em tímidas nuances de aquarela
se desenvolve o parto da manhã.

Envolta em transparências de neblinas
a madrugada acontece.
É minas, meu irmão, é Minas
      aqui presente.

minas, minas Gerais
de memoráveis conspirações:
      espia
a incongruência circunjascente.
Adia, espera, assunta.
      De repente,
explode mineiridade.
Mineiro é mineiro, gente:
Minas pensa
para o alto e para frente.

Tchan... tchan... tchan... tchan...

Lá vai, lá vai o trem.

Passa ponte
passa rio
passa passa o casario
vestido em manhã barroca.
Pasto verde verde verde.
      Bois de engorda
ruminam mansa filosofia:
sempre alheios ao mundo circunstante
desenham cores na paisagem calma.
Brancas. Pretas. Amarelas.
Cinzas. Rapés. Araçás.
Em marcha. De pé. Deitados.
Bois de múltipla geometria:
     inventam
o bucolismo de Minas.

Lá vai, lá vai o trem.
(— “Eu volto, meu bem, eu volto “).
      Maria-fumaça
viaja conspirações.

Café com pão,
manteiga não.
Café com pão,
manteiga não.

Uí... Uí... Uí... Uí...
— “Sai, boi, sai da frente”.
Mas boi mineiro é valente:
      não sai.

Ranger de ferros. Frenagem.
Bem junto ao boi,
o trem parou.
— Quem foi?
— Gado na linha.
A gente logo adivinha:
boi mineiro entrou na briga?
Dá boiada mas não sai.

— Com licença, boi.

(“Agora, sim.
A gente se entende, uai! “)

Tchan... tchan... tchan,.. tchan...

      Lá vai,l
á vai o trem
na manhã brasileira.

Uí... Uí... Uí... Uí...
O trem apita,

grita fumaça.

A nuvenzinha passa, passa
a turma de
      conservação.
Mas (bem se vê) na janela
um lenço branco se agita.
É sempre assim: trem apita
ocorrem novos acenos.
      Depois,
na vigília do íntimo recato,
      um retrato
e uma lágrima (escondida)
querendo compreensão.

Café com pão,
manteiga não.
Café com pão,
manteiga não.

Uí... Uí... Uí... Uí...
Lá vai, lá vai o trem.
Viaja a manhã mineira.
 

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FUGA

Raulino Floresta Magalhães

O sol mordia-lhe o rosto. Mas havia ternura na voz do homem:
    Morreu, Joana, morreu.
A mulher pousou os olhos na cabra defunta:
    É. Finou-se, a coitada. Agora não se tem mais o que segure a gente. Pode-se arribar.
O mormaço adormece o mundo.
Córregos morrem de sede e as lagoas são manchas de argila cinza, estorricadas no muito calor.
Árvores desnudas mendigam socorro. Quem ouve o apelo vegetal?
Açoã, no toco do pau, ainda solfeja e solfeja o mau-agouro. Joana escuta. O marido também. Eu te esconjuro, peste.
Ainda quente, o corpo da cabra morta. Foi ela (pobrezinha) a derradeira criação vivente. Antes (nos velhos dias), muitas havia: vacas de lei­te, bois de arado, cavalos de campo, tudo gordo e bonito, com muita vontade de viver e ânimo de se multiplicar. Naqueles idos, a fala animada:
    Foi muito suor, Joana, mas valeu.
    A gente é rica, marido.
    Ora, bichinha, quem vê a riqueza nisso?
    Não é nisso, não. É aqui, dentro da gente. Riqueza de amor.
     Obrigado, Joana.

O pensamento voa, vai longe, reacontece aquela manhã na vaquejada, o primeiro olhar, as palavras primeiras e depois aquele arrebatamento bom, tudo se desencadeando com muita urgência de serem felizes e a vi­da acontecendo, rolando os fatos e atos do dia-a-dia, o mundo dá, o mundo nega, oferece e recusa, um dia de­pois do outro, até ali, no agora, desgraça muita, sol, sol, sempre o sol. Aves em arribada. Retirantes, aos magotes, arrastam seus andrajos em rumos do Sul. As criações minguando, pasto roído, cacimba vazia. Os bois, fantasmas de pele e osso, andarilham nos campos e mugem solicitações inúteis, o passo lento, focinho no chão, se cansam, deitam, é o fim. Cães e uru­bus nem esperam o desenlace: vão garimpando os olhos, vaginas, cloacas dos seres agonizantes.

O céu-azul, azul, — testemunha o trágico banquete.
Uma a uma, lá se vão, deitam, morrem todas as criações.
Minguando, a vida circunstante, minguando, em dolorosa subtração.
— Sabe Joana? Deus se esqueceu de mim. Cadê lavouras? Cadê nosso gado? A gente não tem mais nada, Joana.
— Ora! Não diga bobagem. Tem sim.
— Tem o quê, mulher?
— Tem amor, bobo. Ou o sol secou teu coração?
A cabrinha amiga, foi, pois, a última criação vivente. Joana a contempla, em silenciosa veneração. Ainda brilha o pelo negro, mas são os olhos, grandes e redondos, que não se fecham, recusam a morte, absurdamente abertos, como se quisessem refletir todas as cores e formas do mundo que foi seu.
Joana lhe advinha a podridão iminente, não a quer roida de cães e uru­bus, repugna-lhe a imagem da amiga (destroçada e podre) em poluição da paisagem, essa paisagem que se enfeitava em verdeluz, e recolhia o canto dos pássaros, e foi amiga, e foi bela e foi, nos anos de fartura, a melhor razão de viver e sorrir: alegria bonita para um mundo bom.
Piedade acordou lembrança:
— Enterra-se?
O marido não respondeu. Demorou-se nos olhos silenciosos do animal defunto: eles insistiam, abertos e grandes, a mansidão paralítica.
Repete-se, a mulher:
— Enterra-se?
— Carece não, Joana. De qualquer jeito se apodrece, plantado no chão ou cá de fora. Fique aí, a pobre, olhando o sítio, até que as moscas lhe chupem a vista e os urubus lhe comam as tripas.
— E a gente, aonde vai?
— Por aí... São Paulo, Minas, algum sítio que Deus protege.
— E os terens?
— Ficam. Não servem para nada.
Era dor e revolta. Contra o céu, que nega a chuva. Contra o chão, que recusa os frutos. Ficasse tudo ali: casa, curral, chiqueiro de cabras, cacimba vazia, pasto roído, lagoa seca e as criações defuntas. Para o diabo o chão somítico.
— Isso é terra do cão, Joana. Nunca mais a gente volta.

                                                    *  *  *  *

Seguiram, nem olhavam para trás. Para que olhar? O mundo é grande, trabalha-se, coragem não falta, a vida melhora, vira-se gente outra vez. Que diabo faziam ali?
— O Sul é Sul, Joana. Outro mundo. Lá todo cristão tem direito de vi­ver.
O caminho encompridava.
Os passos (molengos) levantavam um nadinha de poeira mansa, longo acomodada no chão de brasa. Até o vento era sovino.
O agreste morria de fome.
Lento e lento o sol esmorece, quer repouso, e a tarde se espraia, pedindo a noite e o consolo de estrelas silenciosas.
Súbito:
— Ouviu, mulher?
— Trovão. Será chuva?
A nuvem pardacenta rolou no céu, cresceu, riscou faísca na fímbria do horizonte.
— É lá.
Os olhos do homem navegaram a paisagem e o pensamento pousou no sítio abandonado:
— A gente volta?
Ferveu coragem no sangue de Joana:
— Com a graça de Deus, marido.
— Vai ser ano de fartura.
As alpargatas desenharam, na poeira da estrada, os passos do regresso:
— Agora a gente enterra a pobrezinha.
Finca-se uma cruz na sepultura.
— E planta-se, junto, um pé de alecrim. Quando cheirar...
Os dois riram, riram, com muita coragem de viver.

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MARIA, COMO TANTAS MARIAS

Tadeu Oliveira

“Maria... Maria... Há tantas Marias...
Maria da Penha... Maria da Glória...
É tudo Maria!...(...)
(...) Há tantas Marias!...(...)

(...) E  foi só Maria, a Santa Maria,
A Mãe da pureza,
A Mãe da bondade,
A Mãe da justiça,
A Mãe das Marias!...”

( POEMA DAS MARIAS, Caleidoscópio, Pérola S. Gandra)

Procure-a nos terços rezados em igrejas ou em casa de alguém, que lá a encontrará juntando suas preces com as preces de outras bocas, num bater ligeiro de lábios e num tatear de contas gastas do seu rosário, roçadas pelos dedos inábeis e rústicos.

Ela é assim: não perde missa, terços, ladainhas, procissões, velórios e na Semana Santa engrossa o coro das beatas na procissão do enterro do Nosso Senhor Jesus Cristo, com sua voz desafinada e destoante, esforçando-se nos solfejos das palavras latinas evocadas em primeira instância pela Verônica.

Seu entretenimento preferido é bater perna pela cidade inteira mas, para dizer a verdade, creio que se ainda houvesse as carpideiras aqui por estas terras, com certeza, ela seria uma e das melhores.

Os trajes são sempre os mesmos: lenço na cabeça, blusa de mangas compridas, mesmo com forte calor, saia frisada de cores sóbrias e desbotadas batendo abaixo dos joelhos e sob os pés rotos, carcomidos nos calcanhares pela fricção do caminho percorrido nas suas andanças, um velho par de havaianas. Como complemento, traz sempre debaixo do braço, faça chuva ou faça sol, uma sombrinha e um saco plástico a servir de sacola ou de bolsa para guardar, presume-se, seu cabedal.

Não há muito o que falar das suas feições, já cansadas. Basta lembrar-se daquele personagem da Escolinha do Professor Raimundo, o aluno Baltazar da Rocha, e você atestará a verossimilhança com o tal. Há de se ressaltar que, enquanto aquele sempre trazia uma boa piada na ponta da língua, ela traz um afiado palavrão para quem atreve-se a mangar-lhe, numa sucessão de impropérios impublicáveis, contraditórios às palavras sacrossantas rogadas de sua boca. E isto é o que mais acontece, porque a molecada e até mesmo muitos marmanjos desprovidos de autocrítica e comiseração, estão incontinenti dirigindo-lhe os dois pseudônimos que funcionam-lhe como ofensas: MARIA BEÚ ou MARIA FUBÁ.

Quem primeiro sofre com os seus xingatórios explosivos e esfuziantes são as genitoras de quem dirigiu-lhe as palavras insultantes e, caso o desafeto insista na afirmação, ela parte para o ataque corporal. Sendo criança, uma boa corrida e  atingido o alvo, reforça com pancadas de sombrinha onde esta acertar ou, caso adulto, desfecha pedradas nem sempre certeiras.

Parece que ninguém se acostuma com ela e nem ela com ninguém. Quando pequeno sempre a vi com as mesmas atitudes e com os mesmos olhos. E a minha condição de pequeno moleque nunca impediu-me de zombar-lhe, o que me custou muitas carreiras e muitas surras de meus pais, flagrando-me os inocentes delitos. Já adulto, o meu amadurecimento perante as coisas do mundo não permite-me cogitar importuná-la mas, dependendo da zombaria imposta por algum pirralho, às vezes não se deixa de achar graça nas suas reações. Acho que é aquele lado sádico e perverso que manifesta-se dos recônditos dos nossos instintos animalescos.

Vez ou outra, aparece numa roda de barzinho como quem não quer nada, só para filar uma caninha, bebida preferida por ela. E fica insolente se negarem-lhe o gole sob a alegação de que comungou e não pode beber o líquido impuro sobre a hóstia sagrada. Quando alguém mais apiedado faz-lhe a generosidade, num átimo os seus olhos ficam apertadinhos, a voz pastosa e mais versante. Mas, ai de quem ousar perturbá-la!

Curiosa, não pode ver alguém conversando numa porta de rua ou numa esquina e logo encontra um assunto para contar ou bisbilhotar a conversa.

Vivendo sob a tutela dos vicentinos, Maria Beú sempre teve um lugarzinho para morar, uma modesta cesta alimentar adquirida no dispensário da entidade, além da constante – felizmente – caridade alheia.

Já não se tem notícias dela pelas ruas e praças da cidade, muito menos nas igrejas ou procissões. É que Maria Beú sofre com os achaques da idade. Sem família e sem ninguém, ela vive às expensas do asilo quase que como indigente. Já não sofre com as pilhérias dos meninos nem com a covardia dos adultos. Sofre, sim, com a solidão e a angústia que são os prêmios adquiridos pelos idosos neste país e neste mundo indiferente aos direitos humanos, consoantes também neste torrãozinho que é Corinto.

Numa ocasião, uma Maria qualquer disse-me que toda Maria é sofredora, porque herdou no nome as dores de Maria Santíssima, mãe de Jesus. Não acredito nesse paralogismo, mas quero crer que, todas as Marias, não importa em que circunstâncias, não importa onde, não importa quando, estejam sob a proteção do manto sagrado da maior de todas as Marias a cobrir-lhes os desígnios da vida. E que as preces de Maria Beú sejam ouvidas em nome de todas as Marias e que a sua simplicidade distinga-lhe um dia, no céu, entre as outras tantas, pois que ela já suportou e tem suportado todo o tipo de zombarias.

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JULIETA, A CIGARRA DO SERTÃO

Tadeu Oliveira

“Julieta, tá, tá
Tá me chamando

Julieta, tá, tá

Tá me chamando”

Por acaso você já ouviu este versos sendo cantados pelas ruas de Corinto? Não? Pois no dia em que passar por lá, não se assuste nem se engane: este é o Julieta, o mais recente personagem popular entre os tantos surgidos ou passados nesta terra onde o grande escritor mineiro teria enorme repertório de histórias mentecaptas, mesmo porque o nosso Julieta assemelha-se muito com Geraldo Viramundo. Dizem alguns que depois dele apareceu o Afonsinho, mas, creio eu, este é apenas uma caricatura inacabada de um tipo que ainda pode fazer história.

Julieta incorporou esta alcunha justament por causa dos versos citados acima. Voz estridente, entoa seu canto a todos os pulmões que Deus lhe deu e não pára nem mesmo quando a goela seca. Tudo começou lá perto da antiga loja da DiscoBrasa, nas confluências das ruas do Footing e Capitão Altino, em frente à farmácia do Butinão. Num belo dia apareceu por lá um excêntrico jovem, no auge da música “Julieta”, que ficava na calçada oposta disputando com as caixas acústicas o volume do som. Quando não cantava, ensaiava passos de dança faceando-se com a parede da farmácia e, de quando em quando, passava a beijá-la como se esta fosse uma maravilhosa donzela entre seus braços.

Será que o nosso extravagante amigo teria tido uma namorada ou alguma desilusão amorosa com o nome de Julieta? Ou será que, na sua ingenuidade visionária, conseguia vislumbrar a musa de seus sonhos? Uma coisa posso garantir: apesar de estar a anos luz dos encantos de Romeu, Julieta, o personagem de que se trata esta narrativa, se nunca namorou, pelo menos teve o conhecimento das peças íntimas usadas pelas mulheres e, vez ou outra, mesmo por um instante apenas, deslumbrou-se com as curvas e concavidades femininas. Muitas vezes fora flagrado perambulando pelas bandas do Capim Gordura, zona boêmia local, espiando um tanto zeloso os quintais das mulheres damas. Tinha ainda, em plena luz do dia, o privilégio em atendê-las com pequenos favores na compra de cigarros,  sabonetes e coisas do gênero, garantindo-lhe melhores condições de visibilidade. Os seus arroubos não passavam disso. Ninguém nunca teve notícia que houvera engraçado com alguma mulher de família, ou mesmo as de vida fácil.

Tempos depois foi que todo mundo tomou conhecimento do seu verdadeiro nome: Juscelino. O nome é de presidente, mas é pseudo-cantor. E o seu cantar lembra as cigarras insistindo em chamar as chuvas nas cáusticas tardes do verão sertanejo. Parece adorar a chuva, pois, nesta estação, perambula pelas enxurradas esfregando os pés, mãos e axilas. Esta, mesmo com tanta “higiene”, insiste em emanar odores um tanto desagradáveis. Na falta de chuva, o  encontrará   numa  das tantas praças da cidade, dependurado numa torneira, praticando o seu ritual.

Julieta, ou melhor, Juscelino não chama atenção apenas pelo monólogo repetitivo do seu canto ou pelos descompassos de sua dança. Ele compõe-se no estereótipo da simploriedade: pés descalços, os calcanhares lembram enormes voçorocas em terrenos desmatados; dedos grossos encravados na base esparramada em pés de pato; a fisionomia é salva pelo rasgo da boca, que parece estar em permanente sorriso mostrando a gengiva lisa feito um recém-nascido; contornando a boca, riscada de lábios carnudos e revirados, um bigode ralo que os maldosos insistem em chamar de rodapé e no queixo, uma barbicha a acompanhar toda sua extensão, como um resto de palha de aço; sua pele morena contrasta com a alvura dos pés e mãos, devido à mania de lavá-los a todo instante; os olhos, ora alienados ora serenos, dão a impressão de um profundo poço onde parece estar escondido a amálgama da sua simplicidade. Aproximando-se dele, notará que sua cabeça se comportará como a de uma galinha, girando de um lado a outro, num giro esperto e entrecortado, a perscrutar o terreiro quando o perigo avança sobre sua ninhada.  Desconfiança – ou será medo? – é o que não falta a este indivíduo. 

Os seus trajes seguem sempre o mesmo figurino. Raras serão as vezes em que você o encontrará usando calças compridas, fazendo o estilo Sérgio Malandro, bermudas abaixo dos joelhos e uma camisa qualquer. Possuidor de moradia, nosso doidivanas prefere o abrigo da sarjeta ao aconchego de uma cama. Talvez por preguiça de voltar para casa devido à distância do centro da cidade, pernoita no posto do Santinho, dentro da vala do lavador de carros e bem cedinho, com seu pote de margarina em punho, requer um cafezinho fresco na porta de alguém. Indagado se não se importa de dormir ao relento, responde: “num acho rúim não, inté gostio!” ( expressão que tornou-se um bordão na boca dos corintianos).

Fiquei sabendo que o seu passatempo predileto era ir lá para o asfalto, no entroncamento dos trevos de Pirapora e Montes Claros jogar pedras no pára-brisa de caminhões e carretas que por lá trafegam, pelo simples prazer de ouvir o estrondo dos vidros estilhaçarem-se. Por sorte nunca ouve nada de mais grave, mas a família teve enormes dores de cabeça por causa disso.

Outra atitude peculiar do nosso personagem é a sua semelhança com os papagaios. Desculpe-me, leitor, em usar mais um membro da nossa fauna para descrevê-lo, não porque eu queira denegri-lo, antes, pelo contrário, quero apenas poder retrata-lo com todas as metáforas que seu ser irradia. Voltemos ao papagaio, ou melhor, Juscelino (ou Julieta). Ia dizendo da sua semelhança com os papagaios. Veja se não tenho razão! Qualquer pergunta dirigida a ele é devolvida como resposta. Se você perguntar-lhe se está com fome, ele responderá: “tô cum fome”; se você afirmar que ele não está com fome, repetirá o mesmo enunciado. Quer uma prova? Numa manhã em que encontrá-lo, peça-lhe para dizer a seguinte frase: “toco cru pegando fogo”. Caso o encontre pela tarde, diga-me depois o que ele estará repetindo seguidamente... Salvo-me do engano, apenas uma vez o extraordinário Julieta expressou um caso diferente dos padrões do seu vocabulário. Foi num dia em que eu e alguns amigos estávamos a prosear na praça Raul Gorgulho, a pracinha da minha infância e a preferida dos mentecaptos. Julieta chegou de mansinho passando a integrar a roda. Depois de muito divagar, relatou uma de suas peripécias: sua mãe estava muito brava, pois havia jogado as galinhas dela no buraco da latrina, matando as coitadinhas atoladas no cocô. Mal o som das nossas hilárias gargalhadas repercutiam-se pela praça, arrematou: “vaca num dá pra jogar não, vaqu’é grande!”.

Houve um tempo, em que o Juscelino andou desaparecido. Havia fugido de casa e o seu exílio nas ruas obrigou sua família a levá-lo para Belo Horizonte em busca de algum tratamento. Passado um longo tempo, reapareceu. A olhos vistos notava-se que estava grogue, mais defectível que o comum, com um par de olhos vagos e opacos. Desconfiava-se que, no seu tratamento, Juscelino submetera-se a choques elétricos e fortes medicamentos. Mas nem essa brutalidade arcaica conseguiu apagar a inata performance do nosso personagem que, meses depois entoava seu canto pelas ruas e praças. O seu canto agora era como se respondesse a um chamado do inconsciente coletivo da cidade a clamar pela alegria! O povo voltava a sorrir com a sonoridade morna a impregnar o bochorno das tardes ensolaradas do eterno verão corintiano...

“Julieta, tá, tá
Tá me chamando

Julieta, tá, tá

Tá me chamando”

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O RETRATO DA JANELA

Tadeu Oliveira

Chegou sorrateiro, espiando meio macambúzio pelas frestas dos olhos a algazarra no terreiro da casa. Pelos pés descalços, rachados e sujos de bosta de boi,k via-se logo o seu jeito matuto de ser. Era um ser tão minúsculo e insignificante, que passou despercebido da atenção dos presentes, entretidos em posar de frente a uma máquina fotográfica que alguém segurava.

Se achegou devagarinho, postou pesados embornais e um saco de aniagem no chão, no que ouviu-se um cacarejo de frango, destampou a cabeça do chapéu puído e desvestiu-se do paletó de casimira encardida, na certa herdado de alguém. Passou a mão sobre os olhos, como a querer desanuviá-los e, vacilante, procurou pela dona da casa num espicho de olho, mas a vergonha era maior que a visão.

Tão logo deram conta da sua presença, alguém se aproximou com presteza: uma bela moça, indagando-o sobre o que desejava, o que fê-lo consumir-se no simplório da sua vergonha. Ensaiando um sorriso acanhado e jocoso, deixou realçar os cacos de dentes pretos e os sulcos nas faces chupadas, revelando o xadrez das rugas e o sofrimento do sertão dos gerais. Por um instante pensou em arrepender de encontrar-se ali. Com voz titubeante, quase um sibilo, perguntou pela comadre, prima em primeiro grau, que a consideração trazia-lhe em visita. A moça vistosa antecipou-lhe as honras da casa, revelando ser pessoa fina nos modos e nos tratos, que o deixou mais precavido. A beleza da moça aumentava o seu constrangimento, mas no seu íntimo, imperava um enorme desejo em saber de quem se tratava tão singela criatura.

Anunciado à comadre, esta veio ao encontro do primo abrindo-se em sorrisos e perguntando notícias dos seus. Colocando em dia a prosa, entremeada de respostas monossílabas do compadre, a dona da casa convidou-o a entrar, no que foi incisivo em negar, sob a alegação de que os pés estavam muitos sujos. A comadre insistiu e ele preferiu acomodar-se do lado de fora, enviesando a conversa pelo batente da janela da cozinha.

Servido o café com broa de fubá, foi a vez do visitante fazer agrados à comadre, entregando-lhe produtos agrários produzidos pela prole lá na sua glebinha de terra. Rapadura, queijo, polvilho, farinha de mandioca, beiju, além da encomenda especial de todas as vezes: um frango caipira.

Os agrados chamaram a atenção da moça grã-fina. Curiosidade despertada, como é do costume das pessoas da cidade, foi aí que o matuto veio a saber que se tratava da sobrinha do marido da comadre, oriunda de São Paulo e que há anos não se aventurava por aquelas paragens.

O homem, então, perguntou pelo regresso da moça para as terras paulista, prometendo que, antes da partida, traria um lote especial de iguarias para ela, o que o deixou mais à vontade fazendo com que a modéstia aos poucos escapulisse do seu controle.

Após algumas considerações a bela moça valeu-se de uma máquina fotográfica e pôs-se a registrar os produtos depositados sobre o fogão “de lenha”. Afinal, sempre que vinha visitar a parentela, fazia questão de coletar lembranças e traduzir em recordações nos pequenos quadrados de papel em preto e branco. Depois, fotografou a dona da casa guardando os agrados e o capiau foi ficando cada vez mais intrigado com tal engenhoca. A sua curiosidade levou-o a perguntar se era aquilo que fazia retratos e depois de minuciosas explicações, a moça retirou de uma bolsa uma maço de fotografias de diversas pessoas e lugares, passando à mão do matuto num gesto de simpatia. Deleitou-se, encantado com as fotografias.

Decorrido algum tempo, a linda moça convidou-o para tirar uma chapa com ela no que ele, encabulado, prontificou-se a atender. Após batida a fotografia, perscrutou o ambiente e num lampejo, adentrou-se pela casa a persignar-se, esquecendo-se da timidez e da sujeira dos pés, postando-se um tanto pilhérico, num misto de acocoramento e genuflexão, por detrás da janela da cozinha, estufou o peito raquítico e com voz embargada de alegria e emoção pediu para a formosa moça que tirasse um retrato dele naquela posição, entre o esquadrado da janela, “focando os peitos pra riba”, modo este que sinalizou com um gesto de mãos, pois há muito queria fazer seus documentos, mas nunca tinha surgido a possibilidade de conseguir um retrato três por quatro.

 (Texto vencedor do 3.º lugar no Concurso Literário “Grandes Escritores de Minas Gerais”, promovido pela Litteris Editora – RJ e publicado no Livro de Antologias do referido concurso em 1999)

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CAÇADA

Tadeu Oliveira

            Zé Ribeiro entrou ofegante no Bar "Lesblon" e mandou a notícia:

            — Pegaro!... Pegar'o curisco!...

            O rebuliço rodou as mesas, interrompendo o carteado e acendendo interrogações nas fisionomias curiosas, despertando os que modorravam pelos cantos.

            — Quem foi o autor da proeza? — perguntou Zé Argemiro, deixando transparecer nos olhos algo mais que curiosidade.

            — Bento da "Sinhá" Marcelina, que já vem vindo aí pra contar a história. — respondeu, ainda ofegante, Zé Ribeiro.

            Havia meses que os caçadores daquelas plagas pelejavam na captura dum veado-campeiro. Como viera parar naquele cafundó, ninguém o sabia. Desde que os eucaliptos apoderaram-se dos cerrados e capões, bicho de caça era artigo de luxo, uma raridade.

            Falar do veado era o assunto do dia, passatempo preferido dos caçadores e demais viventes, visto que novos acontecimentos eram raros no cotidiano da vila. A sua fama correra região atraindo caçadores de estirpe, à medida que iam colecionando insucessos. O bicho era tão velhaco que logo o alcunharam "corisco". Um "beija-flor", no dizer dos caçadores, desses que correm na pontinha dos cascos. Depois de enredarem infrutíferas expedições, justo o Bento da "Sinhá" Marcelina foi quem veio dar epílogo ao caso.

            Fito da Chica pôs dúvida na questão:

            — Du-vi-de-o-dó! Duvido mesmo que o palerma do Bento conseguiu capturar o "suaçu". Caçada, homem, é pra quem tem tino e faro fino...

            — Pois eu mesmo vi, co’ esses óio que a terra haverá de comer. Tavam levando o galheiro pra casa do Zeca Peixeira. Lá iam destrinchar, empalhar a cabeça, tirar os fatos... inclusive o coração já tá prometido à cumadre Mercês, coitadinha, que anda nas últimas. Diz que coração de veado é bão pra chagásico. — retrucou Zé Ribeiro, refestelando-se na primeira cadeira vazia.

            O burburinho tomou conta do bar "Lesblon" dividindo a opinião dos presentes, entre os que acreditavam na epopéia e os que achavam ser mais uma invencionice do Bento, somente para chamar a atenção do lugar. Aliás, esta era a sua maior especialidade.

            Os jogadores pararam de orelhar a sota e logo começaram a abrir bolsa de apostas. Estavam neste intento quando irrompeu pelo bar o prodigioso caçador, peito empinado, queixo jogado para frente, vanglorioso. As exclamações seguiram-se de um surdo silêncio, quebrado apenas pela voz embargada de vantagem, que o caçador fez ressoar fortemente, esnobando:

            — Desce uma cana aí, fidalguia. Aliás, cana pra todo mundo. Quero oferecer um brinde a todos os presentes. Hoje eu tô com a honra de poder festejar... E não precisa ansiedade não, camaradas, qu'eu vou contar tudinho, tintim-por-tintim.

             A notícia correu e o bar "Lesblon" já não cabia de tanta gente curiosa que viera ouvir a odisséia, espremida por entre mesas. O balcão foi logo cedido como tribuna ao caçador, a fim de facilitar a audição da platéia.

            — Se achegue, companheirada. Só que antes, quero pedir pr'o Celinho correr no açougue do Zeca Peixeira e pedir pra mandar dois quilos de filé e dá pr'os meus “buião”, que sem eles eu num tava aqui, agora, relatando pr'ôces a minha história — ordenou o Bento, aumentando o suspense no ambiente, enquanto alguns conferiam lá fora oscachorros citados por ele.

            João d'Alzira, retrucou:

            — Não vai me dizer que ocê pegou o viado com esses dois vira-latas desconjuntados que tão aí fora...

            — Ara! Dobre a língua, "Seu" João, que esses cachorros têm nome e foram eles mesmos que me ajudaram a capturar o curisco. — atalhou o Bento com veemência e, em seguida, ameaçou: — E  tratem de fazer silêncio, senão não dá pra narrar os fatos. Vou-m'embora no mesmo pé que cheguei...

            Seguiu-se um vespeiro de vozes acalmadas apenas com os apelos do Zé Ribeiro:

            — Calma gente, calma! Não vamos atalhar o “home”. Deixa o Bento falar.

            O narrador tomou a palavra com eloqüência, sem nenhuma pressa de chegar ao ponto final:

            — “Há muitos dias que venho assuntando sobre esse ‘beija-flor’. Um dia, a convite d'um cumpadre meu, ‘Sô’ Matias, resolvi acompanhar uma caçada pra ver de perto a esperteza do bicho. Tivemos notícias do bicho lá pr'os lado da grota do São Pio. Juntamos a perrada, numa base de oito americanos ‘urrador’ e quatro ‘nacional’. Nós éramos em oito homens. Os melhores caçadores das bandas do Muquém.

            Peguei minha Astra importada, espingarda fina na conservação. Ocês sabem, pra atirar de longe tem que ter confiança na arma... Os companheiros armados até os dentes, cada calibre doze, vint'oito, dezesseis, e vinte e quatro que fazia gosto.

            Averiguamos o paradeiro do bicho e logo que fizemos rancharia, deixamos compadre Joaquim Ventania encarregado da matula e da gororoba.

            Dividimos todo mundo, botamos os homens na espera, sempre de dupla, caso um errasse o tiro na passagem o outro emendava, dando jeito de tocaiar o galheiro pr'os lados dos grotões do Valo Fundo. Saí de perreiro, soltando a perrada das trela. Os cachorro começaram a ‘triar’ assim que encontramos o rastro do corça. Tinha chuvido uma chuva fininha, o que facilitou a batida. Danei a bater palma, pra mó de juntar a cachorrama.” — Enquanto ia narrando, o emérito caçador ia demonstrando com gestos toda a movimentação realizada na caçada, inclusive as palmas. — “ O campeiro deu o levante iniciando a trabalhada dos cachorros: côu, côu, côu... no que os bichos assentaram faro em riba das pegadas, avistei o curisco.”

            À medida que Bento de "Sinhá" de Marcelina ia desenrolando o caso, viam-se nos rostos expressões que iam se desenhando conforme a ênfase dada aos fatos narrados. Vez ou outra, alguém da ala contrária ameaçava atalhá-lo, para botar em dúvida a sua perspicácia de caçador, mas era barrado por um gesto de mão do Zé Ribeiro, agora autonomeado escudeiro-mor do caçador. Inocêncio Vitorino, proprietário do bar "Lesblon", era quem mais gostava do acontecimento. O bar, ficando cheio, melhorava o faturamento.

            Após uma pausa para limpar a garganta e bebericar um golinho de cachaça, o caçador deu seqüência à história:

            — "Bem, lá ia eu dizendo que a perrada deu em riba do rastro fresco do bicho. Cada urro que era uma beleza. Urro grosso, urro fino, de conforme o tipo da raça do cão..." — deu uma pausa e explicou, deixando escapar a empáfia — "Tô perdendo tempo nos ‘pormenor’, porque aqui dentro tem muita gente que nunca viu uma caçada. Então é pra mó de eles ficarem sabendo como é que é que a coisa funciona. Então, quem conhece de caçada, não precisa olhar com desaprovação... Como eu lá ia dizendo, a cachorrama uivava numa latomia que era uma beleza. O veado deu levante e os cachorros começaram a trabalhada de uivo aberto: 'ap, ap, ap'... O danado zunia na ponta das unhas e a cachorrada atrás. Deu uma rabanada pra direita caindo na mira do cumpadre meu, ‘Sô’ Matias, que chamou fogo. Cumpadre meu errou o tiro e deu logo grito de passagem: 'quêi, quêi, quêi, passou por aqui'. Os cachorros apertaram mais, atendendo o tiro. Nessa altura, quem perseguia era só os cachorros de ponta.

            O corça guinou pra banda da esquerda dando  em  riba da mira d'outro  companheiro que puxou fogo, errando também. O ‘diacho’ era mesmo um beija-flor! O  danado pulava correndo, modo que ‘dificulitava’ a precisão do tiro. O pessoal, sumindo todo mato adentro com as espingardas alemoa na mão e eu de cá só escutando tiro e cachorro urrando. Aos poucos, os companheiros foram voltando dando notícia do veado: ora nas bandas do Socorro, ora pr'as bandas de Santa Quitéria e outros diziam que o danado já tava lá pr'os lados do Santo Antônio dos Monteiro e, por último, já tava lá pr'os fundos do Lopes. Por fim, desistimos da caça. O bicho deixou todo mundo sambado. Bem, ‘dispois’ dessa, inda fui noutras caçadas e nada de dar cabo do bicho. Muitos d'ocês mesmos tiveram oportunidade de ver a leveza do bicho. Foi aí que matutei na idéia um modo de flagrar o danado..."

            Crédulos e incrédulos, caçadores profissionais e amadores, curiosos, todos se acotovelavam no bar "Lesblon" aguardando o misterioso desfecho. Ninguém arredava pé. Isso fazia com que Bento de "Sinhá" Marcelina aumentasse o suspense. Afinal, todos já sabiam que os mais afamados caçadores da redondeza não conseguiram abater a tiros o arisco veado.

            O narrador retomou sua história:

            — "Fiquei muitos dias matutando... matutando um jeito de dobrar o curisco. Pois bem! Me alembrei do Peroca e Nossavalença, dois cachorros ‘buião’ que ninguém dava nada por eles. Mandei emissário lá na Grota Seca pedindo retorno dos cachorros que tava emprestado pro Valtinho, filho meu, pra mó de dar jeito nuns gambás que não davam sossego às suas galinhas."

            João d'Alzira pôs, novamente, em dúvida a qualidade dos cães:

            — Ara, pois. Ocê quer nos engalobar com esta história que pegou o "beija-flor" só com estes dois pulguentos?

            — Assim não dá! Se alguém me atalhar os raciocínios de novo, vou-m'embora. — ameaçou severamente o contador de história.

            A galera esconjurou o João implorando a continuidade do caso. Depois dos ânimos acalmados e muitas adulações, Bento retomou a palavra:

            — "Pr'eu continuar, tenho que abrir umas ‘aspa’ pra falar dos meus cães. Aliás, esses bichos mereciam até medalha. O Peroca é filho duma cadela lá das bandas do Pau d'Olim, cruzada com um buião do finado Agenor Tiro Certo. Perrada melhor que a dele não havia por essas bandas. Nossavalença, peguei de pequeno pra criar e só me deu alegria. Naquele tempo em que as ‘dificulidade’ andou rondando por estas bandas, o danando do cachorro ia no mato, trazia caça por conta própria pra encher nossas panelas. Por isso dei nele o nome de Nossavalença. Depois ficava sentado, paciente, esperando o restolho. Na falta d'água, a ‘muié’ botava as panelas no terreiro e Nossavalença e Peroca dava jeito de botarem elas nos brilhos. Lambia que lambia, lustrando as danadas. Mas o que me acossou o pensamento neles foi quando me alembrei de como os dois são espertos. Pegavam os ratazões do paiol num bote só. Sinal de esperteza igual essa não havia de... Gato num arreliava pr'os lado lá de casa. Também, com uns cachorros desse, quem vai precisar de gato?"

            Nessa altura dos fatos, os menos crédulos foram se retirando de fininho. Era muita baboseira para um dia só. O caçador, com a mesma eloqüência inicial, voltou a expor a vitoriosa caçada:  

            — "Bem, os cachorros tão lá fora aproveitando o filé que mandei oferecer. E eu aqui peço a ocês o derradeiro minuto de atenção. E não adianta querer oferecer dinheiro nos dois, porque  vão ficar comigo até o dia que Deus levar.

            Como lá ia dizendo, depois de muito matutar, lembrar dos cachorros foi que o plano acendeu nas idéias. Falei comigo mesmo: 'Pra dar jeito neste curisco, só cão de fôlego grande.' No caso, dois cachorros de fôlego grande, na somatória dava o dobro do veado. ‘Trelei’ os dois e arribei pro Muquém atrás do rastro do curisco. Não foi difícil de encontrar. Então, executei minha idéia: peguei o Peroca e amarrei nas costas do Nossavalença com as patas pro alto de forma que, enquanto um corria, o outro ficava em riba discansando. ‘Dispois’, invertia a posição: o que tava por baixo passava pra riba e o de riba, agora embaixo, dava seqüência na perseguição. Seu moço, foi um dia e uma noite inteirinha nessa porfia até que o ‘suaçu’, vendo a persistência e ligeireza dos bichos, foi fraquejando, fraquejando, parou de correr pulado e veio meio trotando de gatão pro meu lado. Quase que de joelho, o bicho espichou uns óio cumprido pro meu lado, uns óio que, só de olhar, cortava o coração. Era um misto de tristeza, cansaço e rendição. Isso mesmo! Pelo olhar do veado reparei que ele tava era suplicando o tiro de misericórdia. Foi a conta pra assinar sentença. Minha Astra importada falou fogo e só vi quando o ‘beija-flor’ caiu estrebuchando no chão”.  

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METRÓPOLE QUALQUER  

Tadeu Oliveira

Barracos sob viadutos
mulheres entre balas perdidas
camelôs  aids  gritos. 

Um motoboy vai depressa.
Uma ambulância vai depressa.
Uma radiopatrulha vai depressa.

Apressadas... as janelas se fecham.
Eta! A vida continua besta, meu Deus.

(Capelinha, 09 de julho 2002. - Homenagem ao centenário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade).

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ADEUS, RIO DAS VELHAS, ADEUS!!!

Tasso Alvarenga

Parecia uma bela sexta-feira, 13 de outubro
Eu acordei bem de manhã com o cantar bem tristonho da cauã
Eu pensei comigo: a cauã diz que traz muito azar
Mas, bobagem, passo preto e curió também estavam a cantar 

Eu tomei meu cafezinho com um pedaço de bolo gostoso
Da minha mulher e da filha eu ganhei um beijo bem carinhoso
Eu tinha que ir bem depressa pegar a condução
E atravessar nosso rio, o gigante da região 

Eu não sabia o que me esperava na travessia do rio
O Sol estava raiando, acabando com o resto do frio
Eu cheguei lá no barranco para no rio entrar
Fiquei bastante assustado com os peixes no barco a encostar 

O que eu vi foi muito bonito, mas nunca queria ver não
Eu vi piaus, mandis e cascudos, muito mais de um milhão
Eu olhei para o meio do rio e vi aguapés e sujeira
Toda vez que os vejo, logo penso outra besteira
Será que já vêm outra vez esses aguapés assassinos?
Todo ano eles vêm marcar a morte dos peixes grandes e pequeninos 

Eu fui remando bem devagar o meu pequeno barco de pau
Aí que eu fui entender que o homem tinha feito outro mal
Soltou outra bomba lá em cima e caiu no rio a fagulha
Não importam com nossos rios, até pra embelezar a Pampulha
Só que aqui vivem os fracos, lá governadores e deputados
Mas daqui a pouco tempo vão ver que eles são os errados
Eles só pensam no ida de hoje, não vêem que têm filho e parentes
Que aqui vive um povo pobre, que come peixe, mas são gentes
Pra muitas vezes matar a fome dos seus por uns dias
Quantas ocasiões este rio nos trouxe tanta alegria 

Eu olhei mas assustado ainda para o outro lado do rio
E senti, meus amigos, foi tristeza e até calafrio
Ali vi peixes maiores: dourado, pira, surubim
E perguntei a mim mesmo: por que eles pulam assim? 

Então eu fui entender por que estavam pulando
Estavam à procura do ar que na água estava faltando
Eu olhei pra o céu e vi que ele estava escurecendo
Quanto mais escurecia mais peixes iam morrendo 

Eu pe a meu grande Deus que mandasse até um temporal
Pois com a água em grande volume, podia voltar tudo ao normal
Mas ele me respondeu: “E eu, que criei toda essa grandeza,
Eu seu irmão acaba com tudo: com a água, com o ar, com a natureza...” 

Eu tornei a ficar assustado com o vulto que vi no céu
Parece que Deus me dizia: “Passa isso tudo pro papel”
Mas, isso era tão grande, não dá para aqui relatar
A mortandade era imensa, impossível de enumerar

Pensei comigo outra vez: por que esse situação?
Será que o homem não tem amor e nem coração?
Indefeso naquele inferno tinha aquele pobre peixinho
Era como uma epidemia, que arrasa com o mundo inteirinho 

Sem nada poder fazer, também porque eu estava só
Fui assistindo à tragédia, chorando e morrendo de dó
Tentando, pegava peixe aqui, peixe ali, peixe acolá
Eu segurava, de leve, impulsionando, tentando fazê-los nadar 

Mas, depois eu pensei bem, não adianta mais esta tentativa
Para estes milhões de peixe não tem outra alternativa
Não foi Deus que lhes enviou esta sina, esta má sorte
Todos irão, culpa do homem, de encontro até a morte 

Abaixei a cabeça, continuei a chorar
Chegou bem pertinho do barco uma curvina a me olhar
Com os olhos parecia dizer: “ou, me dê um pouquinho de ar!
E que mal nós fizemos aos homens para eles nos exterminar?” 

Eu sei, os peixes não falam, mas querem  saber a verdade
Será que nunca vão descobrir quem cometeu a maldade?
Mas vou escrever pra quem tem amor e emoção
É o pessoal da imprensa que vai arranjar solução
Publicando esta mensagem de um pobre sitiante
Pra que não aconteça jamais catástrofes desta adiante
Tomando as providências e dando muitos gritos de alerta
Pra que nossos rios não transformem em águas imundas e desertas 

Então, se um dia encontrar um filho ou um neto seu
Eu passarei muitas horas a relatar tudo o que aconteceu
E por fim direi que o rio agonizava como um ente querido dos meus
E o que eu pude fazer foi dizer: adeus, rios das Velhas, adeus!!!

Tasso Alvarenga é morador de Beltrão. Extraído do Informativo do Projeto Manuelzão (UFMG) – Dezembro 2002  – Ano 6  – n.º 21

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DESPEDIDA DE AMOR

Tatiane de Almeida

Como o suave cantar de
uma sereia ainda menina,
a brisa molhada
pelo orvalho da lua
toca minha face.
E, lentamente, como
a morte, desfaz
o meu sorriso.
A melancolia do meu olhar,
cruza com
a luz das estrelas
e se perde no passado.
O presente adormece
e o futuro desaparece.
Uma fada morre, e
um anjo a sepulta
em meu coração.
O amor chora
lágrimas cristalinas, que uma
a uma enchem o
vaso da esperança.
Outra fada nasce
e a vida sorri.

Estudante

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VAZIO 

Wander J. Almeida(*)

Sem idéia,
sem amor,
sem ódio,
sem ser,
sem sofrer,
sem querer,
sem perder,
sem ter
a inspiração.
Nada digo,
nada falo,
nada sinto,
nada sou,
nada quero,
nada perco,
nada sofro,
nada tenho,
nem mesmo
a sua falta.

(*) Corintiano, advogado. Publicou "Tanto".

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